LGBT
29/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 02/09/2020 09:41 -03

'Ser mulher, lésbica, negra e refugiada é um desafio diário. Você nunca sabe o que te espera'

No marco do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, a refugiada moçambicana Lara Elizabeth relembra sua trajetória de esforços e conquistas.

Foi graças a uma telenovela exibida em 2004 que a moçambicana Lara Elizabeth, de 36 anos, vislumbrou pela primeira vez um futuro mais próspero. A obra retratava um casal de lésbicas que tinha receio de tornar público seu relacionamento por medo da reação dos familiares. Para Lara, a situação extrapolava a ficção: aquela era uma realidade vivida por ela todos os dias.

Apesar de ter deixado Moçambique em 2013, ela ainda guarda memórias vivas de sua cidade natal, Maputo, e lembra com carinho dos jogos disputados com os poucos amigos nos campos de areia, do sabor das mangas colhidas no pé e das conversas no quintal da avó. Por ser filha única, sua mãe a deixava na casa dos avós para que pudesse brincar com as outras crianças do bairro. 

Ao passo que Lara foi crescendo, as recordações de uma vida feliz em seu país foram adquirindo um tom mais opaco. “Tudo mudou quando comecei a mostrar sinais de que eu não era “aquela mulher’” que todo mundo imaginou.”

Ser mulher, lésbica, negra e refugiada é um desafio diário porque você nunca sabe o que te espera

Os primos de Lara começaram a isolá-la. Um de seus tios começou a assediar as parceiras que teve - na época, Lara as apresentava como amigas por medo das reações dos parentes. O cenário ficou ainda pior quando o pai de Lara abandonou a família por não aceitar a orientação sexual da filha.

“Pensei que estava destruindo a minha família. Não tinha nenhuma base para falar sobre homossexualidade, e aquilo mexeu muito comigo. Para eles, era como se eu tivesse uma doença contagiosa”, diz.

Arquivo Pessoal
Lara foi forçada a fugir de Moçambique pela sua orientação sexual e encontrou no Brasil a proteção necessária para construir um futuro melhor. 

A reação da família de Lara era também um reflexo do que ela precisava lidar no âmbito social. “Onde quer que eu fosse, precisava baixar a cabeça e fingir que aquilo que estavam falando não era comigo. Nunca me senti realmente à vontade para ser eu mesma”, lembra. Mesmo na universidade, Lara conta como alguns professores incitavam a homofobia de um modo violento.

Segundo dados do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, mais de 70 países ainda criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo. Em alguns deles, a punição pode ter como sentença a pena de morte. Em outros, leis legitimam discriminação e violência contra pessoas LGBTQIA+.

Em 2004, na tela de uma televisão, Lara vislumbrou um futuro mais próspero. “Assisti uma novela brasileira chamada Senhora do Destino, que retratava um casal de lésbicas com receio de se assumir por medo da reação dos familiares. E eu vivia a mesma coisa”, conta. Foi então que ela começou a pesquisar sobre o Brasil. “Percebi que era um país em que se falava sobre a homossexualidade. Essa novela foi como uma luz no fim do túnel”, afirma.

Depois disso, Lara passou a juntar todo o dinheiro que ganhava como técnica de recursos humanos com um objetivo: deixar para trás o peso de não poder ser quem realmente era. Em 2013, ela subiu em um avião com destino a São Paulo.Do outro lado do oceano, enfrentou desafios até então desconhecidos.

‘‘Eu tinha tudo para desistir. Já fiquei sem lugar para dormir e sem ter o que comer. Cheguei a pensar ‘poxa, eu tenho uma cama em Moçambique, tenho ensino superior’, mas eu não poderia voltar para um povo que não me olha como uma pessoa. Recomeçar do zero me fez uma pessoa mais forte e eu tenho muito orgulho de não ter desistido’’, diz com um sorriso no rosto.

Falar em público sobre a minha história foi como tirar um peso das minhas costas

Lara contou com o apoio da Missão Paz, organização parceira do ACNUR, para recomeçar sua vida no Brasil, mas foi somente um ano depois de sua chegada que ela falou sobre o real motivo de ter deixado o seu país natal.

Após uma conversa com um funcionário do ACNUR, Lara sentiu-se empoderada para assumir sua orientação sexual.

“Ele me disse que eu não precisava ter medo, e isso foi decisivo para que eu tivesse coragem de, pela primeira vez, falar em público sobre a minha história. Foi como tirar um peso das minhas costas”.

Ressignificando o passado, construindo o futuro 

Em março deste ano, Lara realizou o sonho de ser mãe junto a sua companheira, que conheceu quando ainda morava em Moçambique. “Sou muito religiosa, não gosto de ver famílias desunidas e sempre quis ser mãe, mas em Moçambique esse era um sonho distante. Foi o Brasil que me deu essa possibilidade. Essa criança é como um milagre”, ela comemora. 

Mas vivendo no Brasil há sete anos, Lara ainda enfrenta desafios. Ela continua atravessando dificuldades para encontrar emprego, mesmo com uma nova graduação em Gestão de Tecnologia da Informação. Desempregada, ela pensa no dia em que conseguirá um trabalho que a ajude a realizar o sonho da casa própria.

Enquanto isso, Lara dá palestras para professores da rede municipal por meio de um projeto do Sesc-SP, sobre como lidar com alunos refugiados homossexuais. Em paralelo, ela vai desenhando para o filho uma educação sem tabus. Ela acredita na potência de falar abertamente sobre a homossexualidade como fator de mudança.

Arquivo Pessoal
Lara conta sua trajetória em evento sobre a cultura de Moçambique

“Contar a nossa própria história para ele já vai servir de base para sua educação. Eu não quero que ele sofra bullying por ser filho de duas mulheres que são africanas e refugiadas”, explica.

“Muitas vezes as pessoas têm preconceito por pura ignorância. Há também as pessoas que acham que lésbicas só são lésbicas porque ainda não encontraram o homem certo, mas é pelo diálogo que você consegue mudar mentes e corações. Se você pode partilhar o que você passou e superou, alguém que esteja enfrentando desafios parecidos pode ver uma luz no fim do túnel”, completa.

É olhando para este feixe de futuro que ela faz votos ao que deixou para trás. “Estou em um país que não é o meu e sonho que Moçambique tenha um terço daquilo que o Brasil tem, ainda que não seja um país perfeito. Quando falo de mim e vejo que as pessoas têm empatia, tenho ainda mais certeza de que as escolhas que fiz não foram erradas. Ser mulher, lésbica, negra e refugiada é um desafio diário porque você nunca sabe o que te espera. Posso não saber tudo, mas sei que tenho direitos, e eu preciso que o mundo saiba quais são eles. Eu não busco mais aceitação, eu busco respeito e liberdade de poder amar, ser e sentir”, conclui. 

*O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica foi criado em 1996 no Rio de Janeiro, durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (o SENALE, atualmente SENALESBI – Seminário Nacional de Lésbicas e mulheres Bissexuais). Desde então, a data é celebrada nacionalmente em 29 de agosto e tem o objetivo de chamar atenção para os desafios enfrentados para a concretização dos direitos humanos de lésbicas.

Por Alana Oliveira e Gabriella Reis