OPINIÃO
04/10/2019 19:01 -03 | Atualizado 04/10/2019 19:10 -03

Valda Nogueira, a dona do olhar sensível em meio à brutalidade

Fotógrafa e artista visual formada pelo projeto Escola de Fotógrafos Populares, na Maré, morreu no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (4).

Valda Nogueira
Foto de Valda Nogueira, para a série documental autoral "Povos Tradicionais Brasileiros". Garoto na comunidade quilombola Lapinha, Minas Gerais, 2012.

Em 8 de março de 2018, o HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas. Durante um ano, eu e outras 14 profissionais nos esforçamos para contar 365 histórias de mulheres que rompem com a lógica de um mundo machista e se levantam para serem protagonistas de sua própria história. Até 8 de março de 2019, o objetivo foi um só: contar as histórias destas mulheres e jogar pro mundo a potência de transformação que elas têm, de Norte a Sul.

E, por mais que a morte seja algo presente no mundo do jornalismo diário e que o Todo Dia Delas fosse um projeto com o foco na vida, soa estranho hoje lembrar o quanto eu me pegava pensando em como seria se uma das mulheres entrevistada pelo projeto morresse. Pensei muitas vezes em silêncio. E eu mesma respondia: “ah, para, tá doida?”, “ok, eu contei uma história e isso é tudo”. Pensar, elaborar e depois esquecer a existência dessa possibilidade.

Hoje, meses distante da iminente sensação de que a morte poderia estar presente, acordei com uma notícia que me torceu o coração, cravou nó na garganta e trouxe ela, sim, a morte. Valda Nogueira, mulher negra, fotógrafa e artista visual que trabalhou ao lado da repórter Lola Ferreira no projeto, morreu atropelada no Rio Janeiro na madrugada desta sexta-feira (4).

Ela foi atingida por um ônibus enquanto andava de bicicleta no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. O motorista não prestou socorros. Ela foi amparada por transeuntes e levada ao hospital Miguel Couto para uma cirurgia de emergência. Ela fraturou a bacia e teve uma hemorragia interna. 

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Lola Ferreira (à esq.) ao lado de Valda Nogueira (à dir.) integravam o time do Rio de Janeiro do "Todo Dia Delas", projeto do HuffPost Brasil que esteve em 6 capitais brasileiras durante um ano.

Foi o trabalho que fez Valda cruzar o meu caminho. Ela tinha uma alegria contagiante e um jeito simples de lidar com desafios que me acalmavam.Ela tinha um ar um tanto agitado, mas muito mais debochado e sereno de ser. Eu tinha a certeza de que sempre ia rolar. As fotos iam sair. E sairiam perfeitas. 

“Foi uma daquelas experiências que a gente vai contar para o resto da vida”, disse Lola, quando escrevi um texto para marcar o fim do Todo Dia Delas. Juntas, elas passaram por “umas experiências bem características” do Rio de Janeiro. “Foram duas vezes em que nos deparamos com um fuzil, pois fomos produzir em área de risco. Nas duas vezes, claro, nada aconteceu.”

E ainda bem. Uma dessas histórias a que Lola se refere é a de Sandra Santos, de 54 anos, que trabalha como cozinheira em uma unidade prisional para menores infratores e, a partir disso, acolhe mães destes jovens em outro projeto. Sim, elas chegaram a se deparar com fuzis em áreas de risco. Isso porque não queríamos deixar de contar uma história. Existia risco, muito risco.

Mas também existia, eu sei lá, responsabilidade. Firmeza, comprometimento. Propósito. Essas coisas que fazem a gente ir além, mesmo sabendo que tudo pode dar errado. E talvez uma centena de Deusas seguindo todos os nossos passos até que o projeto cumprisse com o seu objetivo. Eu gosto de acreditar nisso. E de que mesmo de uma realidade tão dura, algo floresceria.

Juntas, Lola e Valda contaram desde a história de Kamilla Bussinger até Maria Aliano, a ‘Caboclinha do Salgueiro’. Foram 80 textos e mais de 400 imagens produzidas no período de um ano. Toda vez que o “pacote” de imagens feitas pela Valda chegavam no meu e-mail era um presente. Eu sabia que ia me emocionar. Ela sentia a história. E traduzia a narrativa em imagens.

Não à toa. Ela aprendeu a direcionar o seu olhar para o lado humano. Se formou na Escola de Fotógrafos Populares em 2012 e em 2013 fez o curso Fotografia, Arte e Mercado, ambos no Observatório de Favelas, da Maré, no Rio. Amigos contam que ela gostava de classificar seu trabalho como “fotografia documental humanista”. Não à toa, povos originários, luta pelo território, ancestralidade e cultura eram temas centrais de seus projetos. 

É possível enxergar o olhar sensível, delicado e ao mesmo tempo forte e brutal de Valda, em trabalhos como Tempo de Flor, em que registrou a colheita de flores sempre-viva em comunidades rurais. Lá, a colheita de flores (ou ‘panha’ de flores) é importante fonte de renda para diversas comunidades que vivem na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. As flores são vendidas ou são transformadas em produtos decorativos feitos pelos próprios moradores.

Ou em Povos tradicionais brasileiros, resultado de uma documentação que realizava desde 2012, com comunidades tradicionais quilombolas e ribeirinhas em diversas regiões pelo País, acompanhando suas variadas experiências de autonomia, afirmação do modo de vida camponês e de identidade brasileira.

Valda Nogueira
B., colhendo num canteiro de flores conhecidas como “Cabeça-de-nego”, em um campo de colheita da comunidade Galheiros. 

Ela também atuava em projetos independentes como Farpa, Women Photograph, Diversify Photo, MFON Women e Fotografia, Periferia e Memória. Agora, aos 34 anos, tinha começado curso de Artes Visuais na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Há quatro dias, tinha divulgado que começaria a publicar seu trabalho na New Yorker Photo, perfil da cultuada revista norte-americana que valoriza o trabalho de fotógrafos pelo mundo. Ela já teve imagens publicadas no The Washington Post e The New York Times.

Neste sábado, ela participaria do encerramento da exposição Através do Olhar, no Sesc Madureira, que revela a perspectiva de fotógrafas negras sobre territórios e tradições. O evento será mantido e foi transformado em homenagem póstuma à ela, que deixa legado para as próximas fotógrafas.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Thamyra Thâmara, que criou espaço de compartilhamento no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro e foi fotografada por Valda Nogueira.

Lola me contou que diversas vezes após fazer uma entrevista ao lado de Valda, precisou “segurar o choro”. Não por ser sensível demais. Ou por se emocionar com o que foi dito. Mas porque começou a sentir a dimensão do que estava fazendo parte. E do quão grandioso contar essas histórias poderia ser. E essa experiência não teria sido assim se não tivesse a Valda junto. 

“Muito me honra ter colaborado pra isso tudo acontecer!”, escreveu a Valda em resposta a um e-mail que enviei pra ela em 8 de março de 2019. Dia da Mulher. Dia em que o projeto que contou a história de 365 mulheres durante um ano chegou ao fim. Dia de comemorar. Celebrar que conseguimos. Juntas. Uma das fotos dela que mais gosto é esta acima, de Thamyra Thâmara. Ela diz tanto. Uma mulher que segue provando que a periferia é dona do conhecimento.

“Quando você sentir que o céu está ficando muito baixo, é só empurrá-lo e respirar”, disse o líder indígena Ailton Krenak em discurso publicado no livro, Ideias para Adiar o Fim do Mundo (Companhia das Letras). Para adiar o fim do mundo, segundo ele, é preciso não só segurar o céu e respirar. Mas sobretudo criar paraquedas coloridos. E sempre poder contar mais uma história, assim como fez Valda. E que consigamos ser tão boas quanto ela. Obrigada.