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23/09/2020 20:01 -03

Governo de SP não sabe como será vacinação com Coronavac se ela não for incorporada pelo Ministério da Saúde

Governador João Doria prometeu nesta semana que 46 milhões de habitantes do estado serão vacinados até fevereiro.

Não há uma definição no governo do estado de São Paulo de como será a estratégia de vacinação para covid-19 caso o imunizante em desenvolvimento pelo Instituto Butantan não seja incorporado pelo Ministério da Saúde. Nesta semana, o governador João Doria (PSDB) prometeu que os 46 milhões de habitantes do estado serão vacinado até fevereiro do ano que vem.

Ainda não há comprovação científica de uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus. No Brasil, estão em curso 4 testes clínicos na fase 3, quando a eficácia é testada. Um dos imunizantes testados é produzido pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Butantan e chamado de “Coronavac”, feito por meio do vírus inativo, uma técnica mais tradicional de produção de vacina

As outras candidatas a vacina são a desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica  Astrazeneca, além de iniciativas da Pfizer e da Johnson & Johnson. O Ministério da Saúde têm um acordo no valor de R$ 1,9 bilhão com a empresa britânica que prevê acesso a pelo menos 100 mil doses do imunizante.

Em geral, cabe ao Ministério da Saúde, dentro do Programa Nacional de Imunizações (PNI), definir a estratégia de vacinação para qualquer doença no País, o que inclui decisões sobre grupos prioritários, número de doses e o calendário de distribuição.

Embora integrantes do governo paulista estejam em diálogo com a pasta nos últimos meses, ainda não foi formalizado um acordo para que a Coronavac seja distribuída nacionalmente, caso se prove segura e eficaz.

Paralelamente, há uma politização do tema a dois meses das eleições municipais. O presidente Jair Bolsonaro afirmou em 31 de agosto que “ninguém pode obrigar ninguém  a tomar vacina”. 

Já na última segunda-feira (21), o  governador de São Paulo fez mais uma promessa. “Aos brasileiros de São Paulo, garanto que teremos a vacina para atender a totalidade da população já no final deste ano e ao longo dos dois primeiros meses de 2021. Temos que, evidentemente, terminar esta terceira fase de testagem e esperamos que tudo ocorra bem”, disse em coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes. 

Nesta quarta, Doria afirmou que profissionais da saúde serão os primeiros a serem vacinados. Pessoas do grupo de risco, agentes de segurança, profissionais da educação e a população indígena também fariam parte do grupo prioritário, de acordo com informações do governo estadual divulgadas em coletiva de imprensa. 

Amanda Perobelli / Reuters
“Aos brasileiros de São Paulo, garanto que teremos a vacina para atender a totalidade da população já no final deste ano e ao longo dos dois primeiros meses de 2021", prometeu João Doria.

O HuffPost Brasil apurou que se sabe como será a estratégia de imunização se a vacina não for incorporada ao SUS e estiver disponível apenas para paulistas, conforme a promessa do governador.

Em nota enviada, a Secretaria de Saúde estadual respondeu que “o Estado tem total compromisso com o planejamento de aquisição, logística e ações de vacinação contra COVID-19 tão logo haja imunizante disponível e definição de cronogramas e população-alvo, baseado em protocolos técnicas e normas estabelecidas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações).”

De acordo com o texto, “a pasta estadual tem expertise de mais de cinco décadas do programa de vacinação, pioneiro no Brasil, sempre prezando pela proteção e segurança da população e seguindo protocolos de saúde nacionais e internacionais”.

A secretaria informou que “adquiriu 21 milhões de seringas e agulhas para vacinações de rotina para 2020 e uma reserva estratégica de 11 milhões desses insumos para vacinação de COVID-19”. “A pasta também estuda os quantitativos e a qual a modalidade de compra mais vantajosa para as campanhas de imunização de 2021, que também incluiriam a da futura vacina de coronavírus”, diz a nota.

A assessoria de imprensa do Butantan também foi questionada e direcionou o pedido para Secretaria de Saúde.

Amanda Perobelli / Reuters
Em geral, cabe ao Ministério da Saúde, dentro do Programa Nacional de Imunizações (PNI), definir a estratégia de vacinação para qualquer doença no Brasil.

Nesta quarta, o governo de São Paulo divulgou resultados preliminares de testes chineses da Coronavac. Doria afirmou que entre 50.027 voluntários na China, 94,7% não tiveram nenhuma reação adversa e outros 5,3% sentiram efeitos adversos de grau baixo, como dor no local da aplicação, febre moderada e perda de apetite. 

Ainda de acordo com o governador, entre voluntários idosos, cerca de 98% produziram anticorpos, o que ainda não significa que o imunizante seja eficaz, como explicou Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). “Para a gente falar de eficácia ou eficiência, temos que ver se essa resposta imunológica também é capaz de proteger, ou seja, de evitar a doença”, escreveu a especialista.

Segundo a pesquisadora, dizer que em dezembro poderia-se imunizar brasileiros com a CoronaVac é bastante precoce, principalmente quando esses dados muito mais parecem o que vimos na fase I/II, com uma soroconversão parecida de 90%”, alertou.

O Butantan coordena um estudo clínico no Brasil e estima que em outubro seja possível obter informações preliminares de constatação da eficácia. Se isso ocorrer, o instituto irá pedir à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) o registro do imunizante para que ele possa ser distribuído. 

Dos 9 mil voluntários previstos na pesquisa, 5.600 receberam a vacina ou o placebo até agora. Os testes serão ampliados para incluírem idosos, o que é um fator crucial para definição do grupo prioritário. 

Nesta quarta, a Anvisa anunciou que autorizou o aumento dos testes para  13.060 voluntários e inclusão dos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso na pesquisa. Ainda não há previsão de quanto o imunizante será testado em crianças e adolescentes no Brasil.

Quanto ao acesso à Coronavac, de acordo com o Butantan, as primeiras doses serão enviadas pela Sinovac em outubro, ainda sem a conclusão dos testes. A previsão é de que até fevereiro, o Brasil tenha acesso a 60 milhões doses. É provável que sejam necessárias duas doses da vacina. 

Inicialmente o acesso será por meio de unidades produzidas na China e enviadas ao Brasil. O acordo entre o Butantan e a Sinovac também prevê transferência de tecnologia para produção local do imunizante, mas há alguns entraves para que o Brasil tenha autonomia na produção.

A previsão é de que a fábrica que está sendo construída especificamente para produção da Coronavac só fique pronta em 2022. Ainda não está claro como será assegurado o acesso ao imunizante nesse meio tempo. O governador também anunciou nesta quarta que o Ministério da Saúde aprovou a liberação de R$ 80 milhões para a nova fábrica.

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