MULHERES
28/06/2019 08:26 -03 | Atualizado 28/06/2019 08:45 -03

50 anos depois, pioneiras do futebol feminino atuam como voluntárias na Copa

"Quis devolver ao futebol tudo que ele me deu", diz Ghislaine Souef, 66 anos, que começou a jogar em Reims, um dos berços da modalidade no País.

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
Aline Meyer, de 65 anos (à esq.) e Ghislaine Souef, de 66 anos, são pioneiras no futebol feminino e atuaram como voluntárias na Copa da França, em Reims.

REIMS, FRANÇA - Em cinco minutos de caminhada, ela vai da sua casa até o complexo esportivo René Tys, em Reims, na França, onde foi montado um centro de voluntários da Copa do Mundo de Futebol feminino em 2019. Dali, outros poucos minutos de caminhada pelo parque Léo Lagrange já conduzem à entrada do estádio Auguste Dalaune, onde ocorreram os seis jogos que Reims recebeu nesta Copa. É um caminho que Ghislaine Souef, a Gigi, 66 anos, conhece bem.

Além de ter realizado esse trajeto durante os dias de evento – voluntária da Copa do Mundo, ela atuou na recepção de torcedores dentro do estádio –, foi ali, naquele mesmo lugar, que em 1968 ela entrou em campo com um time de mulheres pela primeira vez. Lembra que elas queriam “apenas jogar”, mas fizeram mais do que isso. Começava a história do futebol feminino francês na era moderna.

“Não existia um time e eu vi no jornal local o anúncio de que iam criar e precisavam de jogadoras. Apareci”, conta. A ideia era realizar um jogo de exibição durante uma feira. Mas o projeto cresceu. “A recepção das pessoas acabou sendo positiva. Ficaram surpresas, claro, mas gostaram. Depois tivemos que provar que éramos jogadoras de verdade.” Passaram a treinar duas vezes por semana e conciliavam o esporte com estudos e trabalho.

Pediram para criar o time só por diversão e nós dissemos que não era só diversão. Nós queríamos jogar.Aline Meyer
Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
Aline Meyer atuou como voluntária durante o evento em seu país.

Não muito distante dali, em Strasbourg, a cerca de 350 km de Reims, a modalidade também dava seus primeiros passos. No mesmo ano foi criado um time feminino na cidade. “Pediram para criar o time só por diversão e nós dissemos que não era só diversão. Nós queríamos jogar”, lembra Aline Meyer, 65 anos.

Hoje, mais de 50 anos depois, as duas histórias se cruzam novamente, agora na Copa do Mundo. As duas jogadoras pioneiras atuaram como voluntárias durante o evento em seu país. O motivo que fez as duas se candidatarem era o mesmo: retribuir tudo que o futebol deu a elas.  

Aline e Gigi ingressaram em seus times ainda estudantes, com 14 e 15 anos, respectivamente. Era algo realmente inédito em suas cidades, tanto que a Federação Francesa só reconheceu a existência das equipes depois de alguns anos. E esse foi apenas um dos desafios.

“Eu sempre quis jogar, e jogava na rua, com os meninos, escondida da minha mãe. O mais difícil nessa época era ter permissão para jogar”, lembra Aline. Seguiu mesmo sem permissão e, aos 17 anos, estava na seleção nacional e viajou para o México.

“Foi minha primeira viagem de avião! O futebol me abriu muita coisa. Não tínhamos TV em casa, nem telefone. Tenho só uma foto dessa época. É minha melhor lembrança, minha única lembrança dessa fase”, conta.

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"[As pessoas] ficaram surpresas, claro, mas gostaram. Depois tivemos que provar que éramos jogadoras de verdade", lembra Ghislaine Souef, conhecida como Gigi.

A foto foi tirada na escala que o time fez em Miami, em 1971. Na volta da viagem, recebeu a imagem das mãos do fotógrafo. Ela diz que a felicidade que sentia “está nos olhos”. E não acabou ali. Jogou até engravidar e parou. Mas, quando os filhos cresceram, retomou a paixão. “Morei 20 anos aqui em Reims e voltei a jogar aos 40. Tirei a licença para ser técnica de garotas. Hoje eu voltei para Strasbourg e sou voluntária e coordenadora das escolas de futebol de meninas na cidade.”

 

Reims, a cidade do champagne e do futebol feminino

- Recebeu 6 jogos, sendo uma oitava de final

- Testemunhou a maior goleada da história das Copas do Mundo – 13 a 0 dos EUA contra a Tailândia

- Contou com 250 voluntários da Fifa + 220 voluntários da cidade

- Espera receber 45 mil turistas a mais em todo o período da Copa do Mundo 

 

Gigi também jogou até ter filhos. Sempre em um esquema longe de ser ideal. “Uma vez, no campeonato Francês, tivemos que jogar em Marseille, em 1975, a quase 900 km daqui. Quando era assim a gente pegava o trem à noite, dormíamos no trem, jogávamos sem ir para nenhum hotel e depois voltávamos no último trem no domingo à noite para trabalhar na segunda de manhã. Era assim, não tinha outra escolha”, conta ela.

No entanto, apesar das dificuldades que enfrentaram, as duas acreditam que ganharam muito com o esporte. “O futebol me deu muita coisa, então quis devolver trabalhando com as garotas e como voluntária aqui. Quando eu era pequena, nunca nem sonhei que pudesse acontecer uma Copa do Mundo Feminina”, diz Aline.

Gigi também é grata ao esporte. “Eu quis devolver ao futebol tudo que ele me deu: o bom espírito, a experiência que ganhei viajando, tudo isso”.  

 

“Temos a catedral, o champagne e agora o futebol feminino”

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
Duas quadras públicas de basquete localizadas atrás da Catedral de Notre-Dame de Reims ganharam cobertura nova e se transformaram em um campo de futebol.

Em abril já era possível ver em Reims algumas referências ao grande evento que estava por vir. Coisa pouca, apenas alguns cartazes divulgando os preços dos ingressos dos jogos - seis ao todo, uma oitava de final.

No entanto, muito antes disso, a cidade de cerca de 200 mil habitantes localizada a 140 km de Paris, já começou a se movimentar. Foram cinco anos pensando no assunto e preparando material para defender a escolha da cidade para abrigar jogos. Três de preparação de fato para o evento e cerca de dois de anúncios e projetos diretos ligados a futebol e esporte feminino.

Mas foi só em junho que realmente a paisagem ficou diferente. Chegaram as bandeirinhas às vitrines dos comércios, apareceram as placas de sinalização, pinturas no chão para direcionar os turistas. Muito azul, branco e vermelho.

Duas quadras públicas de basquete localizadas atrás da Catedral de Notre-Dame de Reims ganharam uma cobertura nova e se transformaram em um campo de futebol. No espaço, foi instalada a Fifa Fan Experience, onde moradores e turistas podem brincar um pouco, seja na nova quadra de futebol, nos jogos infláveis de “chute ao alvo” ou no boliche com os pés. 

Somos considerados um dos berços do futebol feminino, que renasceu em Reims nos anos 60.Perrine Kleinau, encarregada pela área de comunicação da cidade durante a Copa

Conhecida como a capital do Champagne – possui adegas e caves que são consideradas patrimônio mundial pela Unesco –, Reims também é famosa por ser o local onde os reis franceses eram coroados.

As cerimônias aconteciam no Palais do Tau e na catedral de Notre-Dame (outros dois patrimônios mundiais da cidade, que ainda possui um quarto ponto listado pela Unesco, a abadia de Saint-Remi). Falou-se sobre isso tudo em junho. Mas a cidade fez questão de resgatar – e se orgulhar – de outra faceta de sua história.

“Aqui é uma cidade de futebol. Somos considerados um dos berços do futebol feminino, que renasceu em Reims nos anos 60. Está na nossa história realmente”, explica Perrine Kleinau, encarregada pela área de comunicação da cidade durante a Copa.

Uma história que nem todos conheciam e pegou algumas pessoas de surpresa, segundo Perrine. “Quando começamos, há dois anos, a comunicar sobre o futebol feminino, fizemos exposições sobre o assunto. Muitas pessoas nos disseram que não sabiam e ficaram impressionadas, acharam incrível! Acho que tivemos sucesso em despertar o interesse nas pessoas sobre o futebol feminino e os esportes femininos. Espero que seja o começo”, afirma.

Com a expectativa de receber 45 mil turistas a mais do que o esperado para o período, a cidade ficou agitada. Só de holandeses foram cerca de 7 mil em Reims, segundo estimativa dos organizadores. Foram diversos ônibus de viagem que chegaram para a partida entre Holanda e Canadá.

Entre os torcedores, um grupo de dez amigas que viajaram de uma cidade próxima a Amsterdã. As mulheres jogam futebol em sua cidade – e foi assim que a maioria se conheceu, aliás. “Esperamos muita diversão”, disse uma delas. “Algumas de nós jogam futebol há quase 40 anos e e muito legal ver o futebol feminino crescendo tanto”, completou outra. O grupo fez uma parada na catedral antes da partida. Aproveitaram para tomar uma taça de champagne por ali.   

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
Somente de holandeses foram cerca de 7 mil em Reims, segundo estimativa dos organizadores.

Mais tarde, elas se juntariam aos milhares de holandeses que deixaram as ruas de Reims mais laranja naquele dia. Paul Valentijn, 35 anos, também fez parte da caminhada. Ele viajou 5h30 junto com um amigo para ver o jogo.

“Nós somos grandes fãs de futebol. Está muito legal a Copa, o clima, bem festivo, muita música, felicidade”. A mesma opinião que Crista Van Zuijlen, 40 anos, teve sobre o evento. “Viemos em 55 pessoas no ônibus. Esse evento é sobre tolerância. Vai ter [no estádio] o hino da França, o do Canadá e o nosso. Estamos no mesmo mundo e temos que ser legais uns com os outros”, disse, em meio ao som da bateria que foi organizada para o desfile, como eles chamaram. Certamente esse foi um dos dias mais animados na cidade durante a Copa. A prefeitura informou que foi algo histórico e inédito em Reims. “Sem nenhuma ocorrência”, atestaram orgulhosos.  

Mas não dá para dizer que os holandeses foram os únicos torcedores que chamaram a atenção. No dia das oitavas de final entre EUA e Espanha, foi a vez de os americanos dominarem as ruas. Não teve desfile, mas havia muita gente vestida com a bandeira do país.

Mary Connor, de 65 anos, era uma delas. Junto com seu filho Matt, de 34 anos, ela foi torcer pelas americanas. “Nós gostamos de futebol bem mais do que de futebol americano, somos uma família de jogadores - eu e meu marido fomos técnicos e nossos dois filhos jogam até hoje. Eu assisto [futebol feminino] o tempo todo, há anos”.   

Temos a catedral, o champagne e agora o futebol feminino, espero.Perrine Kleinau
Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
A cidade de Reims mudou para a Copa feminina.

Todos pareciam ligados no evento. Muitos grupos, famílias, excursões escolares rumo ao estádio. Bandeiras – as mais diversas – em punho. O interesse era claro - em mais de um partida ao mesmo tempo, até, como no caso de um francês que estava na arquibancada para ver Coreia do Sul e Noruega, mas não desgrudava os olhos do celular. Na tela, conferia o jogo da França contra a Nigéria, que aconteceu no mesmo horário, em Rennes. Comemorou com entusiasmo o gol de pênalti e dividiu a alegria com estranhos ao seu lado no estádio.

Assim foi o clima em Reims. As camisas coloridas, as bandeirinhas nas lojas. A catedral que é possível ver de um dos acessos ao estádio. O espaço para tomar champagne em meio às brincadeiras de bola na Fifa Fan Experience. A lembrança de algumas jogadoras tomando sorvete na avenida principal e posando para fotos.

Reims não receberá mais jogos nesta Copa. Mas nem por isso deixou o evento de lado. “Agora vou ficar entediada, mas vou a Paris e a Valenciennes [para as quartas de finais]. Então a festa continua”, diz Gigi já dispensada de suas funções de voluntária por aqui.

Porque foi um evento importante para resgatar uma parte da história da cidade e ajudar, quem sabe, a fortalecer sua identidade. “Temos a catedral, o champagne e agora o futebol feminino, espero”, torce Perrine.