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18/05/2020 17:00 -03 | Atualizado 20/05/2020 07:42 -03

Além do vídeo da reunião: Série de fatos revela interesse de Bolsonaro na PF no Rio

Veja importantes peças do quebra-cabeça que foram reveladas nos últimos dias.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello assiste nesta segunda-feira (18) à gravação da reunião ministerial que está no centro das investigações sobre a possível tentativa do presidente Jair Bolsonaro de intervir politicamente na Polícia Federal. Depois disso, o decano da corte definirá se seu conteúdo permanecerá em sigilo ou não.

Na última semana, em sua defesa, Bolsonaro passou 3 dias afirmando que não falou a palavra “Polícia Federal” na reunião em que teria pressionado o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, por uma mudança no comando da PF do Rio. Na sexta-feira (15), contudo, após a própria AGU (Advocacia-Geral da União) divulgar a transcrição de trechos do vídeo em que Bolsonaro menciona a PF, o presidente afirmou que falou a palavra “PF” e não “Polícia Federal”. 

A estratégia do Planalto, após a gravação da reunião ser entregue ao STF, foi dizer que Bolsonaro pressionava por uma mudança na sua equipe de segurança no Rio de Janeiro e não na PF. A versão, no entanto, tem uma série de lacunas, e uma delas é que a sua segurança no Rio responde ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e não ao ministro de Justiça, a quem Bolsonaro se dirigia na reunião.

ASSOCIATED PRESS
Bolsonaro começou a pressionar por substituição da PF no Rio duas semanas após juiz determinar envio de inquérito contra Flávio para a Polícia Federal.

Apesar de a gravação da reunião do dia 22 de abril ser vista como peça-chave no inquérito para apurar se Bolsonaro tentou interferir politicamente na PF, vários fatos revelados até agora – seja mencionados durante depoimentos de testemunhas, seja divulgados pela imprensa – trazem fortes indícios do interesse do presidente em mudar a chefia da PF do Rio por razões pessoais.

Relembre alguns deles:

Ex-superintendente do Rio confirma que Flávio Bolsonaro foi investigado

Em seu depoimento na última semana, o delegado Carlos Henrique Oliveira, que era superintendente da Polícia Federal no Rio, confirmou que o órgão investigou o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente. O caso foi concluído sem indiciamento. Oliveira foi retirado da chefia do Rio assim que Bolsonaro trocou o diretor-geral da PF. Agora ele é o número 2 da Polícia Federal, um cargo administrativo que não tem qualquer contato com investigações.

A declaração de Oliveira desmente declarações de Bolsonaro de que a PF “nunca investigou” ninguém da sua família. 

Ex-aliado diz que Flávio Bolsonaro foi avisado de operação da PF 

O empresário Paulo Marinho, importante apoiador na campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018 e eleito suplente de Flávio Bolsonaro no Senado, disse, em entrevista à Folha, que a Polícia Federal avisou com antecedência o filho do presidente que a Operação Furna da Onça seria deflagrada em 2018. A investigação sobre desvio de dinheiro público e suposto esquema de “rachadinhas” na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) atingiu Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. 

A PF teria “segurado a operação” para que ela não fosse realizada no meio do segundo turno e, assim, atrapalhasse a candidatura de Jair à Presidência.

Flávio disse em nota que as “estórias” relatadas por Marinho “não passam de invenção de alguém desesperado e sem votos”. O empresário é atualmente pré-candidato do PSDB à Prefeitura do Rio de Janeiro.

A pedido de Bolsonaro, Ramagem sondou delegado em 2019 para a chefia da PF do Rio

Segundo o jornal O Globo, em seu depoimento, o superintendente da Polícia Federal do Amazonas, Alexandre Saraiva, disse que o diretor da Abin, Alexandre Ramagem – nome próximo de Bolsonaro e que ele tentou colocar agora como diretor-geral da PF, sendo barrado pelo STF – o consultou em 2019 para assumir a vaga de superintendente no Rio. A sondagem foi feita a pedido de Bolsonaro.

Segundo o ministro Sergio Moro e declarações do próprio Bolsonaro, o presidente já queria mudar o superintendente do Rio desde agosto de 2019. Além da interferência inusitada do presidente na mudança da superintendência, Ramagem não estava na estrutura hierárquica da PF para fazer tal sondagem. 

Segundo o jornal, “o delegado afirmou que ambos conversavam muito porque ‘são amigos’ e que confidenciou a Ramagem que não acreditava que o então diretor-geral, Maurício Valeixo, efetivaria sua indicação para o comando da PF no Rio”. 

Pressão pela troca no Rio começou duas semanas após juiz determinar envio de inquérito contra Flávio para PF do Rio

Cruzamento de dados feito pelo jornal O Globo mostra que a pressão aberta do presidente para a troca do superintendente da PF no Rio começou duas semanas depois que um juiz eleitoral determinou o envio de um inquérito eleitoral contra  Flávio Bolsonaro para a PF do Rio. Segundo o Globo, “na ocasião, o juiz determinou que a PF realizasse diligências contra o senador, como a tomada de seu depoimento”.

De acordo com o jornal, no despacho, o juiz solicitou, no dia 2 de agosto, “que o Tribunal Regional Eleitoral do Rio fornecesse cópia dos registros de candidatura de Flávio Bolsonaro, para apurar suspeitas sobre sua evolução patrimonial” e determinou que em seguida o caso fosse enviado para a Polícia Federal. 

Em 15 de agosto, Bolsonaro declarou publicamente que havia solicitado a troca do superintendente da PF no Rio. “Todos os ministérios são passíveis de mudança. Vou mudar, por exemplo, o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Motivos? Gestão e produtividade” disse o presidente naquele dia.

Bolsonaro queria indicar Alexandre Saraiva, mas houve reação de delegados, e Carlos Henrique Oliveira assumiu o posto, até ser trocado há poucos dias, assim que assumiu o novo diretor-geral da PF.

Bolsonaro se encontrou com Oliveira antes que ele assumisse o Rio, em reunião fora da agenda oficial, com Ramagem e sem Moro e sem diretor-geral da PF

A Folha de S. Paulo revelou que Bolsonaro se reuniu com Carlos Henrique Oliveira antes de ele assumir a superintendência da PF no Rio – num encontro atípico. Também mostrou que a reunião ficou de fora da agenda oficial do presidente.

Atualização: Em segundo depoimento à Polícia Federal, no inquérito que investiga Bolsonaro, Oliveira reconheceu que se reuniu, no Palácio do Planalto, com Bolsonaro e Ramagem no segundo semestre de 2019, época em que era superintendente da PF em Pernambuco e cotado para assumir a chefia do Rio.

O encontro não contou com a presença do então ministro da Justiça, Sergio Moro, nem do então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo. Questionado sobre a razão do encontro, Oliveira disse não saber informar “objetivo específico para sua audiência” com o presidente.

Ramagem sabia de preocupação de Bolsonaro com a PF no Rio

Em seu depoimento, o nome preferido de Bolsonaro para assumir a diretoria-geral da PF no lugar de Valeixo, Alexandre Ramagem, disse que sabia da preocupação de Bolsonaro com a Polícia Federal no Rio, de acordo com a Folha. Segundo o diretor da Abin, a preocupação era com a “alegada falta de produtividade” da PF no estado.