Travessia da fronteira da Venezuela para o Brasil pode ser feita a pé.
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Travessia da fronteira da Venezuela para o Brasil pode ser feita a pé.
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29/04/2019 02:00 -03 | Atualizado 01/05/2019 09:09 -03

A travessia

O dia em que cruzei a fronteira com a Venezuela

A fronteira da Venezuela com o Brasil está fechada desde 22 de fevereiro, mas isso não impede a entrada de centenas de venezuelanos todos os dias no País. O fluxo diminuiu, mas está longe de ser baixo. Pacaraima, em Roraima, ainda recebe diariamente cerca de 350 pessoas em busca de refúgio ou residência, segundo o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Com a fronteira aberta, o número chegava a mil.

No último dia 4, percorri o caminho pelo qual, ilegalmente para o regime de Nicolás Maduro, os venezuelanos têm deixado seu País. Segui “las trochas”, como é chamada a rota alternativa, no sentido contrário ao dos venezuelanos. Fui de Pacaraima a Santa Elena de Uairén, na Venezuela, para conhecer parte do que as pessoas com quem eu conversava há dias se submetiam. 

Na rua, me disseram que o caminho mais seguro para chegar a Santa Elena, distante 18 km da fronteira, era ir com “aqueles táxis”. Na via principal de Pacaraima, além do câmbio ilegal a céu aberto, é impossível dar um passo sem ser abordado por venezuelanos oferecendo táxi até a cidade venezuelana. Como eu estava sem “bagagem”, paguei R$ 50 por cada trecho. Os valores chegam a R$ 150 quando a pessoa está com muita compra ― o que é bastante comum. 

Além da possibilidade de fazer a rota de carro, há quem a faça andando por meio de trilhas em meio à estrada de terra ou pelas áreas de floresta. Ao identificar que também havia quem chegava por essas vias, o Exército montou pontos estratégicos para receber esses imigrantes. Eles geralmente são recebidos com água, alimentos e atendimento médico.

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Corsa azul dos anos 90 apagou duas vezes na travessia da jornalista Grasielle Castro do Brasil à Venezuela.

Fiz a travessia em um carro com um casal venezuelano, além do motorista e de muitas sacolas e caixas repletas de alimentos e itens de higiene pessoal. Numa frequência que pode ser semanal ou quinzenal, os dois saem da cidade de Maturín, a cerca de 12 horas de carro da fronteira, para buscar no Brasil o que falta no comércio local. “Compramos de tudo”, me disse a senhora, que levava de papel higiênico a tabletes de manteiga. 

Os carros que fazem esse tipo de travessia geralmente são bem velhos. Perdi as contas de quantas vezes o Corsa azul da década de 1990 apagou no meio do caminho. Por sorte, apenas em duas dessas vezes - e ainda em Pacaraima - foi preciso descer para empurrar o veículo. 

Em condições normais, o trajeto pode ser feito em cerca de 30 minutos. Por “las trochas”, foi quase uma hora na ida e um pouco mais do que isso na volta.

A saída de Roraima que pegamos fica a menos de 2 km da fronteira oficial. Lá estava uma espécie de fronteira brasileira alternativa. Ao Exército brasileiro, nosso motorista explicou que iria à Venezuela levar conterrâneos que haviam comprado comida. Não pediram documentos de quem estava no veículo. O fechamento da fronteira, afinal, foi imposto pelo regime de Maduro e não teve a contrapartida brasileira. Os militares brasileiros, portanto, não têm o papel de impedir o trânsito de pessoas.

Depois de passar pelos militares brasileiros, saímos da Estrada da Vila Suapi, uma via de mão dupla que contorna a divisa, e entramos em uma estrada de terra cheia de pequenos buracos e algumas pedras pequenas. Me espantou a quantidade de carros seguindo o mesmo trajeto e a areia branca fina digna de rally que nos obriga a fechar os vidros, em um calor de 30ºC. 

Grasielle Castro/HuffPost Brasil
Carros se enfileiram em cenário típico de rally no caminho para Santa Elena de Uairén, na Venezuela.

Ao entrar nesse caminho de terra invadimos o território da Comunidad Indigena San Antonio Del Morichal, habitada pela etnia Pemon-Taurepang. Naquela região, são os índios que decidem quem pode entrar. Com os rostos parcialmente cobertos, eles faziam uma espécie de blitz para cada carro que passava, com a ajuda de dois cones e uma corda que formavam uma barreira improvisada.

Neste ponto senti como seria o caminho. Fomos parados, o motorista deu um aperto de mão em um dos indígenas e seguimos adiante. Logo mais, outra barreira semelhante e outro aperto de mão. 

Menos de 10 km depois, estávamos de volta ao asfalto.

Mais alguns quilômetros e uma barreira do Exército venezuelano. Desta vez, em vez de aperto de mão, o motorista entregou a carteira de motorista e percebi que o documento foi acompanhado de uma nota de R$ 50.

Algo foi dito, o motorista desceu do carro e, neste instante, a moça que vinha sentada ao meu lado interrompeu nossa conversa sobre o dia a dia na Venezuela e, apreensiva, disse para o marido: eles querem mais dinheiro. Virou para mim e explicou: “la plata, la plata”. Também externou medo de que eles quisessem confiscar parte de suas compras. 

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Todos os dias, venezuelanos driblam proibição de Maduro e cruzam fronteira com Brasil para comprar alimentos e itens de higiene ou para fugir do país.

O motorista voltou, a passageira deu graças por não terem pedido mais dinheiro e seguimos a viagem.

Finalmente, passamos pela última barreira antes de chegar a Santa Elena. Mais um aperto de mão e outros R$ 50 foram embora. Em poucos minutos chegamos à cidade, o motorista estava me deixando em frente a uma escola e eu percebi que não tinha como voltar.

Não havia aquela imensidão de homens oferecendo serviço de transporte ao Brasil. Fiquei pálida. Ao me despedir do casal, me perguntaram como eu ia voltar e eu disse que não sabia, pedi sugestão. Naquela mistura de português e espanhol, o motorista se ofereceu para me trazer de volta.  

Grasielle Castro/HuffPost Brasil
Jornalista do HuffPost foi deixada próximo à Escuela Basica Dr Juan De Holmquist, em Santa Elena.

Andei pela cidade, vi um pouco de tudo que já tinha lido nos jornais e ouvido em podcasts sobre a Venezuela: gôndolas vazias nos mercados, lojas e hotéis fechados, lan houses já pouco usuais nas cidades brasileiras. Também pude ver símbolos evidentes do chavismo, estampados principalmente em pinturas no muro da Escuela Basica Dr Juan De Holmquist, nos uniformes e no material escolar dos alunos. 

Uma das frases na escola enaltece a educação: “A educação é o verdadeiro fundamento da felicidade. (…) As nações caminham a sua grandeza ao mesmo passo em que avançam em sua educação”, de Simon Bolívar. Havia ainda citações do soldado Ezequiel Zamora e do filósofo Simón Rodriguez, ambos venezuelanos. 

Na hora combinada, eu estava de volta no ponto de encontro da Calle Róscio com a Calle Ikabaru. Entrei no carro, desta vez acompanhada de duas mulheres e duas crianças, além do motorista. Passamos para abastecer o carro em… uma casa.

O motorista estacionou o carro, disse a dois rapazes que precisava encher o tanque. Em poucos segundos, havia dois galões de gasolina e uma garrafa plástica de dois litros de Coca-Cola cortada ao meio usada como funil para despejar o combustível no tanque. 

Comecei a última parte da travessia. Estava apreensiva, com medo de não conseguir voltar. No início do trajeto, vi o motorista separar R$ 120, duas notas R$ 50 - uma para cada barreira do Exército - e duas de R$ 10 - uma para cada barreira indígena. Algo extremamente natural para ele.   

Grasielle Castro/HuffPost Brasil
Em vez de posto de gasolina, uma casa com galões de combustível serve de ponto de abastecimento de carros.

Passamos pela primeira barreira militar com um aperto de mão. Já no segundo bloqueio do Exército venezuelano, avisaram ao motorista que não iríamos passar.

Nessa hora, me lembrei imediatamente dos comerciantes de Pacaraima. Eles reclamam que às vezes os grupos criminosos que controlam as “trochas” simplesmente resolvem fechar o caminho e, nesse momento, o faturamento cai na cidade brasileira. 

Para mim, aquilo não significava um faturamento mais baixo. Em 15 minutos parada na barreira, tive os mais diversos pensamentos. Não sabiam que havia uma brasileira no carro, nem que eu era jornalista. Parei de usar o celular, que eu quase não mexi no caminho por medo.

Foram poucas as fotos. A cada passo que eu dava na cidade, percebia olhares de estranhamento. O motorista ficou surpreso quando soube que eu só queria atravessar para “ver como é que está” do outro lado da fronteira. 

Grasielle Castro/HuffPost Brasil
Por conta da fronteira fechada, Santa Elena tem pouco movimento no comércio.

Aparentemente, os R$ 50 não foram suficientes para os militares venezuelanos. Houve muita conversa. 

Durante todo o trajeto, o motorista explicava a quem o parava que fazia aquele caminho várias vezes ao dia, que levava as pessoas para comprar alimentos, apenas isso. Nas barreiras, alguns integrantes do Exército já o conheciam. Parecia uma relação amigável, mas desta vez foi diferente.

Fomos liberados depois de ele conversar com umas três pessoas, e de muitos minutos que pareciam uma eternidade com o motorista fora do carro.

Passamos pelas duas barreiras seguintes e finalmente chegamos ao Brasil. De novo, passamos pela fronteira brasileira alternativa.

O motorista, já conhecido dos militares brasileiros, ultrapassou a fila para entrar no País, andou cerca de dois quilômetros e me deixou na avenida central de Pacaraima, onde tudo havia começado. 

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