MULHERES
03/04/2020 16:46 -03 | Atualizado 04/04/2020 12:40 -03

Instituto Avon lança campanha contra violência doméstica na quarentena

Movimento global protagonizado pelo Instituto é apoiado pela Avon e Natura. Com isolamento social, denúncias aumentaram 18% no País.

Considerada a medida mais eficaz contra a disseminação do novo coronavírus no Brasil e no mundo, o isolamento social pode provocar um aumento no número de casos de violência doméstica

Segundo levantamento da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, durante a quarentena, já houve um aumento de cerca de 18% no número de denúncias desde que as políticas de isolamento foram recomendadas. 

Diante desse desafio, as empresas de beleza Natura e Avon se uniram para apoiar o movimento global #IsoladasSimSozinhasNão, lançado pelo Instituto Avon e endossado em países da América Latina onde as empresas operam.

Artem_Furman via Getty Images
Entre 2007 e 2017, 39,2% dos homicídios de mulheres no Brasil aconteceram dentro de casa. Já entre os homens, o índice é de 15,9%. 

“Para muitas mulheres e meninas, o confinamento pode aumentar a frequência e gravidade dos episódios de violência doméstica, em todas as suas formas”, diz Daniela Grelin, Diretora Executiva do Instituto Avon, em comunicado. Para ela, é preciso “redobrar o apoio a estas mulheres” que estão em uma situação de vulnerabilidade dentro da própria casa e “mostrar que não estão sozinhas”.

Diante da pandemia, o Instituto, em parceria com as plataformas Papo de Homem e Quebrando Tabu, produziu uma série de conteúdos sobre o tema e divulgado nas redes sociais. Entre eles: como cuidar da saúde mental, identificar sinais de uma relação abusiva e como pedir ajuda. 

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Você está em casa, se sentindo insegura e com medo do que pode acontecer? Lembre-se, você não está sozinha e nem desamparada. Mesmo neste período de isolamento, existem muitas pessoas trabalhando 24h para te dar suporte. Os serviços de proteção às mulheres e meninas em situação de violência seguem funcionando durante a quarentena. ⁣ ⁣ Nós separamos os números para que você possa tê-los na ponta dos dedos caso precise de ajuda:⁣ ⁣ ⚫ Ligue 180 - A central de atendimento à mulher em situação de violência continua funcionando 24h por dia. ⁣ ⁣ ⚫ Disque 100 - Para dúvidas e denúncias de violação dos direitos humanos, o que inclui também violência contra crianças, idosos, população LGBTQs e outros. O disque 100 funciona 24h e deve lançar o app de denúncias na próxima semana.⁣ ⁣ ⚫ 190 – Você pode chamar a polícia sempre que você e/ou seus filhos estiverem correndo risco de vida. Você também pode ligar em caso de descumprimento das medidas protetivas que são os mecanismos legais concedidas pelo(a) juiz(a) para proteger uma pessoa que corre riscos de vida.⁣ ⁣ Você também pode procurar ajuda na Delegacia de Defesa da Mulher ou no Posto de Saúde mais próximo da sua casa. Outra alternativa é procurar a Guardiã Maria da Penha da sua cidade - uma unidade especializada da Guarda CIvil Metropolitana (GCM) ou a Patrulha Maria da Penha, responsável pelo monitoramento da situação de risco vivida por mulheres que tiveram as medidas protetivas concedidas pelo(a) juíz(a).⁣ ⁣ Queremos você em segurança. #CuidemosDelas #IsoladasMasNãoSozinhas

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Nesse contexto, tanto Natura quanto Avon estabeleceram uma parceria com a startup “Mete a Colher” para uso da ferramenta de assistência social TINA. Nela, as consultoras das marcas também terão à disposição uma cartilha para identificar casos de violência doméstica, contendo orientações sobre conduta ideal, assim como divulgação de canais de denúncia destes tipo de violência.

Para o público geral, a Natura também patrocinou uma minissérie “Era uma Vez” com cinco episódios do podcast Mamilos sobre a temática. Ao final, cada episódio abordará a história de uma pessoa que superou o ciclo da violência.

O aumento de casos de violência doméstica no Brasil

RomoloTavani via Getty Images
Ouvidas pelo HuffPost Brasil, especialistas que trabalham na rede de enfrentamento à violência contra a mulher no País durante quarentena.

Isolamento imposto pela quarentena em razão da pandemia provocada pelo novo coronavírus elevou o número de denúncias recebidas pelo Ligue 180, canal oficial do governo federal responsável por receber notificações de violência doméstica.

Dados da ONDH (Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos), do MMFDH (Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos), divulgados nesta sexta-feira (27), apontam aumento de 18% entre as denúncias recebidas entre os dias 17 e 25 de março - período em que políticas de isolamento foram intensificadas no País -, comparado aos dias 1 e 16 do mesmo mês.

Detalhamento da pasta aponta que 829 denúncias foram registradas no início do mês, entre os dias 1 e 16 de março. Já entre os dias 17 e 25 do mesmo mês, foram registradas 978. Em ambos os períodos, respectivamente, o sistema notou aumento nos atendimentos em geral; de 3.045, o número de ligações subiu para 3.303, apontando aumento de 8,5%.

Ouvidas pelo HuffPost Brasil, especialistas que trabalham na rede de enfrentamento à violência contra a mulher no País já haviam apontado para a possibilidade do aumento de casos de violência doméstica neste período. Para as vítimas, a medida mais eficaz contra a disseminação do novo coronavírus no Brasil e no mundo, na verdade, pode ser sinônimo de mais vulnerabilidade.

“É um equívoco imaginar que o lar seja a representação de um lugar de paz, um local sagrado, inviolável e até de não interferência por parte da Justiça, do Estado. Não é bem assim. O lar também é um espaço onde a gente identifica as chamadas relações assimétricas de poder”, aponta Silvia Chakian, promotora de justiça do MP-SP e membro do GEVID (Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica).

Esta realidade é apontada pelo Atlas da Violência 2019, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). O estudo aponta que, entre 2007 e 2017, 39,2% dos homicídios de mulheres no Brasil aconteceram dentro de casa. Já entre os homens, o índice é de 15,9%. 

A pesquisa ainda destaca que as mulheres não estão seguras em nenhum local, mas a trajetória da violência é ainda pior dentro de casa: enquanto a taxa de homicídios de mulheres fora do domicílio subiu 28% em 10 anos, as ocorrências registradas em casa aumentaram 38%. No mesmo período, o homicídio de mulheres negras cresceu 29,9%, enquanto o de não brancas aumentou em 1,6%.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou nesta semana, em coletiva de imprensa sobre a atualização dos impactos do novo coronavírus que há uma grande preocupação com um aumento dos casos durante o isolamento social determinado em consequência da pandemia de coronavírus, e fez um apelo para que as vítimas denunciem.

“Por favor denuncie. O ministério garante o sigilo e o anonimato ao denunciante, o que nós não podemos deixar é de denunciar. Nossos canais foram ampliados para o recebimento de denúncias”, disse a ministra.