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05/07/2020 08:00 -03 | Atualizado 05/07/2020 08:00 -03

'Não posso pensar que serei cobaia. Faz parte do meu dever', diz voluntário em teste de vacina contra covid

O médico Thiago Lopes, um dos 5.000 brasileiros que devem receber doses da vacina em fase de testes, diz sentir medo, mas afirma que a esperança de uma resposta eficaz contra o coronavírus vale o esforço.

Há poucos dias, o médico carioca Thiago Lopes, de 36 anos, se candidatou para um desafio que talvez se torne o maior de sua carreira como profissional da saúde – e também de sua vida. Ele se inscreveu e passou por uma triagem para ser um dos 5.000 voluntários brasileiros que participarão dos testes com a vacina contra o novo coronavírusdesenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Tem colegas que dizem que eu sou maluco, que serei uma cobaia”, disse o médico, que trabalha como anestesista, em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil. Mesmo diante de opiniões como estas, Lopes, que viu de perto como a doença que já matou mais de 62 mil brasileiros age, diz que sente medo, mas que quer ajudar a solucionar um problema que, no momento, parece não ter saída.

Os testes da vacina de Oxford no Brasil são realizados em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e com participação da Rede D’Or São Luiz e do Instituto D’Or (IDOR).

A principal motivação de Lopes para se candidatar como voluntário para o estudo veio do que ele vivenciou durante o trabalho na Fiocruz como intensivista por um curto período durante a pandemia. Lá, ele teve contato com os impactos da doença não só entre os pacientes, mas em quem precisa garantir o atendimento adequado a eles.

Arquivo Pessoal
Thiago Lopes (ao centro), trabalhou como intensivista na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Rio de Janeiro diante da covid-19.

“Desde o início da pandemia, existe uma crítica de pessoas em geral e de alguns profissionais de que só se divulgam ‘questões negativas’ em relação à doença. E eu achava que não teria grandes proporções, sabe?”, diz o médico anestesista.

“Trabalhar por um período na Fiocruz aqui do Rio como intensivista me deu uma noção de realidade e da gravidade da doença. É um sofrimento muito grande. E é isso: praticamente todos os profissionais de saúde foram contaminados. Mesmo com a paramentação, o risco de contaminação é muito alto.”

Lopes trabalha regularmente em dois hospitais da rede pública no Rio de Janeiro: no Hospital Alberto Torres, em São Gonçalo, e no Hospital Azevedo Lima, em Niterói, que recebem casos de covid-19. Ele conta que, há quatro meses, sua rotina como profissional da saúde foi alterada.

“Temos uma sala para nos paramentar, outra para desparamentar, e é preciso todo um cuidado na hora do descarte, para que os profissionais da limpeza não sejam contaminados”, diz. Como anestesista, ele é convocado para ajudar a entubar pacientes, por exemplo, e participa de cirurgias em pessoas contaminadas pelo vírus.

Não posso pensar que serei uma ‘cobaia’. Eu vi pessoas morrerem por causa da doença, não só pacientes, mas pessoas do meu convívioThiago Lopes, médico anestesista que se voluntariou para tomar a vacina

A vacina ainda está em fase de testes e é a grande esperança, não só da classe médica e científica, mas também de grande parte da população mundial para frear o número de mortes, de casos e dar fim ao isolamento social. Lopes, que é exposto ao vírus diariamente, acredita que participar dos testes do imunizante no País faz parte de seu “dever”.

“Não posso pensar que serei ‘cobaia’. Eu vi pessoas morrerem por causa da doença, não só pacientes, mas pessoas do meu convívio. Muita gente perdeu emprego, tudo mudou por conta do vírus. Estamos vivendo um momento muito difícil. Eu preciso focar nisso. Sou um profissional de saúde, estou exposto ao vírus diariamente e atendo o perfil de voluntário. Então, por que não? Eu acredito que isso faz parte do meu dever. Se eu puder fazer algo para contribuir de alguma forma para acabar com esse sofrimento, vou fazer”, diz. 

Exames, isolamento, exposição: como fazer parte da pesquisa

O médico iniciou seu processo no último dia 1º de julho. Assim que foi chamado, passou por uma triagem e recebeu orientações de como seria o processo dali em diante. Além disso, foram realizados exames de sorologia e testes clínicos para comprovar que ele não havia sido infectado pela covid-19 até aquele momento e que não desenvolvera anticorpos contra a doença.  

Após passar pelo processo inicial, o voluntário fica em um período de quarentena, que varia de 72h a uma semana, para aguardar o resultado do teste. Caso o resultado seja positivo para a covid-19, será automaticamente descartado do estudo. 

Isso acontece porque os voluntários não podem ter contraído a covid-19 anteriormente. Também é recomendado que eles estejam na linha de frente do combate à doença, uma vez que estão mais expostos à contaminação. Esses critérios e a realização dos testes no Brasil, hoje um epicentro da pandemia, buscam comprovar rapidamente a eficácia da vacina.

Testes realizados em laboratório comprovaram que animais já infectados pelo vírus produziam anticorpos, mas, quando contaminados novamente, apresentavam doença pulmonar ainda mais grave. 

“Casos de reinfecção são muito pouco relatados, mas existe o risco. Isso acontece também com a dengue hemorrágica, por exemplo. Mesmo em quem já teve dengue e apresentou anticorpos, caso pegue a doença novamente pode ter uma reação imunológica e agravar o quadro”, explica. 

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Todas as vacinas já disponíveis agem estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos para combater patógenos e tornar a pessoa imune.

Devido à alta disciplina e aos protocolos rígidos, mesmo trabalhando na linha de frente, Lopes não tinha se contaminado antes. “Desde março, eu fiz o teste três vezes e não testei positivo para a doença em nenhuma das vezes”, disse. 

Três dias após de passar pela triagem, no último sábado (4), ele tomou a dose da vacina. A partir de agora, ele terá que medir sua temperatura regularmente, e preencher um diário online para registrar todas as reações, além de passar por outras três consultas. A próxima será dentro de 28 dias, conforme o protocolo.  Um telefone de emergência caso haja complicações também é informado.

“Eu ainda não contei para o meu pai nem pra minha mãe [que foi selecionado]. Quando começou [a pandemia], por eles, eu teria parado de trabalhar, por exemplo”, conta Lopes, que não vê sua família há três meses. 

O estudo segue um protocolo chamado de “duplo cego” e “randomizado”, ou seja, parte do grupo recebe a vacina em teste contra a covid-19 e outra parte recebe um medicamento placebo, e a seleção é aleatória. Ele é realizado desta forma para que se observe, de forma imparcial, como será a resposta imunológica dos voluntários testados. Pesquisadores e imunizados só saberão quem recebeu ou aplicou quais substâncias ao final do processo.

“Quero poder tentar ajudar a conscientizar as pessoas e trazer um pouquinho de esperança. Porque, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, está todo mundo achando que a pandemia já acabou”, critica. “Quem trabalha em hospital está de cabelo em pé, pensando que daqui há 15 dias a gente vai passar pela mesma superlotação que aconteceu no início, em abril.”

Todas as vacinas já disponíveis agem estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos para combater patógenos e tornar a pessoa imune a doenças. Mas há diferentes formas de desenvolver essa tecnologia.

O modelo desenvolvido pela Universidade de Oxford usa uma versão enfraquecida do vírus, que causa o resfriado comum (adenovírus), contendo o material genético da proteína do Sars-CoV-2.  Ainda não se sabe quantas doses serão necessárias por indivíduo e se ela será sazonal, como a da gripe.

Minha expectativa é que, dentro de dois a três meses, a gente possa ter um resultado positivo [da vacina], que a gente possa se sentir mais esperançoso, que possa ter essa ‘luz no fim do túnel’Thiago Lopes, médico anestesista que se voluntariou para tomar a vacina

Lopes, além de médico, mantém uma conta no Instagram em que compartilha registros de viagens de férias. Segundo ele, devido aos plantões recorrentes, elas são planejadas com muita antecedência. “Precisei desmarcar a viagem de março e deixei de planejar outras. Eu acho que, emocionalmente, eu não estou preparado para pensar em viajar. Ela [a pandemia] veio pra mostrar que a gente precisa aprender a valorizar muita coisa no nosso dia a dia”, diz.

O médico conta que, em nenhum momento, os candidatos a tomar a vacina são orientados, por exemplo, a se expor ao vírus de forma a deixar de cumprir protocolos da OMS, como não usar máscaras ou EPIs. “Não muda nada. Você leva uma vida normal. Em nenhum momento você é orientado a se expor ao vírus. Você continua a se proteger da melhor forma possível”, conta. 

“O medo que eu sinto vem por saber dos riscos de tomar a vacina, porque eles existem. Mas valem a pena”, diz. “Minha expectativa é que, dentro de dois a três meses, a gente possa ter um resultado positivo [da vacina], que a gente possa se sentir mais esperançoso, que possa ter essa ‘luz no fim do túnel’.”

 

A produção e distribuição da vacina contra covid-19 no Brasil

 

Esperança mais promissora em um cenário cada vez mais crítico da pandemia do novo coronavírus, a vacina contra a covid-19 ainda enfrentará uma maratona até chegar aos brasileiros.

 

Em junho, o Ministério da Saúde anunciou um acordo de cooperação para a compra e transferência de tecnologia para produção de vacinas contra a covid-19 desenvolvidas pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca.

 

A previsão é de que o primeiro lote de vacinas, com 15,2 milhões de doses, chegue ao Brasil em dezembro, e mais 15,2 milhões em janeiro. O Brasil receberá o chamado IFA (ingrediente farmacêutico ativo), que será processado e envasado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

 

Num segundo momento, com a transferência de tecnologia, a Fiocruz, por meio do instituto Bio-Manguinhos, também produzirá a vacina.

 

Como ainda não foi concluída a pesquisa clínica sobre a vacina, o governo explicou em nota que o acordo começa com uma encomenda “em que o Brasil assume também os riscos da pesquisa”. “Ou seja, [a farmacêutica] será paga pela tecnologia mesmo não tendo os resultados dos ensaios clínicos finais. Em uma segunda fase, caso a vacina se mostre eficaz e segura, será ampliada a compra”, diz o texto.

 

A primeira fase da compra, das 30,4 milhões de doses, custará US$ 127 milhões, com os custos de transferência da tecnologia e do processo produtivo da Fiocruz, estimados em US$ 30 milhões, incluídos.

 

Se os estudos clínicos forem satisfatórios e a vacina for considerada segura, uma segunda etapa prevê a compra de insumos e produção pela Fiocruz de mais 70 milhões de doses - com valor estimado em US$ 2,30 por dose -, totalizando 100 milhões de doses. A população brasileira é estimada em 210 milhões hoje.