OPINIÃO
12/09/2020 01:00 -03 | Atualizado 12/09/2020 01:00 -03

Influencers negros lançam vídeo-manifesto #VidasNegras com convite à luta antirracista

“Até quando vão fechar os olhos para isso?”, perguntam os ativistas no filme. Ação faz parte de uma campanha de justiça racial apoiada pelo HuffPost.

Reprodução/Change.org
Rapper e historiadora Preta Rara é uma das participantes de vídeo-manifesto da Change.org.

Cinco influenciadores e ativistas do movimento negro lançaram nesta semana um vídeo-manifesto para denunciar o racismo e cobrar ação da sociedade brasileira na luta pela justiça racial. O filme, que tem pouco mais de 2 minutos, faz parte de uma campanha antirracista realizada pela plataforma de petições online Change.org. 

No manifesto, os militantes negros recorrem à contextualização histórica para mostrar como a atual realidade brasileira, na qual as desigualdades e os privilégios têm cor, é resultado de uma estrutura formada ao longo de séculos de marginalização do povo preto. Dados sobre a condição da negritude no Brasil são escancarados pelos ativistas a fim de provocar debate. 

Participam da peça a rapper e historiadora Preta Rara, o educador e fundador da Uneafro Brasil Douglas Belchior, a militante do movimento por moradia Preta Ferreira, a transfeminista e educadora Maria Clara Araújo, além do escritor e pesquisador Ale Santos. 

Preta Rara lembra que a escravidão traficou mais de 5 milhões de pessoas para o Brasil, em um regime que durou 350 anos, mas que perpetuou suas desigualdades depois de passar por “um projeto de abolição questionável que negava direitos básicos e marginalizava negras e negros”. “Como poderíamos prosperar?”, questionam os influencers no vídeo.

Entre as estatísticas que revelam o racismo em diferentes setores da sociedade, os influenciadores destacam que, apesar de pretos e pardos representarem mais da metade da população brasileira (54%), as mulheres negras são, por exemplo, apenas 1% entre as executivas, mas 60% entre as empregadas domésticas. Já no mundo da política, eles lembram que, nas últimas eleições, somente 27% das vagas foram ocupadas por pessoas negras. 

“Dentre os mais pobres no Brasil, 78% das pessoas são como eu, negras”, pontua Belchior. “A cada 23 minutos um jovem negro é violentamente assassinado no Brasil. Até quando vão fechar os olhos para isso?”, pergunta o educador em outra cena. Ao lado dele, Preta Ferreira ressalta mais uma estatística que afeta a ascensão do jovem negro no país: a evasão escolar - a cada 10 deles apenas 6 conseguem terminar o Ensino Médio. 

O vídeo foi feito pela Oxalá Produções e teve todo o conteúdo desenvolvido por uma equipe 100% negra. A peça pode ser conferida nas redes sociais da Change.org. 

Reprodução/Change.org
No manifesto, os ativistas convidam as pessoas a se engajarem na mudança.

#VidasNegras 

Além de provocarem um debate sobre o tema, os ativistas do movimento negro aproveitam o vídeo-manifesto para convidar o público a somar-se na luta antirracista. Iniciativas populares, nascidas em abaixo-assinados que lutam por justiça racial, são mostradas como maneira de engajar as pessoas na causa e pressionar as autoridades por mudanças. 

“Cobre das autoridades a responsabilidade que elas têm neste país que é estruturalmente racista”, pede o pesquisador Ale Santos no filme. 

A diretora-executiva e produtora da Oxalá, Joyce Prado, comenta sobre a importância dessa mobilização civil como pressão sobre os poderes para que determinadas realidades sejam alteradas na sociedade. “A campanha ‘Vidas Negras’ está envolvida por esse desejo de construir a relevância do indivíduo e da sociedade civil dentro dessa pressão social que é tão importante para mudanças estatais e, consequentemente, mudanças estruturais”, afirma. 

A conselheira de Diversidade e Inclusão da Change.org, Anne Galvão, explica que, além do vídeo-manifesto, a “Vidas Negras” conta com um hotsite que reúne mais de 80 abaixo-assinados com temas relacionados à justiça racial. A campanha, citada por ambas, é apoiada pelo HuffPost, que já noticiou ao menos 3 dessas mobilizações populares. 

“Sabemos que infelizmente muitos brasileiros e brasileiras ainda não têm uma compreensão básica sobre os impactos do racismo estrutural, que interfere no acesso a direitos fundamentais para pessoas negras”, pontua Anne. A conselheira destaca que a intenção da campanha e do hotsite é, justamente, dar visibilidade a esse problema estrutural e, a partir da intensificação do debate, facilitar o engajamento do público na causa. 

Entre as mobilizações visibilizadas pela página estão pedidos de investigação sobre as mortes de jovens negros inocentes - como o garoto João Pedro -, justiça a vítimas de atos de racismo - como o entregador de delivery humilhado por um empresário na cidade de Valinhos (SP) -, prisão para policiais envolvidos em ocorrências racistas, além de outros casos.

Em junho, o HuffPost mostrou que mais de 2,5 milhões de cidadãos haviam se unido, por meio de uma petição, num grito de justiça pelo menino Miguel, morto após cair do 9º andar do prédio onde sua mãe trabalhava, em Recife, capital de Pernambuco.

No mês seguinte, o site noticiou outras duas mobilizações por justiça racial - uma que cobrava as autoridades do Rio Grande do Norte sobre o esclarecimento da morte de um jovem negro, o Giovanne Gabriel de Souza Gomes, e outra que contava a luta de um rapaz por um treinamento antirracista no Uber depois de ter sofrido preconceito por parte de uma motorista.