MULHERES
15/05/2020 06:00 -03

Abri mão da diversão quando meus filhos eram pequenos; agora, eles me incentivam a curtir

A dona do 14º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é Val da Silva, diarista aposentada que dedicou a vida a criar os 3 rebentos.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Valderez e a filha Regina, companheira de samba e pagode.

Sempre trabalhei muito a vida inteira. Hoje sou aposentada, mas ainda vou a um apartamento 3 vezes por semana. Enquanto fui criando meus filhos, foi assim que sustentei a família. E, de diarista, também passei por muitas coisas ruins em algumas casas, mas trabalhei também com pessoas maravilhosas, tudo para poder criar meus filhos.

Quando o meu mais novo tinha 4 aninhos, meu marido faleceu. Eu já estava acostumada a cuidar deles praticamente sozinha, mas quando fiquei só com meus filhos foi muito difícil. O dinheiro que eu ganhava mal dava para suprir as necessidades, mas a gente tira força e coragem pelos filhos. Eu tinha ajuda de patroa, uma ajudinha daqui e outra dali. Mas tinha que seguir em frente para não faltar o necessário para eles. 

Casei com 28 anos e depois de um ano de casada o Júnior nasceu. Naquela época se achava que com essa idade era tarde para ter filhos, e ele foi planejado. Eu queria ser mãe, nada era sacrifício para cuidar dele. Fiz questão de ficar os primeiros 6 meses com ele e só depois coloquei na creche.

Eu tinha que trabalhar porque só o dinheiro do pai não dava e assim foram passando os anos, e eu queria ter outro filho. A Regina nasceu depois de 2 anos do primeiro e fiquei com 2 bebês. Mas tudo bem, era tudo que eu queria: um casal de filhos, minhas riquezas. A Regina até hoje chamo de “minha bonequinha”. 

O tempo passou, chegou a época de escola, e eles foram crescendo crianças saudáveis, graças a Deus. Aí aconteceu a terceira gravidez. Eu estava com 42 anos. Como dizem, foi a raspa do tacho! Veio o Ricardo, saudável.

Minha vida era trabalhar e cuidar das crianças. O pai deles era músico e trabalhava direto. Tudo em relação aos filhos sempre fui eu que resolvi. Era difícil conciliar todas as tarefas. Eu só saia quando podia levá-los.

Trabalhava de segunda a sábado, eles tinham os horários da creche, escola, as reuniões e eu não perdia nada. Fazia tudo sempre com prazer, muito amor e diversão. No verão, era praia! Moramos no Guarujá e a gente levava lanche, água e frutas e passávamos o dia assim. São boas lembranças. 

Abri mão da diversão quando meus filhos eram pequenos para poder cuidar deles. Hoje, retomei e eles me incentivam. Minha diversão é ir na academia, faço aula de passinho, de vez em quando vou no samba, que adoro. Na minha juventude saí vários anos em escolas de samba aqui no Guarujá, fui rainha de bateria quando namorava o pai dos meus filhos. 

Divulgação/Arquivo Pessoal
Ricardo, Júnior, Val e Regina: família reunida.
Atualmente a minha maternidade é aconselhar. Peço a Deus que os proteja porque eles têm que viver a vida deles com dignidade. Dei a eles educação para que mais tarde seguissem suas vidas com respeito e responsabilidade.

Eu acredito no ditado de que filho não pede pra nascer. Minha mãe teve muitos filhos, nos amava à sua maneira... Com muitos conflitos e brigas, não tínhamos carinho e com os meus fiz ao contrário: muito carinho, atenção, sempre falamos “te amo” um para o outro e isso é até hoje.

Cada um tem sua característica. A Regina foi morar em São Paulo, sofreu, passou muita dificuldade, foi para a Itália, morou em vários lugares, trabalhou como modelo e hoje ela tem uma agência de modelo. Às vezes parece que ela quer ser minha mãe! Está sempre me ensinando, cuida de mim, se preocupa com minha saúde, me leva pra viajar, me leva para o samba, pagode, que gostamos muito. 

A vida agora é diferente. Nunca pensei em me separar de meus filhos, mas primeiro foi a Regina que saiu de casa porque aqui no Guarujá é difícil emprego. Não foi fácil minha filhinha sozinha em São Paulo, mas o tempo passou, superei e depois quando foi o mais velho eu já estava preparada. Junior é músico e mora em São Paulo também. Hoje mora comigo só o mais novo, o Ricardo.

Atualmente a minha maternidade é aconselhar. Peço a Deus que os proteja porque eles têm que viver a vida deles com dignidade. Já têm opinião formada sobre o que querem. Dei-lhes educação para que mais tarde seguissem suas vidas com respeito e responsabilidade.

Aprendi que tudo que passamos valeu a pena. Não há luta e conquista sem sacrifícios. Não importa o que passemos. Amor, carinho e atenção para meus filhos sempre vai ter. São meus amores e meus tesouros. 

Valderez da Silva, é dona do 14º depoimento de Prazer, Sou Mãe. Ela tem 63 anos, é diarista, hoje aposentada. Mãe de 3, ainda trabalha e marca presença, sempre que pode, na roda de samba e no pagode, muitas vezes na companhia da filha