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24/01/2019 16:16 -02

Crise na Venezuela: Como os próximos 2 dias podem mudar a história do País

Ao romper com os EUA na quarta-feira, Maduro deu 72 horas para os diplomatas deixarem o país.

KONTROLAB via Getty Images

Isolado depois de mais de 10 chefes de Estado declararem apoio ao presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, como presidente interino do país, Nicolás Maduro terá de tomar uma decisão sobre o que fazer caso os Estados Unidos ignorem a ordem de fechar a embaixada americana em Caracas. 

Ao romper com os EUA na quarta-feira (23), Maduro deu 72 horas para os diplomatas americanos deixarem o país. Logo após a declaração, Guaidó pediu ao governo americano que mantivesse a estrutura da embaixada intacta na capital. 

Maduro está diante de um impasse, que pode desgastá-lo ainda mais. A situação é um teste que pode mudar a história da Venezuela em poucos dias. Entenda o que está em jogo no futuro do país vizinho. 

 

1. A relação entre Maduro e as Forças Armadas

Um dos pilares de sustentação de Maduro na Venezuela é o apoio da Guarda Nacional e das Forças Armadas. São elas que têm contido as manifestações contrárias ao regime.

Na tarde desta quinta (24), o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, declarou, ao lado da cúpula militar venezuelana, que as Forças Armadas “defendem a Constituição e são garantidoras da soberania nacional”, e que Maduro é o “presidente legítimo”.

Porém, líderes da oposição têm apelado para que os militares se rebelem e já há indícios de insurgência. Nesta semana, 27 militares de baixa patente da guarda foram presos, após roubarem armas, dois blindados e gravarem vídeos estimulando a população a derrubar o regime de Maduro. 

É neste cenário que cabe a Maduro pedir a essas forças para cercar a embaixada dos Estados Unidos. Há a possibilidade de que a ordem não seja acatada, o que ruiria o pouco respaldo que o ditador ainda ostenta. 

2. Força do discurso anti-Estados Unidos 

Maduro tem alimentado o discurso de que os Estados Unidos estão orquestrando um golpe no país. “Temos denunciado o governo imperialista dos EUA, que dirige uma operação para impor um golpe de estado na Venezuela. Pretende eleger e designar o presidente da Venezuela por vias não constitucionais”, afirmou. 

A estratégia repete o discurso usado por Hugo Chávez no início dos anos 2000. 

O que atrairia os EUA para a Venezuela, na avaliação de Maduro, é o petróleo. O país tem uma das maiores reservas do mundo, mas passa por uma crise econômica e humanitária, que já levou à fuga de mais de 3 milhões de pessoas, segundo a ONU. A expectativa do Fundo Monetário Internacional é de uma inflação de 10.000.000% para este ano.

 

3. Pressão americana

Por outro lado, os Estados Unidos já afirmaram que vão usar “todo o peso econômico e o poder político dos EUA para restaurar a democracia na Venezuela”. Um funcionário do governo americano afirmou a jornalistas que, se houver violência, os dias de Maduro “estão contados”. 

“Se Maduro e seus camaradas optarem por responder com violência, se escolherem prejudicar qualquer um dos membros da Assembleia Nacional ou qualquer um dos funcionários legítimos do governo da Venezuela, todas as opções estarão à mesa para os EUA, no que diz respeito às ações a serem tomadas”, disse. 

O senador republicano Marco Rubio endossou as declarações do governo.

“Os diplomatas dos EUA na Venezuela devem apresentar suas credenciais ao presidente Juan Guaidó. Maduro não tem autoridade para expulsar ninguém”, disse. 

“E pode acreditar: se Maduro for estúpido o bastante para testar o presidente Donald Trump, causando mal a algum diplomata americano, as consequências serão rápidas e duras.”

Em seu Twitter, a embaixada e o consulado americanos em Caracas anunciaram que os serviços de visto para os EUA foram cancelados, mas que americanos em situação de emergência seriam atendidos.  

4. Apoio dos países vizinhos

Depois que os EUA e o Brasil reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela, países vizinhos seguiram a mesma linha. Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru seguem o mesmo entendimento.

No Brasil, na semana passada, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, articulou com o presidente Jair Bolsonaro uma reação à Venezuela.

“Compartilhamos a preocupação pelos venezuelanos. Reafirmamos nossa condenação à ditadura de Nicolás Maduro. Não aceitamos esse escárnio com a democracia, e menos ainda a tentativa de vitimização de quem na verdade é o algoz”, disse.

O Uruguai e o México, entretanto, se ofereceram para mediar o conflito, “com pleno respeito às leis e aos direitos humanos”. 

 

5. Alerta chinês e russo

Aliados da Venezuela, a Rússia e a China alertaram os Estados Unidos sobre possíveis retaliações. A Rússia afirmou que a situação da Venezuela e a reação norte-americana “é uma via direta para a anarquia e o banho de sangue”.

Ao pedir que os EUA mantenham distância da crise venezuelana, a porta-voz do ministério do Exterior chinês, Hua Chunying, propôs que a situação seja resolvida com diálogo e de forma pacífica. 

“Esperamos que a Venezuela e os Estados Unidos possam se respeitar e tratar um ao outro com igualdade, e lidar com suas relações baseadas na não interferência nos assuntos internos de cada um”, disse a porta-voz.