ENTRETENIMENTO
16/04/2020 12:02 -03 | Atualizado 16/04/2020 12:02 -03

Vieira de Mello tinha a empatia que falta a líderes hoje, diz Wagner Moura

Ator é estrela do filme "Sergio", que estreia na Netflix nesta sexta (17); em entrevista ao HuffPost, ele também diz que não vai ceder "nem um milímetro" sobre "Marighella".

Não é porque o tema de seu novo filme é a vida de Sergio Vieira de Mello, que o ator Wagner Moura mediria suas palavras. Seja para enaltecer a figura do diplomata brasileiro morto em um atentado em Bagdá (no Iraque), em 2003, ou para criticar lideranças mundiais – em especial, o presidente Jair Bolsonaro e o impacto que suas decisões causam. Ainda mais em meio à crise causada pelo novo coronavírus

“O exemplo de Sergio ilumina muita gente no mundo. Essa crise do coronavírus tem mostrado a fragilidade das lideranças mundiais de uma forma muita clara. São poucos os líderes no mundo que você vê com um discurso verdadeiro, empático, de solidariedade, que é o que um momento como esse pede. E falar de relações internacionais brasileiras no momento atual, ainda mais sob a luz do exemplo de Sergio, é terrível”, disse Wagner Moura com exclusividade ao HuffPost.

O ator baiano interpreta o brasileiro morto quando ocupava o posto de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos no filme Sergio, que estreia nesta sexta (17) no catálogo da Netflix.

Filho do embaixador Arnaldo Vieira de Mello, o diplomata carioca estudou filosofia na prestigiada Sorbonne, na França. Nessa época, ele participou ativamente dos famosos protestos de maio de 1968 contra o governo do general Charles De Gaulle. Logo depois, com apenas 21 anos, ingressou nas Nações Unidas, e no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados construiu uma sólida carreira de mediador de conflitos. Na época de sua morte, em 2003, era um dos nomes mais cotados para substituir o africano Kofi Annan como Secretário Geral, o cargo mais alto da ONU. 

É um filme sobre empatia. Para Sergio, ninguém era estatística. Ninguém era um número ou o cargo que ocupava. As pessoas eram pessoas.

“Outro dia eu vi uma entrevista do [ministro das Relações Exteriores nos governos Itamar Franco e Lula] Celso Amorim e fiquei pensando: ‘Meu Deus, como tudo mudou tão rápido?’ A própria crise do coronavírus faz a gente pensar que tudo é muito efêmero mesmo, que as coisas podem mudar muito rapidamente. E nem sempre para melhor”, diz.

Mesmo em um verdadeiro calvário ideológico/burocrático para lançar a cinebiografia do político, guerrilheiro e escritor baiano Carlos Marighella – sua estreia como cineasta –, o ator endurece, mas sem nunca perder a ternura. Pelo menos no que diz respeito à figura de Vieira de Mello.

Divulgação
Wagner Moura com a atriz cubana Ana De Armas, no papel da argentina Carolina Larriera, que acabou sendo reconhecida como mulher de Vieira de Mello após sua morte.

“Sergio tinha uma forma de fazer política que era muito elevada. Este, para mim, é um filme sobre empatia. Sobre alguém que via as pessoas - não só as mais vulneráveis que a ONU precisava ajudar, mas seus próprios adversários políticos - com muita empatia, muito interesse. Ou seja, para ele, ninguém era estatística. Ninguém era um número ou o cargo que ocupava. As pessoas eram pessoas”, destaca Wagner.

Para mim, não estrear o filme ['Mariguella'] nas salas de cinema como deveria ser, seria desistir de uma luta que eu não estou disposto a ceder nem um milímetro.

Já sobre o futuro de Marighella, filme que foi exibido e celebrado no Festival de Berlim no hoje longínquo fevereiro de 2019 e que, devido a pressões do governo Bolsonaro segue sem ser lançado nos cinemas, o ator deixa a diplomacia de lado ao indicar que não fugirá da luta. Mesmo com toda a produção cinematográfica mundial em quarentena devido à covid-19.

Perguntado sobre a possibilidade de lançá-lo diretamente em uma plataforma de streaming, a atual única tábua de salvação do cinema, ele não titubeou: “O Marighella é um filme que eu quero lançar no cinema. É um filme que foi feito para ser lançado no cinema. É um filme que foi censurado e, para mim, não estrear o filme nas salas de cinema, como deveria ser, seria desistir de uma luta que eu não estou disposto a ceder nem um milímetro. Meu filme vai estrear no cinema como todos os filmes que tem de estrear no cinema merecem estrear no cinema.” 

“Quanto ao streaming... eu acho que, independentemente do coronavírus e falando especificamente do Brasil, o streaming está salvando a indústria audiovisual brasileira que foi destruída pelo governo Bolsonaro. Se não fosse a Netflix, a Amazon, outras plataformas e a própria Globo, que sempre foi uma grande produtora de audiovisual, haveria muita gente desempregada como já está havendo. Mas o streaming está mitigando essa catástrofe”, conclui o ator.