OPINIÃO
12/05/2020 02:00 -03 | Atualizado 12/05/2020 02:00 -03

Diante do coronavírus, combater a violência doméstica deve se tornar o 'novo normal'

Paradoxalmente, um dos antídotos para a contenção do novo coronavírus tem um efeito potencializador sobre uma pandemia silenciosa.

O momento que vivemos tem o poder de convergir todos os olhares, esforços e atenções para o que temos em comum: a nossa fragilidade e a nossa capacidade de colaboração. Paradoxalmente, um dos melhores antídotos para a contenção do contágio pelo novo coronavírus tem um efeito potencializador sobre uma outra pandemia, esta mais silenciosa, velha conhecida, igualmente global e perversa: a violência doméstica.

O mesmo isolamento social, que é a nossa melhor aposta para a mitigação da covid-19, para muitas mulheres e meninas é sinônimo de aprisionamento ao lado do seu abusador. Para elas, a casa não é sinônimo de lar, mas um espaço de violência e de afastamento da rede de proteção que, ainda que imperfeitamente, representa a sua ponte para a libertação.

Antes mesmo da deflagração da covid-19, o Brasil já registrava um caso de violência doméstica a cada 2 minutos, resultando em 263 mil registros de lesão corporal dolosa em 2018, apenas para citar uma das formas de violência. Já tínhamos, portanto, um problema premente, agora alavancado por todos os agravantes ligados ao isolamento social: o silêncio, as tensões domésticas, as preocupações financeiras, o afastamento da rede de proteção social.

A contenção do contágio tem um efeito potencializador sobre uma outra pandemia, esta mais silenciosa, velha conhecida, igualmente global e perversa.
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O Brasil já registrava um caso de violência doméstica a cada 2 minutos, resultando em 263.000 registros de lesão corporal dolosa em 2018.

No Brasil, o Disque 180, que concentra orientações e denúncias de violência contra a mulher, já registrou um aumento da ordem de 9% no volume de ligações. Cresceram as denúncias, e um percentual menor de pessoas tem ligado para acessar informações ou orientação. Sabemos ainda que a violência doméstica é largamente subnotificada, pois menos de 40% das vítimas buscam ajuda das autoridades. A situação, portanto, é mais grave do que revelam os números já alarmantes.

Por outro lado, as crises têm o poder de mudar hábitos e de acelerar mudanças que, em circunstâncias normais, levariam anos para se consolidarem. Estamos diante de uma oportunidade rara de criar as soluções que poderão se tornar práticas permanentes no “novo normal” que temos a oportunidade de cocriar. Afinal de contas, estamos todos co-implicados nos resultados. Nada está definido a priori, seja na extensão ou gravidade desta pandemia silenciosa que temos a oportunidade de coibir.

Na busca de soluções, vale um olhar para o que está funcionando em outros países. Na França, redes hoteleiras, como a Accor, estão disponibilizando quartos para acolher as vítimas de violência doméstica, pontos de acolhimento e aconselhamento foram disponibilizados em supermercados e farmácias, a cobertura dos serviços de denúncia e acolhimento foi ampliada para 24 horas por dia, e os casos de violência domésticas têm prioridade na análise dos juízes em teletrabalho.

Na Espanha, os serviços de atendimento às vítimas foram declarados essenciais e novas soluções tecnológicas foram adotadas, como ferramentas de denúncia por mensagem com geolocalização e serviços de apoio psicológico rápido por WhatsApp ou pela internet. A Argentina, Colômbia e Uruguai também ampliaram o horário de atendimento de seus serviços emergenciais. Já na Suíça, observou-se uma intensificação das campanhas de conscientização com um apelo às vizinhanças para o exercício da vigilância solidária.

Por outro lado, as crises têm o poder de mudar hábitos e de acelerar mudanças que, em circunstâncias normais, levariam anos para se consolidarem.

Esta é uma medida acessível a todos os países, todas as famílias, todos nós, enfim. Movidos pela empatia e pela criatividade, todos nós podemos achar uma forma de dizer a uma vizinha, a uma amiga, ou alguma mulher da família: “eu te ouço, você não está sozinha. Como posso ajudá-la?”. Esta é uma oportunidade indelegável.

Pois esta crise nos coloca diante de algumas realidades:

* Ela revela os valores que nos movem;

* Ela nos dá a oportunidade de estabelecermos redes de solidariedade a partir da questão: o que podemos fazer juntos que não poderíamos fazer separadamente?

* Ela nos traz a consciência de que nossas escolhas individuais determinarão, em última análise, o nível de confiança coletiva que será definidora da identidade da sociedade que veremos emergir desta crise.

Em outras palavras, continuamos juntos, mas juntos de um jeito diferente. Se esta nova forma de ser e conviver será mais próxima dos sonhos que temos para o nosso País, cabe a cada de um de nós, por meio de nossas escolhas, determinar.

Este texto é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.