De acordo com o governador, 50% dos leitos nos hospitais do Estado estão ocupados por venezuelanos. Hospital em Boa Vista atende pacientes no corredor.
Nacho Doce / Reuters
De acordo com o governador, 50% dos leitos nos hospitais do Estado estão ocupados por venezuelanos. Hospital em Boa Vista atende pacientes no corredor.
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03/05/2019 08:34 -03 | Atualizado 03/05/2019 11:22 -03

Reflexos no Brasil

Onda de violência na Venezuela pode causar colapso no sistema de saúde de Roraima, diz governador.

A crise humanitária na Venezuela já começou a transbordar para países vizinhos. No Brasil, Roraima é o estado que sente todos os dias a materialização da tensão pelo êxodo populacional.

Segundo o governador Antonio Denarium (PSL), 50% dos leitos nos hospitais de Roraima são hoje ocupados por venezuelanos. Dados da Human Rights Watch indicam que a Venezuela voltou a índices dos anos 90 de doenças controladas como sarampo, tuberculose e malária. Com o fluxo migratório, alguns desses casos vão parar na rede de saúde de Roraima.

Com o acirramento da violência no país vizinho, o governador diz temer um colapso no sistema de saúde deste lado da fronteira. É que, além das enfermidades, o sistema de saúde do estado também costuma receber feridos em conflitos na região da fronteira.

“Nossos hospitais estão lotados, os pacientes brasileiros e venezuelanos estão nos corredores. Nós estamos com a nossa capacidade de atendimento esgotada”, disse Denarium em entrevista ao HuffPost Brasil na última quinta-feira (2).

“Se continuar essa onda de violência, não teremos mais capacidade de atendimento.” 

Se continuar essa onda de violência, não teremos mais capacidade de atendimentoAntonio Denarium, governador de Roraima

Denarium diz que, em fevereiro, quando o ditador Nicolás Maduro anunciou o fechamento da fronteira com o Brasil para impedir a entrada de ajuda humanitária patrocinada em grande parte pelo governo norte-americano, mais de 100 pessoas foram internadas e passaram por cirurgia nos hospitais do estado.

O drama também atinge a segurança e a economia de Roraima. Segundo o governador, o índice de desemprego dobrou nos últimos 4 anos e não há trabalho. “Daqui a pouco pode ser que a população não suporte mais essa situação.” 

Wilson Dias /Agência Brasil
Além dos impactos sociais, o governador Antonio Denarium diz que a crise na Venezuela tem gerado impacto financeiro negativo em Roraima: "As transações comerciais praticamente acabaram".

Leia trechos da entrevista.  

HuffPost Brasil: O governo federal liberou R$ 224 milhões para assistência aos venezuelanos, mas há reclamações. Por quê?

Antonio Denarium: Nós estamos vivendo a migração de venezuelanos há mais de 3 anos. Mesmo com a fronteira fechada pela Venezuela, não está [fechada] pelo Brasil, e continuam entrando mais de mil venezuelanos por dia em Roraima. Os reflexos são muito claros. Para você ter uma ideia, hoje 50% dos leitos em nossos hospitais estão sendo ocupados por venezuelanos. Inclusive recebemos essa semana uma comissão de deputados federais, estava junto o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do [presidente Jair] Bolsonaro, e nós constatamos in loco que, na maternidade de Boa Vista, de 46 bebês na UTI, 46 eram filhos de mães venezuelanas.

Hoje temos também mais de 10% da nossa população carcerária, de detidos em Roraima, [composta] de venezuelanos. Temos mais de 5 mil filhos de venezuelanos matriculados na rede de escolas estaduais. Isso tem causado um impacto significativo no estado de Roraima. Nossa população aumentou mais de 20% nos últimos 2 anos e aumentaram também os índices de violência.

Os valores que foram destinados pelo governo federal foram para o Exército, nada não foi enviado para o estado de Roraima fazer a restituição dos valores aplicados com os venezuelanos. Nossos hospitais estão lotados, os pacientes brasileiros e venezuelanos estão nos corredores. Nós estamos com a nossa capacidade de atendimento esgotada. Temos mais de 60 mil venezuelanos morando em Roraima.

A gente se preocupa também que, com essa onda violência na Venezuela, os hospitais de Roraima encham, como ocorreu em fevereiro [quando a fronteira foi fechada e houve confronto entre manifestantes e forças leais a Nicolás Maduro]. Mais de 100 venezuelanos foram internados e passaram por cirurgias nos hospitais de Roraima feridos por arma de fogo. Se continuar essa onda de violência, não teremos mais capacidade de atendimento.

 

Há temor de que, caso haja uma intervenção militar na Venezuela, a violência respingue também para o lado brasileiro?

O Exército brasileiro está na fronteira bem vigilante com essa situação. O que ocorre é que Roraima tem 1,8 mil km de fronteira. A fronteira está fechada, mas continuam entrando venezuelanos. Eles não param de chegar. Nós temos 7 mil venezuelanos nos abrigos em Roraima. Lá é fornecido alimentação, medicamento, atendimento médico, kit de higiene pessoal. Eles entram como refugiados.

 

O senhor tem receio de que a população de Roraima se revolte com essa situação?

O povo tem acolhido os venezuelanos, mas só vem benefício para venezuelano, o que é o grande problema. Nosso desemprego passou de 8% para 16% [de 2015 a 2019], as famílias estão passando necessidade, estão desempregadas. Em Roraima, não temos emprego para todos. Daqui a pouco pode ser que a população não suporte mais essa situação.

 

O que poderia ser feito?

O governo federal tem que colocar investimento no governo do Estado também. Enquanto tem 60 mil venezuelanos em Boa Vista, tem somente 7 mil abrigados no Exército. Então o governo federal tem que fazer aporte financeiro para ajudar o estado de Roraima a fazer o atendimento que está fazendo.

 

O senhor apoia que o governo brasileiro se envolva em uma ação militar na Venezuela?

Não sou favorável a nenhum tipo de intervenção federal ou intervenção do governo brasileiro na Venezuela. O que tem que ter é organizações internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos), fazendo ações econômicas em relação à Venezuela. É preciso criar mais dificuldades para que o governo venezuelano não suporte.

A Venezuela não consegue comprar alimentos, não consegue fazer funcionar os hospitais, o povo está morrendo, está passando fome e eu acho que o governo Maduro não deve suportar por muito tempo essa situação.

A Venezuela já foi o país mais rico da América do Sul e hoje é o pior, com a maior taxa de inflação do mundo e não dá segurança para ninguém. Os investidores que estavam na Venezuela estão todos indo embora. O desemprego e a fome estão aumentando. É um caos social o que eles estão passando.

 

Como ficou a dependência do Brasil em relação ao que era importado da Venezuela?

A energia elétrica que a Venezuela fornecia para o Brasil foi interrompida há mais de 2 meses, posto de combustível na fronteira foi fechado. Nós importávamos fertilizante, calcário e os produtos da Venezuela. Tudo parou. [A crise] está gerando impacto financeiro negativo no estado, as transações comerciais praticamente acabaram.