16/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 16/02/2019 00:00 -02

Vera Abbud, a palhaça que leva riso e alegria para a dura realidade dos hospitais

“O palhaço é o mínimo social ainda incluído na sociedade. E ele acredita no mundo”.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Vera Abbud é a 346ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ela não sabe explicar bem como é. Tem suas características e seu jeitinho, claro, mas defini-la é difícil, porque é tudo muito natural. Mas a conhece muito bem. Há quase 30 anos, Vera Abbud, 52 anos, é semanalmente a palhaça Emily. “Não sei quais as característica dela... mas uma coisa que ela tem é que ela é idiota. Basicamente. E tem que ser engraçada. O palhaço tem que fazer rir”. Com o vestido azul de bolas brancas, meia, sapato e o clássico nariz vermelho, ela revela de forma espontânea mais uma peculiaridade. “Adoro pular”, diz com um tom de voz específico enquanto é fotografada. É de Emily que estamos falando.

Hoje, Vera vai – como Emily – duas vezes por semana a hospitais públicos de São Paulo. Primeira palhaça do Doutores da Alegria, organização sem fins lucrativos fundada em 1991 por Wellington Nogueira, ela é uma das 39 artistas que atua em unidades de saúde na capital paulista – além disso, o grupo também realiza intervenções em outros estados e Vera integra também, há alguns anos, o grupo Sampalhaças, formado só por mulheres.

O foco é a criança, mas você pensa que as pessoas que trabalham com elas também precisam estar bem. Nós somos um apoio a todo o perrengue do hospital.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela é a primeira palhaça do Doutores da Alegria, organização sem fins lucrativos fundada em 1991 por Wellington Nogueira.

Mas quando começou, anos atrás, fez parte da primeira leva de profissionais do pioneiro grupo que começou a atuar em hospitais, até então prática desconhecida no Brasil. Vera havia se tornado palhaça há pouco tempo e se encantado com o ofício. Esse tipo de teatro mais físico e menos ligado às palavras e a um texto a cativou. Encarou o desafio do novo trabalho. O foco era atuar em alas de crianças. “O Doutores quebrou mesmo uma fronteira na época. A gente era pioneiro e tinha um desconhecimento, a gente não tinha feito isso nunca, era muito tateante, até a reação das crianças...o que assusta? Do que elas gostam? E você vai pegando o que funciona. E os médicos também não tinham muita noção dos efeitos. E aos poucos foi sendo aceito porque funciona”.

Não são médicos, está bem claro. E não estão ali para realizar algum procedimento técnico específico. Mas não deixam de fazer parte da equipe de alguma forma. E com uma função bem determinada. “Acho que é alterar a realidade e criar pontes, dar um suporte para quem quer se seja. Uma alternativa para respirar um pouco uma outra coisa fora daquela rotina que tem muitos protocolos, horários. É bom ter ali um cara fora da ordem, algo que te tira um pouco de lá. Serve como um relaxamento, uma cor que passa. O principal objetivo é a pessoa se divertir um pouco”. Assim eles chegam – sempre em duplas. Coloridos. Atentos. E prontos para fazer uma graça – com eles mesmos. “O palhaço vai muito em cima de quem você é. É um treino de espontaneidade, mas sempre na auto-ridicularização e nunca no outro e essa é a diferença do palhaço para o comediante”.

Ela é idiota. Basicamente. E tem que ser engraçada. O palhaço tem que fazer rir.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Vera vai – como Emily – duas vezes por semana a hospitais públicos de São Paulo.

Assim trazem um pouco de leveza ao ambiente. Uma distração. Em algumas situações, viram conhecidos dos pacientes e das famílias que estão no hospital. Vera conta que acaba sendo inevitável criar vínculo com aquelas pessoas. Muitas passam realmente a ficar mais tempo no hospital do que em suas casas e o que acontece ali importa bastante. “A família passa a ser o hospital. No começo tem um monte de gente, visita, e com o tempo vão sumindo. Tem uma menina que eu vi por três anos. Ela veio a óbito, esperava transplante, e você fica muito tempo no hospital e os pacientes e as mães, em geral, acabam tendo nas enfermeiras, nos palhaço, nos médicos pessoas da família”. 

E não são somente os pacientes e seus parentes que encontram esse conforto. Por mais que o objetivo seja atuar com as crianças que estão ali internadas, a presença deles acaba mexendo com todos que estão por lá. “O foco é a criança, mas você pensa que as pessoas que trabalham com elas também precisam estar bem. Nós somos um apoio a todo o perrengue do hospital, um sistema super difícil, estamos só em hospital público hoje e é bem estressante, os funcionários tem que dar conta de muita coisa. Acho os médicos uns heróis, eles estão sempre lá, a bucha pega neles, decisões difíceis. O hospital e o lugar que você nasce e o lugar que você morre, é um lugar muito intenso”.

É bom ter ali um cara fora da ordem, algo que te tira um pouco de lá. Serve como um relaxamento, uma cor que passa. O principal objetivo é a pessoa se divertir um pouco.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Vera conta que vive um grande exercício de entrega e foco no agora. No hospital, é só o que importa.

E toda essa intensidade ela começou a viver com o seu trabalho com o Doutores da Alegria. Antes disso, Vera não tinha nenhuma outra relação com hospitais e a área de saúde. Seu gosto era, na verdade, por natureza e bichos, como define. Tanto que estudou biologia. Ainda fala com paixão dessa área e diz que se for convidada para observar borboletas ela topa ir de graça mesmo. Tem muito interesse por outras formas de vida, digamos. Outras culturas, línguas.

E esse conhecimento já ajudou inclusive no seu trabalho nos hospitais. Vera fala um pouco de tupi-guarani – o pai de seu filho é indígena – e isso proporcionou conforto e alguns sorrisos para uma garota indígena que estava internada em um dos hospitais que o grupo atua. Defensora e admiradora dos Guaranis – “Acho um dos projetos de resistência mais absurdos que têm” – Vera levou apenas algumas palavras familiares para a paciente. “Falo um pouco e tenho alguns livros, sei algumas músicas, tenho umas fotos de aldeia”. Conseguiu levar um pouco daquela leveza. Missão cumprida.

O palhaço vai muito em cima de quem você é. É um treino de espontaneidade, mas sempre na auto-ridicularização e nunca no outro e essa é a diferença do palhaço para o comediante.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O dia a dia é desafiante, mas os momentos de troca são os que ficam com Vera.

Mas nem sempre as coisas dão super certo. O dia a dia é desafiante, mas os momentos em que o retorno é bacana, a troca é rica e o trabalho flui bem compensam todos os outros. E Vera vive um grande exercício de entrega e foco no agora. No hospital, é só o que importa. “É uma coisa muito viva, você trabalha com tudo que está acontecendo lá na hora. Mesmo quando você sabe que a criança tem uma doença terminal. Você não vai pensar que ela tem só mais dois dias. É lá”. Emily - e os demais palhaços - sempre focam na vida de agora. Mesmo que meio desajeitados. Bobos. Inocentes. Ou saltitante, nesse caso. “O palhaço é o mínimo social ainda incluído na sociedade. E ele acredita no mundo”.

O que não é muito diferente do que Vera pensa. Não tinha como ser.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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