COMPORTAMENTO
08/11/2019 03:00 -03

Como influencers no Instagram dificultam a vida de pequenas cidades turísticas

Cidades pequenas em várias partes do mundo, especialmente nas Filipinas, não possuem a infraestrutura necessária para lidar com um fluxo turístico repentino.

Um aumento maciço do turismo nas Filipinas nos últimos anos gerou problemas sérios para as ilhas do país. Em 2018 a ilha de Boracay, que em dado momento chegou a ser descrita como uma das mais pitorescas do mundo, passou 6 meses fechada para restaurações.

A ilha foi devastada por anos de turismo excessivo, algo que trouxe à tona o fato de que essas ilhas que ganham popularidade repentina nem sempre estão preparadas para lidar com o turismo de massa.

Devido à internet e particularmente ao Instagram, lugares pouco conhecidos de repente se tornam o lugar-favorito-d-momento e são abertos à exploração.

O Instagram, no passado um app usado simplesmente para compartilhar fotos com amigos, virou sem dúvida uma das maiores empresas do mundo em termos da receita que gera.

Algumas pessoas têm perfis “normais”, enquanto outras vivem online por meio de seus alter egos, através de “finstas”, ou falsas constas no Instagram. Há até quem contrate ghostwriters para redigir legendas para suas fotos.

No Instagram, o chamado FOMO (“fear of missing out”, ou medo de ficar de fora) de viagens é muito real, e o conteúdo aspiracional do aplicativo ajuda a incentivar funcionários que passam sua vida profissional fechados em cubículos e salas de reuniões a tirar algumas semanas de férias numa “ilha distante de tudo”.

Desde a criação do Instagram, as hashtags ligadas à viagens – como #exploreph (mais de 503 mil posts) e #itsmorefuninthephilippines (4,9 milhões de posts), além do mais genérico #Philippines (19,1 milhões de posts) ― vêm ajudando a popularizar as ilhas filipinas ao nível local e global.

O turismo nas Filipinas vem crescendo regularmente nos últimos anos; o turismo de estrangeiros no país ficou em 3º lugar entre as exportação em 2018, e os gastos com turismo doméstico subiram 21%, passando de 2,6 trilhões de pesos filipinos (cerca de US$50 bilhões) em 2017 para 3,2 trilhões (cerca de US$62 bilhões) em 2018.

Não há dúvida de que a ascensão do Instagram está ajudando sites de turismo filipinos como o Sino Pinas, Discover MNL e Tara Sa South (Let’s Go To The South) a aumentar seu alcance, local e globalmente.

Um representante do Sino Pinas disse que seu alcance e o engajamento das pessoas que frequentam o perfil cresceram exponencialmente desde o início dos anos 2010. O Discover MNL teve resultados semelhantes, disse um representante do site ao HuffPost: “As vezes determinados vídeos e fotos viralizam, e então o lugar destacado fica com todas as reservas esgotadas por um ou dois anos, ou então vemos um aumento substancial do interesse por um novo produto ou negócio.”

Esse incentivador do turismo que é o Instagram pode ser ótimo para o desenvolvimento econômico das Filipinas, mas a verdade é que o país não possui a infraestrutura necessária para lidar com o aumento do turismo.

O persistente alcance global do Instagram gera um fluxo constante de turistas e influencers, criando um pesadelo para países formados por ilhas, como é o caso das Filipinas.

E há mais: alguns integrantes do exército de influencers turísticos do Instagram pedem hospedagem gratuita em troca de posts.

Recentemente algumas empresas filipinas como o White Banana Beach Club, na ilha de Siargao, resolveram resistir aos influencers “aproveitadores” e postaram o seguinte no Facebook: “Estamos recebendo muitas mensagens sobre colaborações com influencers no Instagram. Queremos anunciar respeitosamente que o White Banana não tem interesse em ‘colaborar’ com pessoas que se dizem ‘influencers’. E gostaríamos de sugerir que essas pessoas procurem outra maneira de comer, beber e dormir de graça. Ou até que experimentem trabalhar de fato.”

Além da questão dos influencers, o White Banana Beach Club revelou ao HuffPost outro problema que enfrenta ligado ao turismo de massa.

“Uma das maiores dificuldades nossas na ilha é que a chegada de grande número de turistas está diretamente ligada à produção de lixo. Os turistas geram um volume muito grande de lixo, que eles deixam aqui. A maioria dos turistas NÃO QUER SABER de separar seu lixo. Temos latões de lixo específicos para cada tipo de lixo e claramente rotulados como tais (por exemplo Restos de Alimentos, Plástico, Papel, etc.), mas diariamente encontramos tipos diferentes de lixo misturados.”

TED ALJIBE via Getty Images
As Filipinas já têm um problema grande e incontrolável com lixo e poluição. Trabalhadores recolhem milhares de peixes mortos da baía de Manila, um dos trechos de água mais poluídos do país.

Outros resorts filipinos também informam que o lixo produzido por turistas é um problema enorme.

Um representante do Zoe’s Resort & Eco Adventure, um resort de ecoturismo nas Filipinas, disse ao HuffPost: “A maioria das empresas de turismo nas Filipinas está mal equipada para lidar com dejetos sólidos. Em nosso caso, nos esforçamos para proteger o ecossistema natural que cerca nosso eco-resort, e o problema que mais nos frustra é a poluição com lixo. Foi difícil no começo porque havia lixo em todo lugar – copinhos de plástico, restos e embalagens de comida, etc. Víamos lixo nas trilhas, nas cachoeiras e nos riachos, que acabam chegando ao mar.”

Em 2015 quase um quarto da população filipina (cerca de 22 milhões de pessoas) estava vivendo na linha de pobreza ou abaixo dela, e a maioria não vive em condições do primeiro mundo. As estradas no país são menores, as áreas são mais densamente povoadas, a gestão de dejetos sólidos deixa muito a desejar.

Mas lixo e poluição não são os únicos aspectos negativos do turismo de massas. Por causa das leis da oferta e demanda, os preços de alimentos, transportes e produtos básicos subiram tremendamente no país.

“Desde produtos de primeira necessidade como peixes e vegetais até o transporte em motos e o aluguel de alojamentos para nossos funcionários, todos os preços subiram de maneira absurda”, explicou um representante do White Banana Beach Club.

“Devido à demanda gerada pelo turismo excessivo, muitas pessoas tiram proveito e empurram os preços para cima, e empresas como a nossa não têm opção senão pagar. Todo o mundo é afetado, mas principalmente os moradores locais. Os preços altos foram criados para turistas, mas os moradores locais são os mais prejudicados, porque antes mesmo de subir os preços já eram altos demais para eles. Algumas pessoas estão tentando convencer o governo local a regulamentar os preços de bens e serviços aqui na ilha, mas eu pessoalmente ainda não tenho conhecimento de nenhuma solução.”

Mas também estão surgindo influencers que atuam de maneira mais consciente. Jamie Larson, influencer de viagens e co-fundador da The Hearts Co., disse ao HuffPost: “Quando fui às Filipinas pela primeira vez, três anos atrás, o turismo já era maluco, mas não no grau em que é hoje. Acho que isso se deve muito a redes sociais como o Instagram. Elas fortaleceram a economia turística, e isso é fantástico desde que continuemos a fazer com consciência.”

O turismo consciente, ou “mindful tourism”, faz parte do contexto do turismo sustentável, algo que ainda não foi alcançado plenamente.

Se quisermos chegar a um futuro em que o turismo sustentável seja a norma, precisamos começar por nós mesmos. Fazer um esforço para minimizar nossa pegada turística é um ato de altruísmo que vai beneficiar as experiências de viagem de todos nós, coletivamente falando.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.