LGBT
22/06/2019 01:00 -03

Quem são os voluntários que fazem a maior Parada LGBT do mundo acontecer

Representantes da APOGLBT, que organiza a Parada há 23 edições, relatam as dificuldades de estar à frente do evento sem apoio integral do poder público.

ASSOCIATED PRESS
A Parada de 2018 mais uma vez lotou a Avenida Paulista.

Na fachada do Edifício Galeria Califórnia, região central de São Paulo, três pilares em formato de “V” lembram as estruturas do Palácio da Alvorada, em Brasília. Não é coincidência: ambos são projetos de Oscar Niemeyer.

Um deles, sofisticado e monumental demais, como já reclamaram antigos moradores, é a residência oficial dos Presidentes da República, e atualmente abriga Jair Bolsonaro. O outro, em um calçadão de frente para a Praça da República, carece de uma mão de tinta há algum tempo e é o endereço do escritório da APOGLBT, Associação da Parada do Orgulho LGBT, que há 23 anos coloca na rua a maior marcha do gênero no mundo.

“O que falam é que estamos ricos na associação. Quando as pessoas chegam aqui perguntam: ‘mas essa é a sede?’”, conta Nelson Pereira, sócio-fundador da ONG.

Arquivo Pessoal
Primeira Parada do Orgulho LGBT aconteceu em 1995, já na Avenida Paulista.

Subindo por um dos elevadores, a porta estreita no fim do corredor curvo se abre, revelando o piso de tacos de madeira, divisórias de fórmica, e uma enorme bandeira com as cores do arco-íris. O tecido cobre uma parede inteira, talvez o único sinal da magnitude do que é gestado anualmente ali dentro e de forma voluntária.

“É meio surreal quando você vê a grandeza e o trabalho para fazer a Parada nascer, e como ela acontece com um grupo tão pequeno de pessoas”, diz Pereira. “A explicação é que a gente faz por amor, porque acredita muito na causa.”

A explicação é que a gente faz por amor, porque acredita muito na causa.Nelson Pereira, sócio-fundador da APOGLBT

Bota grandeza nisso. Entrou no livro Guinness World Records em 2006 com um público de 2,5 milhões de pessoas e, de lá para cá, só cresceu. Tanto que hoje é difícil saber exatamente o tamanho do evento – nos últimos cálculos realizados por engenheiros contratados pela organização estimava-se até 5 milhões de participantes.

Em 2018, a receita gerada foi de cerca de R$ 288 milhões para São Paulo, sendo o segundo evento mais lucrativo para a cidade depois da Fórmula 1. A Parada também assegurou um espaço cativo no calendário oficial da cidade por meio do decreto 57.014/2016, assinado pelo então prefeito João Dória.

Divulgação/APOGLBT
Cláudia Garcia, presidente da APOGLBT, e a drag queen Tchaka, anfitriã da Parada.

Escriturária de laboratório no Hospital das Clínicas, a presidente da Associação, Cláudia Regina Garcia, 56 anos, trabalha no turno da noite para conseguir se dedicar à organização da Parada durante o dia. “Em 2002 eu peguei um ‘panfletinho’, fui à sede e me ofereci para ser voluntária. Trabalhava de dia, e, todo fim de tarde, saía do serviço e ia para lá. Fui conciliando”, lembra, relatando que a mudança para o turno da noite, em 2013, ajudou na empreitada. “Mas a idade está pesando.”

Pereira também combinava a rotina de trabalho em sindicatos e na Assembleia Legislativa do Estado com a preparação da Parada, como sempre fizeram os membros da associação.

“A maioria sai do trabalho e fica lá até 22h, 23h realizando suas atividades. Resolvemos coisas por celular, em grupos de WhatsApp, e a coisa vai caminhando do jeito que a gente consegue”.

 

A Parada LGBT de São Paulo em números

 

51,3% se declara gay

18,9% se declara lésbica

10,5% se declara bissexual

19,3% se declara heterossexual

60,6% do público é masculino e 39,4% feminino

67,7% tem nível superior incompleto ou maior instrução 

A nota média dada pelo público para o evento foi 8,9

O gasto médio por dia dos visitantes foi de R$ 1.112,17

 

*Dados fornecidos pelo Observatório de Turismo e Eventos da SPTuris em pesquisa realizada na edição de 2017.

 

Como Cláudia, ele também se preocupa com o futuro do gigante que criaram: “Os que estão chegando agora têm de entender que nós estamos envelhecendo, e não estaremos aqui para sempre. Militamos da nossa forma, mas não com a mesma intensidade”, alerta. Contando assessoria de imprensa, produção artística, diretoria, tesouraria, o núcleo principal da Parada LGBT de São Paulo não chega a 15 pessoas (apenas quatro delas remuneradas).

A dedicação exaustiva também já trouxe problemas na vida pessoal de alguns membros, segundo Pereira. “Quantos sábados e domingos ficamos em reuniões... a gente acaba nem tendo muita vida social. Para quem é casado, se a outra pessoa não for um pouco militante, vai ter problemas no relacionamento”.

Quando questionados sobre a parte mais difícil de botar a Parada em pé, ambos são categóricos: o financiamento. “Todo ano é isso, você está sempre pedindo ‘pelo amor de Deus’. É muito desgastante. E não realizar é um preço muito alto politicamente falando, principalmente agora. Mas para sair, mesmo que mambembe, ela tem um gasto altíssimo”, afirma Cláudia.

Enquanto aqui ainda se resiste em apoiar, lá fora bancam a Parada inteira.Claudia Garcia

Eles já tiveram patrocínios públicos em edições anteriores, como da Petrobras e da Caixa, mas os contratos se encerraram sem renovação para outros anos. 

A Prefeitura de São Paulo, em 2019, investiu cerca de R$ 1,8 milhão em ações de apoio à Parada ― garantindo banheiros químicos, gradeamento para controlar o fluxo, tendas e efetivo da Guarda Municipal, e seis trios elétricos – quatro deles para suas próprias organizações, e dois para a APOGLBT.

De acordo com o prefeito, Bruno Covas (PSDB), o efetivo de segurança será o mesmo do ano passado: 60 viaturas e 300 homens da GCM, além de 80 bombeiros civis, 540 seguranças privados e parceria com a Polícia Militar. 

“Embora não seja um evento da Prefeitura, a parada é um evento da cidade de São Paulo. A cidade se orgulha da sua Parada e a prefeitura colabora no que for possível”, disse Covas a jornalistas na última segunda (17).

A Parada contará com 19 trios elétricos ― um a mais que em 2018 ― e com atrações como a ex-Spice Girl Mel C, e os artistas Iza, Luisa Sonza, Gloria Groove, Aretuza Love, Lexa, Mc Pocahontas, entre outros. Neste ano, empresas como Burger King, Avon e Uber patrocinam o evento.

Para os voluntários, o jeito é correr atrás de investidores no setor privado. “Enquanto aqui ainda se resiste em apoiar, lá fora bancam a Parada inteira”, diz Cláudia. Talvez a única marcha análoga à de São Paulo em número de participantes seja a de Nova York, que espera cerca de 4 milhões de pessoas nas comemorações de 2019.

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Parada de Nova York, nos Estados Unidos, foi a primeira a ser realizada no mundo. 

Mas a saúde financeira da irmã novaiorquina encerra as comparações. Na parte dedicada aos patrocinadores no site da NYC Pride, conta-se 58 marcas que sustentam o evento, muitas delas de peso, como Unilever, Pepsico, Hyatt e Nissan. Sem falar em números, a organização confirma que o montante arrecadado é suficiente para cobrir os custos da Parada, mais de 50 eventos adicionais ao longo do mês do Orgulho e bancar ações e projetos ao longo do ano para a comunidade.

Muito menor do que ambas, mas ainda uma das maiores da Europa, a Christopher Street Day Berlin Parade, na capital alemã, recebe cerca de 500 mil pessoas. No entanto, possui um staff de 20 membros (sendo oito deles remunerados), e somou 320 mil euros de doações em 2017, algo em torno de R$ 1,4 milhão.

Por aqui, Pereira começa a fazer contas de padaria para explicar os valores megalômanos das despesas. Cada trio elétrico, por exemplo, sai por volta de R$ 40 mil – ano passado foram 18 – e a Feira Cultural custa aproximadamente R$ 700 mil. Os cachês de artistas entram na soma, já que, até hoje, nunca foram revertidos para a associação.

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Claudia Regina Garcia, presidente da APOGLBT.

Em uma das vezes que “botou a pastinha debaixo do braço” para tentar captar recursos, Pereira ouviu de uma gigante farmacêutica e de um império da tecnologia dizerem que se interessavam em firmar parcerias, mas não tinham verba.

“Ah, a gente te dá visibilidade, mas... e dinheiro, amigo? Estamos falando de uma multinacional gigantesca, que fatura bilhões. Querem fazer coisas com a gente sem gastar nada. Quem ganha com isso? Vamos ganhar os dois?”, questiona o sócio-fundador da associação.

O sonho de Pereira seria atingir R$ 5 milhões para conseguir realizar todos os projetos e ainda prestar auxílio à comunidade LGBT+ que o Estado não é capaz de prover, como abrigo e consultas médicas.

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A Parada de 2018, um ano eleitoral, destacou o tema "Poder para LGBTI+, nosso voto, nossa voz". 

Ambos vinculam o receio das empresas ao preconceito. “Fica um círculo vicioso: precisa do dinheiro para vencer o preconceito, mas o preconceito não deixa o dinheiro entrar”, afirma Cláudia.

Em comparação com o Carnaval, em 2019 uma marca de cerveja fechou um contrato de R$ 16 milhões para o evento que atinge 12 milhões de pessoas na capital. A Parada recebeu o equivalente a 3,7% desse total.

No primeiro ano sob governo de Jair Bolsonaro, eles previam cortes no número de trios - o que não ocorreu. No entanto, houve certa redução nos patrocínios, o que eles creditam mais à crise financeira que o país atravessa do que a uma possível influência ideológica do novo governo sobre as marcas. Os dois esperam, em contrapartida, maior politização da festa.

“A militância é um dom, e eu sou um cara inconformado”, diz Pereira. “No dia que a gente não tiver mais uma sociedade com tanto preconceito, teremos a Parada sem reivindicações, só para celebrar quem somos. Enquanto isso não ocorrer, vai ter resistência.”