Em meio à crise humanitária, venezuelanos cruzam a fronteira em busca de novas oportunidades no Brasil.
Ricardo Moraes / Reuters
Em meio à crise humanitária, venezuelanos cruzam a fronteira em busca de novas oportunidades no Brasil.
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28/04/2019 08:00 -03 | Atualizado 01/05/2019 09:11 -03

O Recomeço

A jornada de quem vem da Venezuela para o Brasil

“Nunca pensei que fosse sair do meu país por fome.” O desabafo vem do chef de cozinha Alberto Alvarez, para quem o alimento sempre representou mais do que um meio de subsistência — era seu principal instrumento de trabalho.

Hoje, sua rotina contrasta em tudo com a carreira que construiu na Venezuela. O portorriquenho de 60 anos que adotou o País vizinho como lar agora passa os dias vagando pelas ruas de Boa Vista em busca de emprego e alimentos para a família.

Alvarez cursou gastronomia em Montreal, no Canadá, fez especialização em Lyon, na França, e trabalhava em um restaurante badalado de Caracas, na Venezuela, onde escolheu fincar suas raízes com a esposa e os 2 filhos, hoje com idades entre 6 e 8 anos.

“Até que faltou tudo e eu precisava dar um jeito. Resolvemos vir para o Brasil e recomeçar do zero”, contou à reportagem do HuffPost Brasil.

“Quando falta comida, não adianta saber manipular os alimentos, falar inglês e francês ou ter boas memórias do passado”, diz.

Quando falta comida, não adianta saber manipular os alimentos, falar inglês e francês ou ter boas memórias do passadoAlberto Alvarez, chef de cozinha

Hoje, ele e sua família vivem de favor em uma casa de conhecidos em Roraima. Chegaram ao Brasil no início do ano, ficaram 3 meses em Pacaraima, cidade brasileira mais próxima à divisa, até que o chef se tornou amigo de um militar que lhe prometeu apoio em Boa Vista.

Eventualmente, Alvarez consegue algum trabalho de serviços gerais, como de pintor. Mas, na maioria das vezes, ele tem que recorrer à solidariedade alheia, em especial, de turistas. Para driblar a fome, pede dinheiro perto de um hotel, próximo a barraquinhas de comidas típicas do Norte, onde as marmitas custam, em média, R$ 5.

O roteiro se repete com boa parte dos venezuelanos que tentam reconstruir suas vidas no Brasil diante da crise em seu País.

Muitos deixam para trás não só a casa, mas também a profissão.

Felizmente, vários encontram brasileiros dispostos a abraçar os recém-chegados.

Nas ruas de Pacaraima e Boa Vista, são comuns histórias de venezuelanos que foram empregados por brasileiros ou contam com apoio dos cidadãos de Roraima.

Os que chegam para ficar

Mesmo com a fronteira oficialmente fechada, os pedidos de refúgio lotam o abrigo que fica em Pacaraima, a 215 km de Boa Vista.

Nos dias menos movimentados, chegam ao local cerca de 350 pessoas. O Acnur (agência da ONU para refugiados), no entanto, já chegou a receber mais de 1.000 pessoas por dia no abrigo.

A estimativa do IBGE mais atual, divulgada em agosto passado, mostrou que, até aquele momento, tinham migrado para o Brasil 30,7 mil venezuelanos. Na mesma época, o Controle Migratório e Estrangeiros da Colômbia informou que o país recebera 870 mil venezuelanos.

A travessia que Alvarez fez para chegar ao Brasil é semelhante à da dona de casa Mayerlin González, 23 anos. Com o filho Ronmer, que tinha apenas 10 meses, nos braços, e o marido, Ronni Villalba, 25 anos, ela viajou por mais de 30 horas. Primeiro, de ônibus. Depois, pela “las trochas”,  como são chamadas as rotas ilegais controladas por grupos armados que são usadas pelos imigrantes para fugir da Venezuela. 

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Mayerlin González e o marido viajaram por mais de 30 horas com o bebê Ronmer, de 10 meses nos braços, até chegar ao Brasil.

O marido já tinha vindo primeiro ao Brasil, ficou por um mês nas ruas em Boa Vista, mas conseguiu emprego. Só depois voltou a Maturín, a quase 800 km de Pacaraima, para buscar a esposa e o filho.

Mayerlin diz não pensar, em nenhum momento, em voltar para a Venezuela. Sua ideia é ir para além de Roraima, inclusive. “Paraná, Santa Catarina, uma cidade bem longe”, diz. Há no imaginário venezuelano a ideia de que o Sul do Brasil é mais próspero porque as histórias mais comuns são de desalento em Boa Vista e em Manaus.

A dona de casa integra o grupo de cerca de 270 refugiados abrigados no BV-8, como é chamada a parte da vila do Exército brasileiro em Pacaraima que foi transformada em um ponto de acolhida de refugiados pelo Acnur. O número flutua porque há um processo de interiorização, parte da Operação Acolhida, do governo federal.

Embora a fronteira esteja fechada pelo lado venezuelano, as famílias são recebidas pelo Exército brasileiro e voluntários do Acnur logo na divisa entre os 2 países. Eles perceberam que as pessoas continuavam chegando e mapearam as entradas alternativas.

Adriana Duarte/Especial para o HuffPost Brasil
Refugiados venezuelanos são acolhidos no Brasil.

No Brasil, os migrantes são recebidos com atendimento médico e alimentos, como água, frutas e biscoito, especialmente para as crianças.

A maioria dos acolhidos no BV-8 é de casais com filhos e mães sozinhas com as crianças. Os filhos, em muitos casos, são a força que move os venezuelanos a deixar de vez o país.

Zora Gonzalez, 25 anos, não aguentou se ver na situação em que não tinha leite no peito para alimentar seus gêmeos recém-nascidos.

“Eles nasceram prematuros, com 32 semanas, e eu não tinha leite nem alimentação para as crianças”, diz Zora. O marido, Gregory Vera, 26 anos, completa: “Eu trabalhava na Marinha, ganhava cerca de 18 mil bolívares soberanos por semana [em torno de R$ 80], mas não conseguia comprar nada”. 

Juntos, eles decidiram deixar Puerto La Cruz, distante quase 1.000 km de Pacaraima. Foi mais de um dia viagem de ônibus e um trecho de 3 horas a pé por uma rota alternativa com os gêmeos e o outro filho, Sebastian, de 2 anos. Quando eles chegaram ao Brasil, em março, a fronteira tinha sido fechada havia pouco mais de 10 dias.

“Espero ter um futuro. Não quero voltar mais. Quero ‘interiorizar’, se surgir a oportunidade em outro estado — Paraná, Santa Catarina. Não quero mais voltar”, diz Gregory.

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Zora Gonzalez e Gregory Veras esperam conhecer o interior do Brasil.

Os que escolhem outros estados

Um dos grandes esforços dos venezuelanos no Brasil é de interiorizar. As primeiras paradas geralmente são Boa Vista e Manaus, mas como o próprio apoio do governo federal há estímulos para que a migração ocorra para outras cidades do País. O Exército brasileiro faz a ponte com outros estados para identificar cidades de acolhida. No fim de março, por exemplo, 99 homens e uma mulher foram recebidos em Campo Grande.

Outra cidade com histórico de acolhida é São Paulo. O motorista de Uber Ricardo José foi um desses. Diferentemente dos refugiados, Ricardo não precisou contar com apoio do Exército por ter uma facilidade: ser filho de mãe de brasileira. Há 2 anos, ele deixou o país natal para refazer a vida no Brasil. Segundo ele, a crise na Venezuela vem de longa data; seu irmão, por exemplo, deixou o país 5 anos antes dele.

Os pais e tios dele continuam na Venezuela e decidiram não sair do país para não ter que vender os bens que ainda têm por “preço de banana”. “Antes de vir para cá, minha família foi raptada mais de uma vez. Por isso, viemos o quanto antes, não esperamos as coisas chegarem ao limite. Não se pode mais confiar em ninguém no meu país.”

Antes de vir para cá, minha família foi raptada mais de uma vez. Por isso, viemos o quanto antes, não esperamos as coisas chegarem ao limite. Não se pode mais confiar em ninguém no meu paísRicardo José, motorista de Uber

As famílias venezuelanas que optam por vir para o Brasil costumam enfrentar a barreira linguística em troca da facilidade no acesso. A vantagem é que, diferentemente de países vizinhos como Colômbia e Peru, não há necessidade de passaporte. O documento praticamente não está sendo impresso por falta de material, e o custo é bastante elevado. 

Os que não deixam a Venezuela

Toda semana, Zoraide* deixa sua cidade, Kumarakapay, a 80 km da fronteira com o Brasil, para buscar comida em Pacaraima.

“A gente compra de tudo. Não tem nada lá [na Venezuela]. Está muito ruim”, disse a indígena da etnia Pemon à reportagem, enquanto esperava o carro para voltar a seu país.

“Tive que tirar meus filhos da escola, eles viram tanta coisa. O de 9 anos viu um dos nossos ser assassinado em um dos confrontos com o Exército venezuelano. Não tenho coragem de deixá-lo fazer o caminho para a escola porque tem que passar pela guarda policial.”

Mesmo assim, sua família ainda não decidiu migrar para o Brasil.

“Penso nisso todos os dias, mas meu filho está com sarampo. Ele precisa ficar bom.”

Acompanhada de uma amiga, ela continua o desabafo e reclama do regime de Nicolás Maduro - diferentemente de boa parte dos imigrantes, que parecem já ter deixado de lado a questão política enquanto buscam sobreviver.

O filho de Zoraide é um dos afetados pelo surto de sarampo na Venezuela que fez que Roraima antecipasse a campanha de vacinação tríplice viral. Até início de abril, tinham sido registrados 6 casos da doença e 23 casos suspeitos do lado de cá da fronteira. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, todos os casos foram importados da Venezuela.

* Nome fictício.