A volta ao escritório causa ansiedade nas pessoas com deficiência. Não nos esqueçam

"Estamos completamente isolados dos outros, e só porque todo mundo está louco para voltar ao normal, não significa que a gente se sinta seguro", escreve a jornalista Rachel Charlton-Dailey

Com o governo britânico nos incentivando para voltar para o escritório, as pessoas com deficiência estão, com razão, sentindo ansiedade em relação à volta ao trabalho.

Na semana passada, como parte da campanha Não Seremos Esquecidos ― realizada pela Scope, organização que defende igualdade de direitos para pessoas com deficiência, a entidade endereçou uma carta aberta ao premiê Boris Johnson. Assinada por 30.000 ativistas, ela pede um “novo acordo para mostrar que as pessoas com deficiência não serão esquecidos no plano de recuperação do governo, e além”.

É uma iniciativa mais que bem-vinda. Durante toda a pandemia tive de assistir com frustração e raiva o governo ficar de braços cruzados para proteger os mais vulneráveis ao vírus. Enquanto o mundo se trancava em casa – uma época em que o governo deveria ter feito todo o possível para garantir que pessoas com deficiência não ficassem sem apoio, comida, cuidados, saúde e dinheiro ―, para muitos a sensação foi de estarmos abandonados em casa durante cinco meses.

Em fevereiro, antes do início da crise do coronavírus no Reino Unido, Johnson escreveu aos seus ministros, dizendo que seu objetivo era transformar a vida das pessoas com deficiência por meio de uma Estratégia Nacional para a Deficiência.

Sou uma pessoa com deficiência e vivo sob um governo conservador durante toda a minha vida adulta. Estava cética, mas tinha esperanças. A pandemia teria sido o momento perfeito para oferecer mais cuidados ― estávamos em uma situação de vulnerabilidade extrema, afinal de contas. Mas isso não aconteceu.

“A pandemia teria sido o momento perfeito para oferecer mais cuidados à população portadora de deficiência... Mas isso não aconteceu.”

Minha expectativa era que Johnson anunciasse algum tipo de apoio para as pessoas com deficiência ― talvez dinheiro extra para garantir a presença de especialistas em centros de saúde comunitários, já que ficamos quase sem atendimento nos últimos seis meses? Em vez disso, ele deu às pessoas dinheiro para comer em restaurantes.

Felizmente, Rishi Sunak está se comprometendo a ajudar as empresas a “voltar ao normal”. Ótimo! Isso significa mais provisões para permitir que pessoas como eu trabalhem em casa sempre que possível e mais recursos para aqueles que precisam se proteger? Infelizmente, não parece ser o caso. Em vez disso, ele está pressionando as pessoas a voltarem aos escritórios com o objetivo de trazer a vida de volta aos centros das cidades.

Acho que tenho sorte ― já trabalhava de casa antes da pandemia. Mas a única maneira de fazê-lo era trabalhando como freelance. Quando começou o lockdown, doeu ver que as condições para trabalhar em casa que eram tão inalcançáveis foram rapidamente adotadas por setores inteiros da economia.

Fui reprovada três vezes na universidade porque os funcionários não me davam o suporte necessário para meus problemas de saúde mental e não me permitiam estudar em casa quando eu precisava – outra prática que acabou virando regra. Quando comecei a trabalhar como jornalista, não podia pular de uma redação para outra, por causa da minha baixa imunidade e minha fadiga crônica. Demorei muito mais tempo para avançar na carreira em comparação com meus colegas sem deficiência. Como freelancer, adorava poder trabalhar num café ou numa biblioteca. Parece uma coisa insignificante, mas ficar trancada com meu cachorro e meu marido me afetou mentalmente ― e deve ser ainda pior para as pessoas com deficiência que moram sozinhos.

As pessoas com deficiência foram totalmente isoladas dos outros, e só porque todo mundo está louco para voltar ao normal, não significa que a gente se sinta seguro. Em meio a especulações de um novo lockdown, muitos estão ansiosos para voltar a trabalhar. Uma nova pesquisa do gov.uk aponta que somente 14% das pessoas com deficiência sentem segurança para voltar ao escritório. Apesar disso, muitos podem ser forçados a colocar a saúde em risco, pois têm medo de perder seus empregos.

Cerca de 51% das pessoas com deficiência afirmaram estar “preocupadas com a volta ao trabalho, mas precisam receber”. Um terço afirma sentir pressão para voltar ― empregadores e o governo são citados como as principais fontes de pressão. E 25% têm medo de perder o emprego porque suas empresas não têm como garantir que eles voltem com segurança.

A mensagem é clara: não devemos forçar as pessoas a voltar ao escritório até que elas se sintam prontas e possamos ter certeza de que é seguro para elas fazê-lo. Se Johnson realmente deseja que o país volte ao normal, precisa incluir todo mundo em seus planos e fazer o máximo pelas pessoas com deficiência.

A carta aberta da Scope pede que o governo e os empregadores sejam mais flexíveis, a fim de criar mais oportunidades de emprego futuras para pessoas com deficiência. A carta afirma: “O compromisso de enfrentar a disparidade de oportunidade de empregos, estabelecido no manifesto conservador, deve ser mantido. Para quem não pode trabalhar, o Governo deve garantir uma rede de segurança que apoie em vez de punir, sem medo de sanções ineficazes”.

Ninguém deveria ser obrigado a escolher entre o trabalho e a saúde. Se o governo não priorizar as necessidades das pessoas com deficiência, o coronavírus não será o único assassino da pandemia.

Rachel Charlton-Dailey é jornalista freelancer. Você pode segui-la no Twitter.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.