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29/01/2019 21:07 -02

Vale fechará todas as barragens que usam mesma técnica de contenção de Brumadinho

Empresa também suspenderá operações de mineração - o que reduzirá em 10% sua produção. Segundo especialistas, modelo de barragem era o mais inseguro e barato.

Adriano Machado / Reuters

A Vale anunciou nesta terça-feira (29) que vai fechar todas as suas barragens que usam a mesma técnica de contenção das que romperam em Mariana e Brumadinho.    

A empresa disse que não utilizará mais barragens de alteamento a montante (leia mais abaixo) em suas operações e que vai acelerar o processo de descomissionamento - “desfazendo” as barragens de rejeitos - de 10 estruturas similares à de Brumadinho que ainda existem em Minas Gerais. Outras 9 já tinham passado por esse processo, que dura de 1 a 3 anos.

As 10 barragens já estavam inativas desde 2015 e não recebiam nenhum tipo de rejeitos de minério.

Para não aumentar os riscos, a empresa também anunciou que suspenderá as operações de mineração da região - o que deve impactar em 10% da sua produção anual de minério. 

 

Precisamos paralisar as operações para acelerar o descomissionamento para não correr risco de desabamentos. É um plano drástico e definitivo. Nós temos os laudos de estabilidade e auditorias recentes que comprovam que nossas estruturas são seguras. Mas resolvemos não aceitar apenas esses laudos. Vamos agir de outra maneiraFabio Schvartsman, presidente da Vale

A Vale deixará de produzir 40 milhões de toneladas de minério de ferro e 10 milhões de toneladas de pelotas. O custo para desativação das estruturas será de R$ 5 bilhões.

“Precisamos paralisar as operações para acelerar o descomissionamento para não correr risco de desabamentos. É um plano drástico e definitivo. Nós temos os laudos de estabilidade e auditorias recentes que comprovam que nossas estruturas são seguras. Mas resolvemos não aceitar apenas esses laudos. Vamos agir de outra maneira”, disse o presidente da empresa Fabio Schvartsman.

 

Como funcionam as barragens de alteamento a montante

A barragem que rompeu em Brumadinho na última sexta-feira (25) e deixou mais de 60 mortos tinha estrutura “com dias contados”, de acordo com especialistas.

A obra era similar à da Barragem do Fundão, em Mariana, que rompeu em 2015. Somente o estado de Minas Gerais possui outras 40 barragens construídas sob risco de rompimento e a maioria das barragens do Brasil estão na mesma situação.

O processo conhecido como alteamento a montante consiste em erguer novas fases da barragem sob os rejeitos já depositados e drenados. O método é o mais barato e o mais instável dentre os disponíveis. 

Para o professor Allaoua Saadi, do departamento de geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as obras de barragens de alteamento a montante possuem “dias contados” porque tendem a ter um custo de risco de rompimento muito alto.

“Barragens como a de Brumadinho e Mariana apresentam fragilidades, e, por que não, dias contados, sem que nenhum Deus tenha de intervir para tragédias”, afirma Saadi.

 

ASSOCIATED PRESS

 

Do ponto de vista formal, laudos de fiscalização definiam o risco da estrutura da mina do Córrego do Feijão como baixo, embora afirmassem que o dano potencial era alto.

E foi o que aconteceu. A barragem rompeu e liberou cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba, causando impactos ambientais incalculáveis. Ainda, até agora, 84 mortes já foram confirmadas e há 276 pessoas desaparecidas na região.

Para Carlos Barreira Martinez, professor de engenharia hidráulica da UFMG, a situação do País é muito preocupante porque casos como o de Brumadinho deixam os técnicos “sem parâmetros.”

“Se os relatórios alegavam segurança e ocorreu essa tragédia, é preciso investigar todas as possíveis causas e transformar os nossos modelos.”

De acordo com ele, o rompimento pode ter sido causado por algumas hipóteses, mas a ocorrência do fenômeno de liquefação é uma das mais prováveis.

 

Como a barragem é construída em cima de um material que é um fluído, ela não suporta. Outra coisa que é preciso levar em conta em Brumadinho é que haviam máquinas pesadas trabalhando na área. A gente não pode descartar que sismos provocados pelas máquinas causaram esse problema de ‘sangramento’ do líquido’Carlos Barreira Martinez, professor de engenharia hidráulica da UFMG

 

“Se houver uma pressão excessiva por conta da quantidade de rejeito acomodada no sistema da barragem, isso pode ocasionar o escorrimento do líquido”, argumenta Martinez.

Ele explica que as barragens costumam dar sinais de falhas, mas detectar infiltrações pode ser mais difícil e por isso costumam ser negligenciadas.

“Como a barragem é construída em cima de um material que é um fluído, ela não suporta. Outra coisa que é preciso levar em conta em Brumadinho é que haviam máquinas pesadas trabalhando na área. A gente não pode descartar que sismos provocados pelas máquinas causaram esse problema de ‘sangramento’ do líquido”, explica.

Conforme o Relatório de Segurança de Barragens 2017, a barragem da mina do Feijão estava inativa e não recebia rejeitos havia 4 anos.

Em 2018, a Vale recebeu o licenciamento para reutilizar parte dos rejeitos ali presentes e, desde então, a região era um canteiro de obras para que a estrutura fosse descomissionada, ou seja, deixasse de ser barragem e fosse transformada em um morro, por exemplo.

 

O que poderia ter evitado o rompimento da barragem 

Para Saadi, o descomissionamento da mina do Feijão foi tardio. Além disso, o especialista afirma que há outros modelos de alteamento que são mais seguros do que o utilizado - porém são mais caros para as empresas.

De acordo com ele, as mineradoras deveriam dar preferência ao modelo de alteamento do tipo “a jusante”, em que a barragem cresce e forma uma espécie de “pirâmide” - não sobre os resíduos, mas a partir de uma área de barreira que é mais estável. Esse, porém, é um método mais caro e que ocupa mais espaço de obra.

Há, ainda, o modelo de alteamento “de centro”, em que as etapas da barragem crescem uma em cima da outra, seguindo uma linha central vertical. Assim, a barragem se divide entre a barreira estável e acima dos resíduos mais fluídos. 

“Além disso, não podemos construir barragem acima de instalações humanas, precisamos ter sistemas de gerenciamento, monitoramento e vigilância adequados e investir mais em segurança”, argumenta Saadi.

Para Martinez, é preciso um monitoramento imediato por parte dos órgãos fiscalizadores principalmente para que barragens desativadas sejam drenadas.

“O pessoal precisa ir a campo e fazer uma avaliação muito séria do que aconteceu em Brumadinho. Até hoje não se tem muitas respostas sobre Mariana e o primeiro passo para evitar novas tragédias é abrir o jogo. É preciso dar acesso aos dados aos pesquisadores para que toda a comunidade possa trabalhar e resolver esse problema”, explica.