MULHERES
09/10/2019 03:00 -03

Como ter vaginismo me deixou com a sensação de ser uma fracassada

Só aos 20 anos fui descobrir que inserir um absorvente interno não precisava ser altamente doloroso – porque ninguém me havia dito até então, escreve Hannah Van-de-Peer.

Hannah Van-de-Peer

Poucas pessoas já ouviram falar do vaginismo.

Isso não chega a surpreender. Essa desordem, em que os músculos vaginais se controem involuntariamente, impedindo a penetração, não é o tipo de coisa da qual conversamos normalmente em nossa sociedade. Nunca me ensinaram sobre isso nas aulas de educação sexual (mas me lembro de várias discussões longas sobre disfunção erétil), e a mídia convencional difunde muita desinformação prejudicial.

Acho que esse é um fator importante que explica meus próprios problemas com a desordem e por que demorei tanto a aceitar a ajuda da qual precisava seriamente. Eu me sentia anormal. Me sentia uma fracassada como mulher, fracassada como namorada e fracassada como ser sexual –ou seja, tudo que uma feminista sexopositiva como eu se propõe a combater com tanta veemeência. Eu sabia que as mulheres não são determinadas por sua capacidade vaginal, mas mesmo assim meu pensamento irracional, emocionalmente prejudicado levara naturalmente à conclusão que parecia inevitável: eu era um fracasso.

A simples ideia de inserir um objeto em minha vagina sempre me causou ansiedade enorme. Me lembro de ter 11 anos de idade, na minha primeira aula de educação sexual. Eu me sentava no fundo da sala e meu estômago virava diante da ideia de usar um absorvente interno. Eu quase me contorcia de medo, imaginando que não existia outra opção menos invasiva. Só aos 20 anos fui descobrir que inserir um absorvente interno não precisava ser superdoloroso. Porque ninguém me havia dito até então.

Eu me sentia uma fracassada como mulher, fracassada como namorada e fracassada como ser sexual – tudo que uma feminista sexopositiva como eu se propõe a combater com tanta veemência.

As coisas não melhoravam depois disso. A perda da virgindade, me informaram, é um ritual sangrento e altamente doloroso que dá absolutamente zero de prazer à mulher. O sexo só pode levar a três coisas: gravidez precoce, infecções constantes e/ou ferimentos na vagina.

Os chamados “conhecimentos” que meus professores primários me transmitiram ficaram na minha cabeça até eu passar pela minha fase “experimental”, aos 18 anos. Minhas amigas quase todas já tinham perdido a virgindade, e eu não entendia como. Como elas conseguiam transar sem chorar de dor? Como é que estavam conseguindo usar absorventes internos sem problemas? E por que eu sou tão diferente delas? Nos dois anos seguintes comecei a me sentir cada vez mais distanciada de minhas amigas, que todas tinham uma vida sexual. Para mim, a ideia de fazer sexo com um homem seria como enfiar uma faca em meus órgãos reprodutores e girá-la lá dentro. E eu pensava que fosse a única pessoa no mundo que se sentia assim.

Minhas tentativas de inserir algo devagar foram virando um meio de autodestruição. Eu tentava inserir um absorvente, um dedo, um vibrador, e meu corpo o rejeitava, sempre. Um dos aspectos mais frustrantes do vaginismo é que os músculos contraídos criam um bloqueio que impede a passagem do objeto penetrador. Isso significa, basicamente, que seu corpo simplesmente não lhe permite tentar uma penetração de qualquer tipo ou forma. As sensações de dor lancinante me deixavam chorando no meu quarto durante horas. Toda semana eu tentava uma inserção, mas era inútil. O que eu não sabia é que meus esforços estavam agravando o problema. Quando você tem vaginismo, quanto mais trauma você sofre, mais tempo pode levar o processo de tratamento.

Foi apenas quando tive um relacionamento estável que confessei o que eu sentia. Meu namorado e eu passamos horas fazendo buscas na internet sobre meus sintomas, tentando excluir outros problemas reprodutivos, como endometriose. Finalmente encontramos a página sobre vaginismo no site do NHS, o serviço nacional de saúde britânico. Cada sintoma apavorante citado correspondia exatamente ao que acontecia comigo: a incapacidade de ser penetrada, a queimação, o sangramento.

Entender que eu sofria daquela condição foi uma coisa, mas buscar ajuda médica foi outra inteiramente.

Entender que eu sofria daquela condição foi uma coisa, mas buscar ajuda médica foi outra inteiramente. Eu tinha aprendido muito pouco sobre o funcionamento mais complexo da vagina, o que dirá noções detalhadas de ginecologia, e eu tinha pavor de que tentassem colocar um espéculo dentro de mim sem me avisar. E, mesmo que não o fizessem, e se eu cheirasse mal? E se minha vagina tivesse a aparência de uma mutação marciana? Eu seria atendida por um médico ou médica simpático, compreensivo? Ou seria uma pessoa fria e distante que descartaria meus sintomas como sendo psicossomáticos e nada mais e me mandaria embora? Com meu nervosismo já presente, esses pensamentos não chegavam a surpreender, mas representavam um obstáculo difícil de transpor.

Depois dos 20 anos, descobri que não dá mais para evitar o papanicolau. Mas, por mais que eu seja cuidadosa com minha saúde, o medo pairava sobre minha cabeça como uma nuvem negra. Eu sabia que não poderia fazer um papanicolau, já que não suportava qualquer tipo de penetração, nem sequer a inserção de um espéculo. Assisti uma vez a uma entrevista sobre o lançamento de um novo espéculo; o vídeo foi feito para acalmar os receios das mulheres que hesitavam em fazer o exame. A mulher filmada dizia em tom alegre que “o espéculo praticamente desliza para dentro da vagina. E pronto! Se você consegue lidar com um pênis, não terá problema nenhum com o espéculo.”

Eu não conseguia lidar bem nem sequer com um absorvente interno.

Mas qual seria a alternativa? Continuar a me angustiar pensando no cheiro e aparência de minha vagina até perder o prazo marcado para meu primeiro papanicolau, e com isso me colocar em situação de risco? Depois de muito refletir, resolvi encarar e marquei minha primeira consulta. Uma consulta que acabou transformando minha vida. Depois de conversar com a médica sobre meu vaginismo, não foi apenas como se um peso de 50 toneladas tivesse sido levantado de minha cabeça – foi também uma história cautelar. Os sintomas se manifestam de modo semelhante aos da clamídia e gonorreia, e a desordem não é um problema exclusivo de virgens.

As aulas de educação sexual não ensinam as meninas a cuidar da saúde de seus órgãos reprodutivos. Queimação, sangramento, coceira e dor surda não são normais, mas disfarçamos, como se fossem.

As aulas de educação sexual não ensinam as meninas a cuidar da saúde de seus órgãos reprodutivos. Queimação, sangramento, coceira e dor surda não são normais, mas disfarçamos, como se fossem. Minha consulta com a médica foi a primeira lufada de ar fresco que eu tinha inspirado em muito tempo. Poder falar francamente com a médica sobre minha história de saúde e sexual, estar em controle o tempo todo durante o exame interno, até o fato de a médica me abraçar no final para me tranquilizar... francamente, foi uma das experiências mais empoderadoras de minha vida. Mesmo assim, saí desanimada por pensar que há milhares de pessoas como eu apenas no Reino Unido que não vivenciam esse mesmo nível de empoderamento.

Uma em cada 13 mulheres no Reino Unido sofre de vaginismo e dispareunia, e aposto que a maioria delas não tinha ideia até se aventurar a pesquisar na internet, depois de passar anos sentindo dor. Uma em cada 13 em exatamente a mesma situação que eu, tendo que aprender sobre seu problema com a ajuda de um motor de buscas. Sem interação humana, sem uma pessoa para ouvi-la com empatia, sem ninguém para lhe tranquilizar. No caso dos meninos, quando lhes ensinamos sobre disfunção erétil, nos dizem que é uma ocorrência comum e que não é nada do qual se envergonhar. Mas quando se trata da saúde do sistema reprodutivo da mulher, somos condicionadas a simplesmente suportar os problemas caladas.

Nada vai mudar se continuarmos a manter silêncio sobre essa questão. A educação sexual ainda é um ponto cego da desigualdade de gênero, mas isso não justifica que se passe inteiramente por cima da realidade. Se ensinarmos às meninas desde a pré-adolescência como são comuns as infecções e desordens vaginais –como os exames médicos são indolores e eficientes e como os problemas são tratáveis―, teremos uma chance muito maior de criar uma geração de mulheres verdadeiramente sexopositivas.

Muitas mulheres terão acesso adequado ao papanicolau e sentirão confiança no exame. Mais mulheres com problemas poderão se comunicar com um discurso aberto. E, o que é o mais importante, pessoas como eu passarão a ver sua vagina não como uma inimiga esquiva, mas como amiga firme e forte.

Hannah Van-de-Peer é estudante e jornalista.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.