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18/10/2020 04:00 -03 | Atualizado 18/10/2020 04:00 -03

Guerra política e fake news sobre vacina de laboratório chinês ameaçam resposta à covid no Brasil

'Não interessa se é da China, a gente precisa da solução', afirma médico voluntário dos testes clínicos no Brasil da vacina criada pela Sinovac, farmacêutica chinesa.

“Eu ouvi gente me criticar e dizer ‘eu jamais tomaria algo da China, eles que criaram o vírus, tem chip dentro da vacina’. Tudo o que você imaginar eu já ouvi”, conta o médico gastroenterologista Gabriel Ravazzi, 31, primeiro voluntário no Distrito Federal a receber a dose da Coronavac, vacina criada pela farmacêutica chinesa Sinovac, que está sendo testada no País em parceria com o Instituto Butantan. 

Apesar de ser uma das principais candidatas na corrida contra o tempo para conter a covid-19, a vacina da Sinovac tem sido alvo de uma guerra política, que inclui fake news, desinformação e preconceito desde o início da crise sanitária.

Os obstáculos compreendem um embate entre o governo federal e o de São Paulo, comandado por João Doria (PSDB), um dos principais antagonistas do presidente Jair Bolsonaro. O estado de São Paulo assinou um acordo com a farmacêutica chinesa para receber os ativos da vacina, e Doria já prometeu iniciar a imunização de profissionais de saúde em dezembro. Segundo ele, os 46 milhões de habitantes do estado serão vacinados até fevereiro do ano que vem.

Desde que Doria anunciou o acordo com a Sinovac, Bolsonaro deu algumas declarações contra a vacina chinesa em teste. No fim de julho, ao comentar a parceria fechada com a AstraZeneca, cujo imunizante foi desenvolvido com a Universidade de Oxford, o presidente ironizou: “Pelo que tudo indica, vai dar certo e 100 milhões de unidades chegarão para nós. Não é daquele outro país não, tá ok, pessoal? É de Oxford aí.”

Nesta semana, o Ministério da Saúde apresentou um cronograma para vacinação contra a doença – que já matou mais de 150 mil brasileiros – levando em conta apenas a vacina da AstraZeneca. O anúncio gerou desconforto com secretários de Saúde de vários estados.

No entendimento dos membros do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), com esta postura, o governo federal está ignorando o imunizante que tem participação do Butantan.

 

Arquivo Pessoal
″Eu ouvi gente me criticar e dizer ‘eu jamais tomaria algo da china, eles que criaram o vírus, tem chip dentro da vacina’", diz o médico Gabriel Ravazzi.

Em carta enviada à pasta na última quinta (15), os secretários pediram que o governo se comprometa a adquirir a primeira vacina que for aprovada pela Anvisa e argumentam que a Coronavac pode ficar pronta antes da vacina de Oxford e da vacina obtida por meio do Covax (Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19), que foram as duas frentes anunciadas pelo governo. 

O conselho ainda solicita “a adoção das medidas necessárias e imediatas para incorporação ao programa nacional de imunização das vacinas para covid-19 produzidas pelo Instituto Butantan, em parceria com a empresa farmacêutica Sinovac”.

No mesmo dia, em coletiva de imprensa, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, afirmou que a compra da Coronavac não está descartada e que qualquer vacina contra a covid-19 que demonstre segurança e eficácia poderá fazer parte do PNI (Programa de Nacional de Imunizações).

Questionado pelo HuffPost, o Ministério da Saúde negou que haja preferência e reiterou a posição do secretário. Em nota, a pasta afirmou que “está em constante avaliação de novas possibilidades” e que ”o imunizante que ficar pronto primeiro – o que significa atender todos os critérios de segurança e eficácia exigidos pela Anvisa – será uma opção para aquisição.”

“Cabe dizer que a pasta já firmou duas parcerias – com AstraZeneca e Covax Facility – que somam a aquisição de 140 milhões de doses para a população brasileira. O Ministério ainda acompanha mais de 200 estudos que buscam a identificação de uma vacina contra a covid-19, com o objetivo de encontrar uma cura efetiva e segura para a doença. A intenção é disponibilizar aos brasileiros, tão cedo quanto possível, uma vacina eficaz, em quantidade e qualidade para atender a população”, diz o texto do ministério.

Fake News e seus efeitos 

Correntes nas redes sociais e em aplicativos de mensagem têm disseminado, de forma equivocada, por exemplo, que a vacina, por ser criada na China, teria um microchip em sua composição que permite controle externo a partir de antenas 5G, e que pessoas morreriam ao tomar.

No entendimento de especialistas e fontes ouvidas pelo HuffPost Brasil, a desinformação em relação às vacinas ainda em fase de testes pode gerar efeitos graves a longo prazo. Neste cenário, o desgaste entre ciência e política, se intensificado, pode atrapalhar a campanha nacional de distribuição do imunizante, além de prejudicar o entendimento da população sobre sua importância.

Reuters Photographer / Reuters
Enfermeira segura ativo da vacina chinesa Sinovac, no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

“Está havendo uma polarização em relação às vacinas. Em alguns momentos até parece que está se ‘partidarizando’ os imunizantes, por exemplo, ‘a vacina do Doria ou a vacina do Bolsonaro’. Isso à luz da ciência não tem relevância alguma”, afirma Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e membro do grupo Rede Análise Covid-19, composto por pesquisadores e cientistas brasileiros.

“Se já está sendo um problema agora, será um problema lá na frente também. O ministério [da Saúde] não tomou o controle da situação de urgência até agora, eu imagino que não vá tomar. Pode ser um ‘tiro no pé’ o governo deixar de utilizar uma das vacinas que pode ser aprovada contra a doença”, completa. 

O voluntário Gabriel Ravazzi vai na mesma linha: “Apontar o dedo para a China, causar essa briga, essa xenofobia, dizer que tudo o que vem de lá não é bom é muito prejudicial”. “Não interessa se é da China, a gente precisa da solução.”

O médico disse que, no início da pandemia estava trabalhando na linha de frente em dois hospitais – Hospital Universitário de Brasília e Hospital de Base de Brasília –, e viu “muito de perto o que acontece”. “Hoje, a cada dia que passa, penso que estamos mais perto da vacina, mais perto de conseguir aquilo que pode ser a solução para esse problema que estamos vivendo hoje.”

A Coronavac é feita com a inativação do novo coronavírus, uma forma tradicional de produzir vacinas. Durante os testes, duas doses são aplicadas. Um grupo recebe a candidata à vacina para covid-19 e o outro, um placebo. A metodologia do estudo é duplo-cego, um método que também é comum.

“Nem o participante sabe o produto que recebeu, nem a equipe que administrou e nem a equipe que vai monitorar eventualmente se a pessoa tem uma reação. A ideia é que os resultados fiquem da maneira mais segura possível na interpretação, sem nenhuma tendência favorecendo a vacina. É uma maneira de provar a tese de que a vacina de fato funciona”, afirma Gustavo Romero, pesquisador da UnB e coordenador da pesquisa em Brasília.

Ainda não há comprovação científica de uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus. No Brasil, estão em curso 4 testes clínicos na fase 3, quando a eficácia é testada. Além da vacina da Sinovac e da de Oxford, estão em teste no Brasil os imunizantes da Pfizer e da Johnson & Johnson. 

Doria, Bolsonaro e a corrida pelo imunizante da covid-19

Embora integrantes do governo paulista estejam em diálogo com o Ministério da Saúde nos últimos meses, ainda não foi formalizado um acordo para que a Coronavac seja distribuída nacionalmente, caso se prove segura e eficaz. Fontes ouvidas pelo HuffPost afirmam que esta demora já incomodava os secretários, o que foi potencializado quando o calendário do ministério foi anunciado por Pazuello.

Em geral, cabe ao Ministério da Saúde, dentro do PNI, definir a estratégia de vacinação para qualquer doença no País, o que inclui decisões sobre grupos prioritários, número de doses e o calendário de distribuição em todos os estados, em coordenação com as secretarias estaduais de Saúde.

Amanda Perobelli / Reuters
O governador do estado de São Paulo, João Doria, segura uma caixa da vacina potencial do coronavírus Sinovac em coletiva de imprensa no mês de julho.

“As vacinas não estão sendo tratadas de forma republicana pelo Ministério da Saúde”, disse o secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, ao jornal Folha de S. Paulo, após o ministério anunciar o calendário, sem citar a Coronavac. “A vacina de São Paulo está sendo ignorada”, completou.

Paralelamente a este desconforto, há uma politização do tema a pouco menos de um mês das eleições municipais. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar em 31 de agosto que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. 

O governo de São Paulo vem fazendo movimentos para tentar negociar para que a Coronavac receba verba federal e seja distribuída pelo SUS (Sistema Único de Saúde), caso tenha sua eficácia comprovada na terceira fase de testes, ainda em curso no País. Segundo o HuffPost apurou, cerca de 8 mil voluntários já receberam ao menos uma das duas doses da vacina nos 12 centros de pesquisa distribuídos pelo Brasil até o momento. 

A meta é vacinar 13 mil voluntários até o final do estudo, previsto para julho de 2021. No final de setembro, outros 4 cidades foram autorizadas pela Anvisa para participar do estudo no País: Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Pelotas (RS) e Barretos (SP).

Em coletiva de imprensa na sexta (16), Doria afirmou que, na próxima semana, encontrará com representantes da Anvisa e do Ministério da Saúde e os dados iniciais da fase 3 serão entregues. Segundo ele, a reunião acontecerá no próximo dia 21 e será decisiva.

Doria afirmou a jornalistas que, por parte de São Paulo, “não haverá politização em relação à vacina” e que espera a mesma postura de Bolsonaro. Ambos protagonizaram embates públicos no início da crise sanitária, e a postura do governador de São Paulo é visto como aceno à candidatura em 2022.

“Não é razoável imaginar que o governo vá colocar ideologia ou visão partidária ou eleitoral acima daquilo que salva vidas”, disse.

Doria também chegou a afirmar que pretende tornar a vacinação contra covid-19 obrigatória no estado. Em fevereiro deste ano, Bolsonaro sancionou uma lei que prevê a possibilidade de realização compulsória da imunização na população.

Em seguida, o presidente, no fim da noite desta sexta-feira (16), sem citar  nomes, publicou imagem de publicação que fez à época da sanção. Ele destacou que a vacinação seria realizada “sem açodamento, no momento oportuno” e “sem impor ou tornar a vacinação obrigatória.”

Além da negociação com o governo federal, Doria já disse em outras ocasiões que tem se encontrado com representantes de outros estados e que, caso o governo federal opte por não fazer a compra do imunizante, não descarta a tentativa de negociar diretamente com outros estados a compra da vacina. 

“O que São Paulo deseja é compartilhar a vacina brasileira do Butantan juntamente com o laboratório Sinovac para que outros estados brasileiros possam também vacinar seus habitantes. São Paulo vai vacinar, já garanti que aqui os 45 milhões de brasileiros serão vacinados”, disse o governador.

Porém, como vem noticiando o HuffPost, ainda não há uma definição no governo do estado de São Paulo de como será a estratégia de vacinação para covid-19 caso o imunizante em desenvolvimento pelo Instituto Butantan não seja incorporado pelo Ministério da Saúde.

Já a Anvisa informou ao HuffPost que já recebeu parte dos dados anteriores tanto da vacina Coronavac, quanto da de Oxford, mas ainda não recebeu todas as informações que permitem a avaliação completa de segurança e eficácia, 

A competência da Anvisa é para a avaliação da segurança e eficácia das vacinas. Ou seja, avaliar os critérios técnicos que possam embasar a autorização para que estas vacinas sejam utilizadas no Brasil”, disse o órgão.

Devido à urgência do momento, a agência está realizando esse processo por meio da submissão contínua, ou seja, as informações são avaliadas conforme se tornam disponíveis, não apenas no momento de um pedido formal.

Segundo a agência, nesse processo, o prazo da agência é de 20 dias para avaliação de cada “pacote de informação” recebido e de 60 dias para análise dos pedidos de registro. No geral, estes pedidos são feitos apenas ao final dos testes. Porém, devido à pandemia, podem ser emitidos com urgência.

A corrida contra o tempo versus eficácia necessária

No final de setembro, o Instituto Butantan disse que foram divulgados resultados de uma pesquisa com 50.027 voluntários da fase 3 na China, que demonstrou que a vacina é segura e não apresentou reações adversas.

O Butantan estima, ainda sem uma data exata, que neste mês seja possível obter informações preliminares de constatação da eficácia da vacina. Se isso ocorrer, o instituto irá pedir à Anvisa o registro do imunizante para que ele possa ser distribuído. 

SILVIO AVILA via Getty Images
Profissional de saúde e voluntária Fabiana Souza recebe vacina COVID-19 produzida pela empresa chinesa Sinovac Biotech no Hospital São Lucas, em Porto Alegre, em agosto de 2020.

As primeiras doses serão enviadas ao Brasil pela Sinovac ainda neste mês, mesmo sem a conclusão dos testes. A previsão é de que até fevereiro, o Brasil tenha acesso a 60 milhões doses, segundo a secretaria de Saúde de São Paulo. É provável que sejam necessárias duas doses da vacina. 

Não só devido aos entraves burocráticos e políticos, mas ao “tempo da ciência”, é precoce dizer que parte da população será imunizada já em dezembro deste ano, pondera a pesquisadora Mellanie Fontes-Dutra. 

“Se ele [o protocolo] é estipulado para levar um determinado tempo e cumprir certos requisitos, é assim que deve acontecer, porque foi aprovado dessa forma. Tudo isso que a gente está vendo, de algumas autoridades políticas tentarem interferir, é bastante delicado.”

Inicialmente o acesso será por meio de unidades produzidas na China e enviadas ao Brasil. O acordo entre o Butantan e a Sinovac também prevê transferência de tecnologia para produção local do imunizante, mas há alguns entraves para que o Brasil tenha autonomia na produção.

Toda essa crise, também política, aumenta a insegurança da população, que pode ficar hesitante em relação a tomar ou não a vacina quando ela estiver disponível. Não queremos que isso aconteçaMellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da UFRGS e membro do grupo Rede Análise Covid-19

Na avaliação de Dutra, a má condução tanto pelos governos estaduais, quanto federal, pode impactar na forma como a população adere ou não ao programa de vacinação que será estabelecido.

Apressar isso [o tempo do estudo], pode indicar que uma ou mais etapas estejam sendo flexibilizadas, reduzidas, e isso pode ter um impacto no resultado que é ter uma vacina segura, eficaz e que gere uma resposta interessante contra o vírus”, diz. “E toda essa crise, também política, aumenta a insegurança da população, que pode ficar hesitante em relação a tomar ou não a vacina quando ela estiver disponível. Não queremos que isso aconteça.”

A previsão é de que a fábrica que está sendo construída especificamente para produção da Coronavac só fique pronta em 2022. Ainda não está claro como será assegurado o acesso ao imunizante nesse meio tempo. Doria também anunciou nesta quarta que o Ministério da Saúde aprovou a liberação de R$ 80 milhões para a nova fábrica.

Questionada novamente pelo HuffPost, a secretaria de Saúde do Estado de São Paulo informou, por meio de nota, que até o momento “adquiriu 21 milhões de seringas e agulhas para vacinações de rotina para 2020 e uma reserva estratégica de 11 milhões desses insumos para vacinação de COVID-19”.

A secretaria ainda destacou que “o Estado tem total compromisso com o planejamento de aquisição, logística e ações de vacinação contra COVID-19 tão logo haja imunizante disponível e definição de cronogramas e população-alvo, baseado em protocolos técnicas e normas estabelecidas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações).”

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