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11/08/2020 09:32 -03 | Atualizado 11/08/2020 13:19 -03

Rússia diz ter aprovado 1ª vacina contra covid-19 após só 2 meses de testes

Governo do Paraná diz que está 'numa fase muito inicial das tratativas' para a compra da vacina; Governador Ratinho Júnior (PSD) se reunirá na 4ª com delegação russa.

ASSOCIATED PRESS
“Eu sei que ela funciona muito efetivamente, forma uma imunidade forte, e eu repito, ela passou por todas as checagens necessárias”, disse Vladimir Putin.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse nesta terça-feira (11) que o país tornou-se o primeiro do mundo a dar aprovação regulatória para uma vacina contra a covid-19 com menos de dois meses de testes em humanos, uma medida exaltada por Moscou como prova de sua coragem científica e reprovada pela comunidade científica.

Mesmo sob críticas da comunidade científica, o governo do Paraná disse nesta terça (11) que assinará um acordo com a Rússia para uma parceria sobre a vacina.

A aprovação russa abre caminho para a inoculação em massa da população russa, mesmo que o estágio avançado de ensaios clínicos para testar a eficácia e a segurança da vacina ainda não tenha sido concluído.

“Eu sei que ela funciona muito efetivamente, forma uma imunidade forte, e eu repito, ela passou por todas as checagens necessárias”, disse Putin, ao falar durante uma reunião de governo transmitida pela TV. Putin disse que a vacina, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, de Moscou, é segura e que ela foi aplicada em uma de suas filhas.

A velocidade com que a Rússia está disponibilizando sua vacina enfatiza a determinação do país em vencer a corrida global em busca de um imunizante efetivo, mas gerou preocupações de que o prestígio nacional esteja sendo colocado à frente de uma ciência sólida e segura.

A aprovação da vacina pelo Ministério da Saúde vem antes do início de um teste mais amplo com milhares de voluntários, conhecido como Fase 3 de ensaio clínico.

Esse teste, que exige que um certo percentual de participantes peguem o vírus para observar o efeito da vacina, é normalmente considerado um requisito necessário e essencial para uma vacina receber aprovação regulatória.

‘Especulação pura e simples’

Em entrevista ao HuffPost, a epidemiologista Cristiana Toscano, única brasileira no Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização da OMS (Organização Mundial da Saúde), disse ser “especulação pura e simples” os anúncios sobre a vacina feitos por Moscou.

“Existe um monitoramento global de todas vacinas candidatas sendo avaliadas, tanto estudo pré-clínico quanto clínico. Esse monitoramento é atualizado semanalmente. Essa vacina russa está lá. Inclusive é necessário um registro do ensaio clínico globalmente antes de ele iniciar, e ela está finalizando a fase 1”, afirmou. 

“Do ponto de vista do nosso grupo de trabalho, a gente absolutamente desconsidera qualquer uma dessas afirmações, porque a gente sabe que é impossível se realizar um estudo de fase 3 em um mês. Essa especulação traz insegurança, as pessoas ficam em dúvida. Isso é muito negativo”, criticou Toscano, completando que a vacina foi testada em 18 participantes.

O porta-voz da OMS Tarek Jasarevic disse, durante um briefing em Genebra, que a organização está discutindo com autoridades de saúde da Rússia o processo para uma possível pré-qualificação pela OMS da vacina. “Estamos em contato próximo com as autoridades de saúde russas e as discussões estão em andamento no que diz respeito à pré-qualificação a vacina. Mas, novamente, a pré-qualificação de qualquer vacina envolve análise e avaliação rigorosas de todos os dados de segurança e eficácia requeridos”, afirmou, se referindo aos ensaios clínicos.

Paraná 

O diretor-presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná, Jorge Callado, disse, em entrevista à GloboNews, que o estado está “numa fase muito inicial dessas tratativas”. “Para que tenha qualquer troca de informações, qualquer reunião mais avançada é necessária a assinatura do acordo entre o governo do Paraná e a Rússia, que está prevista para acontecer”, afirmou.

“Após esse ajuste com o governo da Rússia, as tratativas tecnológicas e científicas começam. É importante nos pautarmos por prudência, pautarmos por segurança, por transparência dentro desse processo. E também que a transferência de tecnologia esteja envolvida em todas essas etapas para que o Brasil venha a adquirir gradativamente uma autonomia na produção desses imunizantes.”

A Secretaria de Comunicação do governo do Paraná informou que o governador Ratinho Júnior (PSD) se reunirá na quarta-feira com uma delegação russa liderada pelo embaixador da Rússia no Brasil, mas não confirmou que o acordo para a vacina será assinado nessa ocasião.

Callado disse que o acordo do governo paranaense com a Rússia é um “começo” e que depende da realização dos estágios necessários.

″É algo muito preliminar, não existe compromisso de produção enquanto essas etapas não forem validadas, não forem consolidadas e não forem liberadas pela Anvisa, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. É um começo onde nós buscamos intercâmbio e informações”, afirmou.

Em nota, Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou nesta terça que “até o momento o laboratório russo responsável pelo desenvolvimento da vacina não apresentou nenhum pedido de autorização de protocolo de pesquisa ou de registro da vacina”. De acordo com a agência, também não há solicitação de qualquer entidade ou parceiro do imunizante russo.

‘Sputnik 5’

O chefe do fundo soberano da Rússia, Kirill Dmitriev, exaltou a aprovação como um “momento Sputnik” histórico, numa referência ao lançamento pela então União Soviética em 1957 do Sputnik 1, o primeiro satélite do mundo.

Ele disse que a vacina será comercializada globalmente com o nome de “Sputnik 5”. A imprensa estatal russa divulgou amplamente a notícia.

Profissionais de saúde russos que tratam de pacientes com covid-19 terão a chance de se voluntariarem para serem vacinados logo após a aprovação da vacina, disse uma fonte à Reuters no mês passado.

Mais de 100 possíveis vacinas contra a covid-19 estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo. Pelo menos quatro estão na Fase 3 de testes em humanos, de acordo com dados da OMS.