No Canadá, funerais durante a pandemia do coronavírus acontecem em estacionamentos

O que podemos aprender com os canadenses sobre a difícil missão de procurar novas formas de dizer adeus a quem amamos.

“Meu pai foi para a UTI e não podemos vê-lo.”

Quando a canadense Sandra Brunner ouviu essas palavras na semana passada, a “doula da morte” – um tipo de cuidadora que lida com o processo do fim da vida – percebeu que a pandemia do coronavírus iria dificultar muito a despedida de seus clientes das pessoas queridas.

Preparar-se para a morte durante uma pandemia representa desafios excepcionais, especialmente quando reunir pessoas não é mais permitido. Hospitais por todo o Canadá estão endurecendo as regras de visitas, ou, em alguns casos, simplesmente as proibindo. Velórios e funerais não são possíveis em tempos de autoisolamento e distanciamento social.

“Acho que muita gente pensa no enterro, no velório, como uma representação do fim”, diz Brunner ao HuffPost Canadá.

Os estados canadenses de Colúmbia Britânica e Ontário declararam essenciais os serviços mortuários durante a pandemia.
Os estados canadenses de Colúmbia Britânica e Ontário declararam essenciais os serviços mortuários durante a pandemia.

Scott MacCoubrey, diretor de uma funerária, é testemunha do impacto da pandemia na hora da despedida. Parte da terceira geração que toca a MacCoubrey Funeral Home, na cidade de Coburg, ele afirma que teve de recusar pedidos de famílias que queriam fazer velórios, por causa das recomendações impedindo aglomerações. Hoje, reuniões de mais de dez pessoas estão proibidas em Ontário, incluindo funerais.

“É muito difícil para as famílias”, afirma ele ao HuffPost Canadá. “Você quer celebrar a pessoa naquele instante.”

O HuffPost Canadá perguntou a Brunner e a MacCoubrey como os canadenses enlutados podem se confortar e confortar os outros durante a pandemia. Veja o que eles disseram:

Respeite os desejos de quem está partindo

Brunner afirma que respeitar os desejos de quem parte pode ser uma fonte de conforto para familiares e amigos.

Perguntar como eles gostariam de ser lembrados é importante para que aqueles que estão morrendo saibam que sua presença será lembrada depois da morte. Ao mesmo tempo, quem fica pode homenagear os falecidos sem se colocar em situações de risco. Uma música para tocar no funeral, por exemplo, pode ser executada ao vivo em uma cerimônia futura.

Caso as tradições sejam específicas de alguma cultura ou religião, talvez seja melhor buscar orientações que contemplem as restrições impostas pela pandemia. A BAO (Autoridade do Luto de Ontário) criou um guia para canadenses muçulmanos que queiram lavar os corpos dos mortos, incluindo dicas de prevenção contra o coronavírus.

Encontre um intermediário

O hospital impede visitas à UTI? Além do luto, você está ansioso demais por causa da pandemia?

MacCoubrey e Brunner afirmam que as regras relativas à pandemia mudam o tempo todo. Pode ser difícil saber qual é a recomendação mais recente.

Nestes casos, um intermediário pode ser a solução. Brunner se encarregou da comunicação entre os hospitais e a família para permitir visitas a um pai internado - um a um, os integrantes da família o viram pela última vez antes de seu falecimento.

“Defendi os direitos deles e tive uma resposta do hospital”, afirma ela. “Intermediários funcionam como uma barreira. Em tempos de crise, quando alguém te dá informações, você absorve talvez metade delas.”

Organize os funerais

MacCoubrey diz que os velórios realizados em Ontário têm limites de pessoas. Ele sugere que as famílias organizem as idas ao velório em grupos pequenos, para minimizar as chances de disseminação do vírus.

Faça uma cerimônia online

Zoom e Google Hangouts estão ajudando a nos manter em contato virtualmente – e esses programas podem ser muito úteis para quem busca conforto nessa hora difícil.

Comentários e lembranças podem ser compartilhados em memoriais online, bem como páginas do Facebook.

Memoriais virtuais e páginas em redes sociais podem ser uma maneira de celebrar a vida dos que se foram.
Memoriais virtuais e páginas em redes sociais podem ser uma maneira de celebrar a vida dos que se foram.

Outra ferramenta que vem sendo utilizada é o Facebook Live.

Não é a solução perfeita, claro. Quem participou de um velório pelo Zoom sabe que a tecnologia não é capaz de substituir a presença física.

Um lado do triste da covid-19 é que outras tragédias estão se perdendo em meio à confusão. Meu primo de 40 anos morreu na sexta passada depois de lutar três anos contra um tumor no cérebro. Não houve velório e a shiva foi realizada pelo Zoom, por causa do distanciamento social. Que forma de luto.

Estou furiosa porque esse coronavírus está impedindo que minha família se reúna para dizer adeus à minha tia da forma correta. É uma merda fazer o rosário pelo Zoom e não poder fazer um velório para ela.

Embora seja uma realidade surreal e triste, uma reunião virtual é melhor que simplesmente não fazer nada.

Lembre-se da etiqueta online

A boa educação não deve ser esquecida nem mesmo em uma cerimônia online. Para certificar-se de que tudo seja o mais respeitoso possível, peça que os participantes minimizem os ruídos de fundo. Se for o organizador, considere um teste prévio para evitar complicações na hora.

Acabo de participar de um velório via Zoom – no sofá (de pijama), com meu pai, minha mãe isolados no andar de cima. Ninguém pode se abraçar.

A melhor parte? As pessoas não sabem dar mute em seus microfones, então a kaddish foi acompanhada por um cachorro, TV/rádio e alguém falando na cozinha.

Extrema unção digital também funciona

Bênçãos de líderes espirituais podem ser feitas por telefone ou vídeo em situações em que a presença de outras pessoas não é permitida. Informe-se junto à sua congregação.

Faça um funeral ‘de estacionamento’

Ainda é possível encontrar as pessoas. MacCoubrey disse que um colega realizou recentemente um funeral “de estacionamento”. Os participantes foram de carro até a funerária, e escoltados pelo diretor, entraram um a um para prestar suas últimas homenagens. Depois, todos voltaram para seus carros e entraram no Zoom para assistir ao funeral pelo celular.

Uma funerária canadense fez um funeral ‘de estacionamento’ para permitir que familiares e amigos pudessem se despedir pessoalmente.
Uma funerária canadense fez um funeral ‘de estacionamento’ para permitir que familiares e amigos pudessem se despedir pessoalmente.

“Assim você tem um certo controle, e todos podem se ver e se despedir. É o que estamos tentando fazer”, afirmou ele.

Luto no seu ritmo

O ritmo do luto é diferente numa pandemia, o que não é necessariamente um problema, observa Brunner. Em vez dos horários estabelecidos pelo velório, por exemplo, na quarentena cada pessoa pode sentir-se à vontade para atravessar o luto no seu próprio ritmo.

Especialista recomenda manter contato frequente com parentes e amigos para se certificar de que todos estejam bem.
Especialista recomenda manter contato frequente com parentes e amigos para se certificar de que todos estejam bem.

“Um velório que dure horas pode ser demais [emocionalmente]. Na pandemia, alguém te liga de manhã, alguém te liga à tarde”, afirma ela. “No dia seguinte, você recebe um email. Esse luto aos poucos pode ser mais reconfortante.”

Lembre dos momentos compartilhados

Como se espera que as pessoas fiquem em casa (com exceção de atividades essenciais, como ir ao supermercado), pode ser impossível lidar com algumas partes práticas, como organizar as coisas do morto – o que pode ser parte essencial da superação do luto.

Brunner recomenda conectar-se com quem se foi por meio de lembranças que você tenha em casa, como fotos. Se não tiver nenhum item, simplesmente lembrar-se de bons momentos juntos pode ser uma bela homenagem.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.