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05/06/2019 11:02 -03 | Atualizado 05/06/2019 11:02 -03

Donald Trump e Boris Johnson: Reino Unido e Estados Unidos se preparam para o novo ‘relacionamento especial’

Um encontro de mentes e temperamentos com o qual o mundo vai ter de se acostumar?

Alguns anos atrás, em visita a Nova York, Boris Johnson estava rodeado de fotógrafos quando viu uma garotinha se aproximando.

Intrigada pela cena, ela parou, e Johnson a ouviu dizer: “Gente, é o Trump?”

Com a visita oficial de Donald Trump ao Reino Unido, sua semelhança com Johnson – física, política e de temperamento – é o novo elemento na longa história do chamado “relacionamento especial” entre os dois países.

Embora Trump seja formalmente hóspede da rainha e tenha reuniões com Theresa May, muitos suspeitam que ele também tenha um encontro privado com o homem considerado favorito para suceder May como primeiro-ministro.

Com o anúncio dramático da renúncia da premiê – ela não foi capaz de aprovar seu projeto para executar a saída do país da União Europeia ―, Johnson lidera as listas de apostas para suceder May em algumas semanas.

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Ele também é o predileto de Trump. O presidente americano elogiou Johnson copiosamente em uma “visita de trabalho” no ano passado. 

Ao lado de May em uma entrevista coletiva na casa de campo da premiê, ele afirmou que Johnson é “um cara muito talentoso”, por quem tem “muito respeito”. Poucos dias antes Johnson havia renunciado do ministério de May, protestando contra concessões que ela estaria fazendo em relação ao Brexit.

Na época, a quebra do protocolo diplomático por parte de Trump transformou o sorriso forçado de May em careta. “Fiquei triste ao saber que ele estava saindo do governo”, afirmou o presidente. “Estou dizendo apenas que acho que ele seria um ótimo primeiro-ministro. Acho que ele tem as características necessárias.”

Às vésperas de uma nova visita, Trump mais uma vez quebrou o protocolo, quase oferecendo apoio formal à candidatura de Johnson na disputa da liderança do Partido Conservador. “Na verdade eu estudei muito [o assunto]”, disse Trump ao jornal The Sun. “Acho que ele seria excelente. Não sei se ele será escolhido, mas ele é um cara muito bom.”

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Theresa May and Donald Trump

Trump e Johnson têm tanto em comum que não é difícil imaginar que os dois se deem muito bem. Também não é difícil entender como os dois possam ser confundidos. (O engano da menina não foi a única vez em que Johnson foi confundido com Trump naquela viagem: houve duas outras ocasiões.)

As semelhanças superficiais são óbvias, a começar pelo cabelo loiro – marca registrada de ambos. Ambos nasceram em Nova York (Trump no Queens, e Johnson, em Manhattan, onde seu pai estava estudando).

A dupla também é especialista em autopromoção e conhecida por usar a celebridade como arma política – algo que causa repulsa e fascínio em iguais medidas.

Andrew Gimson, autor da biografia Boris: The Rise of Boris Johnson(Boris: a ascensão de Boris Johnson, em tradução livre), afirma que o ex-prefeito de Londres e ex-ministro do exterior tem uma conexão única com Trump.

“Trump está onde está por um motivo: ele é um ótimo artista, sempre dá algum tipo de show. Boris também é artista, quer divertir as pessoas, ser interessante. Eles reconhecem que são parecidos nesse sentido”, diz Gimson.

“Outra conexão é que ambos se aproveitam do fato de irritar e de serem odiados por muita gente inteligente, metropolitana. Isso mostra aos seus apoiadores que eles estão fazendo alguma coisa certa. Irritar liberais hipócritas e arrogantes é meio que uma vingança para ambos.”

“Eles são disruptores anti-establishment e gostam de chocar as pessoas que acham que a política deve ser solene, que as coisas não possam ser anunciadas em tweets. Trump e Boris não são nada sem sal.”

A arte de ambos também contém muito artifício. Trump gosta de usar a imagem de reality show do empresário bem sucedido, apesar de muitos de seus empreendimentos serem fracassos retumbantes.

Johnson também passou anos cultivando a persona pública de um inocente desastrado e dado a gafes – quando na realidade ele é uma pessoa extremamente ambiciosa e competitiva.

Esse papel, que começou quando ele estudava na Universidade de Oxford, o aproximou de ativistas do Partido Conservador. Eles consideram Johnson um dos raros políticos capazes de fazê-los sorrir. Sua mania de passar a mão na cabeça para desajeitar o cabelo é tão parte de sua marca registrada quanto suas piadas picantes e sua extravagância retórica.

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Boris Johnson e o clássico gesto de despentear o cabelo.

Mas quem o acompanha há alguns anos sabe que isso tudo é só performance. Sonia Purnell, autora de outra biografia, Just Boris: A Tale of Blond Ambition   (apenas Boris, uma história de ambição loira, em tradução livre), trabalhou com Johnson quando ambos eram jornalistas em Bruxelas, nos anos 1990.

“Ele é um ótimo ator, um showman. A coisa de mexer no cabelo é só para garantir que ele não pareça ambicioso. As ‘gafes’ na verdade não eram gafes, eram todas planejadas”, diz Purnell.

Em 2007, durante uma conferência do Partido Conservador, Arnold Schwarzenegger, palestrante convidado, estava esperando para subir ao palco enquanto Johnson discursava. “Ele está se enrolando todo”, disse o ator de Hollywood, em voz baixa. O comentário foi captado pelos microfones.

Como observa Purnell, Schwarzenegger foi apenas mais uma vítima do conto de Johnson. “Essa confusão estava escrita nos discurso”, diz a autora. “Era tudo cuidadosamente ensaiado, e ele se enrolaria exatamente da mesma maneira no dia seguinte, para outro público.”

Um ano depois, Johnson usou o episódio a seu favor, afirmando: “Foi um ponto baixo, meus amigos, ver meu estilo sendo denunciado por um ciborgue austríaco e monossilábico”. O público veio abaixo.

Mas o desejo de Johnson de ser engraçado ou provocador às vezes cobra seu preço. As colunas que ele escrevia quando era jornalista provocavam a ira dos críticos – e muitas delas continham insinuações racistas.

Em uma delas, publicada no jornal Daily Telegraph, ele fez piada com crianças africanas que saudaram a rainha. Johnson também escreveu que rebeldes congoleses sorriram ao ver “seu grande chefe branco pousando com seu pássaro branco pago pelos contribuintes britânicos”, numa referência ao ex-premiê Tony Blair. Johnson se desculpou, e seus amigos afirmam que sua ironia e seu sarcasmo às vezes são levados a sério demais.

Dizer que “era tudo piada” também é um recurso muito usado por Trump, especialmente quando suas declarações causam indignação.

De proclamar seu “amor” pelo Wikileaks na campanha presidencial aos elogios à brutalidade da polícia americana e à declaração desta semana segundo a qual ele gostaria de permanecer no cargo por “pelo menos 10 ou 14 anos”, o presidente e seus porta-vozes justificam tudo dizendo que ele não estava falando sério.

Não há dúvidas de que Johnson e Trump adorem causar comoção. Ser politicamente incorreto é uma arma usada para inflamar a onda populista que colocou ambos em primeiro plano. No caso de Trump, ele chegou à presidência dos Estados Unidos; no de Johnson, ele foi um dos líderes do movimento que levou à vitória do Brexit no plebiscito de 2016.

A disposição de ser rude com os adversários, incluindo as grandes empresas, é outra marca registrada da dupla. Enquanto o presidente americano ignora o medo das grandes corporações em relação à guerra comercial com a China, seu amigo britânico explora uma aparente desconexão entre o “trabalhador” e aqueles temem que suas propostas causem o caos econômico no Reino Unido.

Em uma recepção privada para celebrar o aniversário da rainha, Johnson foi questionado sobre o temor dos trabalhadores a respeito do impacto do Brexit nos setores automobilístico e aeroespacial. “Fodam-se os negócios”, respondeu ele. Desde então, seus adversários vêm tentando colar essa frase à sua imagem, inclusive na disputa atual pela liderança conservadora. Johnson, entretanto, parece envergar o comentário com orgulho.

Para Trump e Johnson, a regra parece ser a famosa frase de Oscar Wilde: “Só existe uma coisa pior que falarem de você: não falarem de você”. O narcisismo nem de longe é raro na política, mas a dupla o leva a níveis jamais vistos.

Brian Coleman, ex-presidente da London Fire Authority, diz que Johnson, quando era prefeito de Londres, não se interessava por detalhes e era obcecado por sua imagem pública, não por suas políticas – outro traço marcante de Trump.

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Barack Obama e o então premiê britânico, Gordon Brown, na reunião de cúpula do G20 de 2009.

Coleman lembra de uma reunião durante a cúpula do G20 de 2009, em Londres, quando Barack Obama foi recebido pelo então premiê britânico, Gordon Brown. “A polícia estava preocupada com manifestações violentas. Boris estava sendo informado dos preparativos com uma cara de completo desinteresse.”

“Aí disseram que, se as coisas saíssem do controle, Obama seria evacuado de barco pelo rio Tâmisa. De repente, Boris afirmou: ‘Sim, sim, mas quando apareço na TV para acalmar a nação?’ Isso na frente de altas autoridades policiais e antiterrorismo. Disseram para ele que isso provavelmente caberia ao primeiro-ministro.”

Gimson descobriu uma carta que o diretor da escola Eton escreveu para o pai de Johnson quando o ex-secretário era aluno da escola. “Acho que ele sinceramente acredita que é impertinente da nossa parte não considerá-lo uma exceção, alguém que deveria estar livre da rede de obrigações que une todos os outros”, reclamou o diretor.

Muito mais danosa é a percepção de que ambos não sejam simplesmente dissimulados como os outros políticos, mas sim mentirosos. As mentiras de Trump são tão bem documentadas que o The New York Times catalogou todas em 2017 - nos primeiros 40 dias no cargo, Trump disse pelo menos uma inverdade por dia.

A “grande mentira” de Johnson foi afirmar que o voto pela saída da UE representaria 350 milhões de libras mais por semana para o sistema de saúde britânico. Ele disse que o Reino Unido “enviava” essa soma para a União Europeia. A afirmação, postada no ônibus que ele usou durante a campanha pró-Brexit, agora é alvo de um processo por “má conduta em cargo público”.

Outras mentiras causaram duas demissões. Ele foi demitido do jornal The Times por inventar uma declaração quando era jornalista em Bruxelas.

Depois, ele foi afastado da liderança do Partido Conservador quando descobriu-se que ele mentira sobre um caso extraconjugal. Johnson descrevera os relatos dos tabloides como “uma pirâmide invertida de disparates”. Quando o líder conservador Michael Howard descobriu que Johnson tinha sido “menos que sincero”, o demitiu sumariamente.

Quando o assunto é mulher, as semelhanças com Trump são notáveis. Apesar de Johnson não ter assediado ou agredido nenhuma de suas parceiras, ele certamente é “sexualmente incontinente”, como disse um de seus ex-assessores. “Acho genuinamente irracional que os homens fiquem confinados a uma única mulher”, teria dito ele a Petronella Wyatt, a amante responsável pela sua expulsão da equipe de Howard.

Como Trump, Johnson não perdeu o apoio de sua base política quando foram reveladas suas infidelidades. O presidente americano, é claro, minimiza as escapadas de Johnson. “Bem, isso sempre importa, mas acho que certamente não é como 20 anos atrás, e certamente não é como 50 anos atrás. Acho que hoje em dia importa muito menos”, disse ele ao The Sun.

Trump nunca está à vontade perto de mulheres fortes, e um “amigão” como Johnson no cargo de premiê provavelmente agradaria a Trump.

Mas, quando se trata da sedução de seus colegas políticos, Johnson, como Trump, tem menos sucesso. Um dos motivos pelos quais ele saiu derrotado na escolha do líder do Partido Conservador em 2016 foi a falta de apoio dos colegas.

Estranhamente, no caso de Johnson uma das explicações é sua timidez. Purnell diz que ele tem dificuldade em demonstrar empatia em encontros individuais.

“Lembro de conversar com uma ex-assessora que tinha a função de levá-lo a vários lugares. Ela ficava agoniada, porque ele não falava uma palavra, o silêncio era constrangedor. Ela não era interessante para ele, não tinha poder, imagino”, afirmou a biógrafa.

“Outra mulher disse ter convidado Johnson para um jantar em sua casa, e ele ficou tão aterrorizado com a perspectiva de ter de conversar sozinho com a pessoa sentada ao seu lado que se ofereceu para fazer um discurso.”

“A diferença é que, quando ele está tentando levar uma mulher para a cama, ele é diferente. Aí ele te faz pensar que você é a única mulher do mundo. Imagino que ele vá tentar usar esse mesmo tipo de charme com Trump. Ele vai massagear o ego de Trump. Esse é um dos jeitos de conseguir chamar a atenção dele.”

Apesar das boas relações entre os dois países, Johnson sabe que teve de dar duro para ficar bem com o presidente americano. Quando foi confundido com Trump nas ruas de Nova York, ele ficou horrorizado, não lisonjeado. “Foi um dos meus piores momentos”, disse ele na época.

Em 2015, Johnson considerava o então pré-candidato republicano Trump um perigo real. “Estou genuinamente preocupado com ele na Presidência”, afirmou. Em dezembro daquele ano, Johnson criticou a afirmação de Trump de que era necessário proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos porque cidades como Londres e Paris tinham “áreas proibidas” e “tão radicalizadas que a polícia temia pela própria vida”.

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Trump com o vice-presidente Mike Pence na convenção do Partido Republicano, em 2016.

Johnson foi duríssimo. “Os comentários desinformados de Donald Trump são completamente sem sentido. Acho que ele demonstra uma ignorância estonteante, que o torna uma pessoa incapaz de ocupar o cargo de presidente dos Estados Unidos.”

“Acho que Donald Trump está claramente maluco se acha que essa é uma maneira sensata de proceder, proibir pessoas de entrar nos Estados Unidos ou em qualquer outro país.”

Para completar, ele afirmou: “A única razão pela qual eu não visitaria certas partes de Nova York é o risco de encontrar Donald Trump”.

Mas, quando ficou claro que Trump poderia de fato ser eleito presidente, Johnson rapidamemte mudou de opinião – e a dança do acasalamento começou para valer.

O Brexit representou algo em comum para a dupla. Trump estava fascinado com o loiro transatlântico, que fazia frente à audácia do radical Nigel Farage. 

As declarações de Johnson sobre Obama, que sugerira que o Reino Unido fora da UE voltaria para o “fim da fila” nas negociações comerciais com os Estados Unidos, foram transmitidas a Trump, bem como a sugestão praticamente racista de que o presidente “em parte queniano” tinha uma antipatia ancestral pelo império britânico”.

Quando tornou-se ministro do Exterior, em meados de 2016, Johnson logo começou os planos de como lidar com uma Casa Branca sob o comando de Trump.

Em novembro, quando Trump emergiu vitorioso, ele pediu um fim da “choramingação” sobre o presidente eleito e se recusou a participar de uma reunião de ministros do exterior na qual se discutiriam as preocupações com o presidente eleito.

Quando Angela Merkel deixou claro seu desapreço por Trump, Johnson deu os parabéns por Twitter e disse que estava “ansioso por começar a trabalhar com o novo governo na estabilidade e na prosperidade global”.

A recompensa veio na forma de uma reunião com a equipe de transição de Trump, na Trump Tower, em janeiro de 2017. Dela participaram Jared Kushner, genro e assessor-sênior do presidente, Steve Bannon, estrategista-chefe, e Steve Miller, autor dos discursos e também assessor de Trump.

Johnson tinha uma abertura com o novo governo americano antes mesmo da visita de May aos Estados Unidos, naquele mês. Quando Trump surpreendeu a premiê com o anúncio da proibição da entrada de cidadãos de certos países muçulmanos momentos antes da partida de May, Johnson usou seus novos contatos para tentar minimizar o impacto da notícia no Reino Unido.

Um ex-assessor afirmou que, depois de uma troca de mensagens de texto, Johnson recebeu um telefonema de Kushner, que confirmou que o decreto de Trump poderia ser “esclarecido” para não afetar britânicos como o atleta olímpico Sir Mo Farah. Não seria exatamente uma “isenção”, mas sim uma garantia oferecida a cidadãos de dupla nacionalidade.

Naquele mês, Johnson afirmou aos adversários do Partido Trabalhista que “demonizar” Trump seria contraprodutivo.

“A maioria das pessoas diria que isso na realidade mostrou as vantagens de ser próximo do governo Trump, as vantagens de ter um relacionamento que nos permite comunicar nossos argumentos e obter as proteções vitais e necessárias para os portadores de passaportes britânicos.”

Johnson teve menos sucesso nas tentativas de dissuadir Trump de sair do acordo do clima de Paris e do acordo sobre o programa nuclear iraniano

Mas, em julho daquele ano, ele não poupou elogios à Casa Branca pela ousadia de sua política externa, mais uma vez criticando o predecessor Obama.

“Quando você olha como os americanos responderam à crise da Síria, eles foram mais duros contra os russos que o governo Obama”, afirmou ele. “Na verdade, os americanos responderam ao massacre bárbaro de 4 de abril, quando até cem pessoas foram mortas num ataque com armas químicas, por ação cinética, o que o governo Obama não fez.”

Mesmo em relação à controversa questão da Rússia, Johnson foi generoso com Trump. “É adequado e correto que o presidente dos Estados Unidos mantenha qualquer tipo de relacionamento pessoal com o senhor Putin? Bem, eu acho que na verdade é, sim.”

O charme funcionou. Quando Trump foi à Assembleia Geral da ONU de 2017, Johnson foi um dos poucos amigos que ele tinha na cena internacional. Antes de discursar, Trump parou e cumprimentou o amigo calorosamente.

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Boris Johnson na Assembleia Geral da ONU de 2017.

Na primeira reunião daquele ano, Trump reconheceu as semelhanças com Johnson. O britânico depois brincaria num discurso na Austrália: “Ele disse, curiosamente, que era sempre confundido comigo, o que considerei um golpe baixo”.

Dado o encontro com a menina nas ruas de Nova York, não havia nada de “curioso” no comentário de Trump. Mas Johnson não resistiu à oportunidade de fazer uma piada autodepreciativa.

O relacionamento da dupla continuou no ano seguinte. Quando Johnson visitou os Estados Unidos em maio de 2018, tinha feito a lição de casa. Uma matéria da Fox News exibida semanas antes sugerira que Trump deveria receber o Nobel da Paz pelas negociações com a Coreia do Norte.

O britânico apareceu em programas da emissora, inclusive no Fox & Friends – o predileto de Trump ―, para declarar: “Se Trump consertar [a situação da] Coreia do Norte – e o acordo nuclear com o Irã ―, não vejo por que ele não seria tão candidato ao Nobel da Paz quanto Barack Obama.” 

O presidente americano certamente não “consertou” o acordo com os iranianos. Na realidade, ele se retirou do acordo, gerando temores de desestabilização no Oriente Médio que persistem até hoje. Foi um exemplo claro de como os elogios podem insuflar o ego de Trump, mas no fim das contas não são capazes de fazê-lo mudar de ideia.

Johnson estava cada vez mais frustrado com seus problemas domésticos – especificamente as negociações do Brexit. Em uma gravação de um jantar privado, ouve-se Johnson dizendo que “admira cada vez mais” o presidente americano, acrescentando que “você pode chegar a algum lugar” caso ele – e não May – lidere as discussões com Bruxelas. 

“Imagine Trump fazendo o Brexit... Ele entraria muito duro... Haveria todo tipo de colapso [nas negociações], todo tipo de caos. Todo mundo acharia que ele enlouqueceu. Mas na verdade talvez chegássemos a algum lugar. Estou cada vez mais convencido de que a loucura dele tem método.”

Apesar do desdém dos colegas pela aproximação com o presidente “maluco”, também havia método na aparente loucura de Johnson. Comparar May com Trump era uma maneira de persuadir os deputados conservadores de que ele também era contrário a um “Brexit suave”.

No começo de julho do ano passado, Johnson despejou mais elogios sobre Trump. “A abordagem de Trump em relação à política domina o imaginário mundial”, afirmou ele. “Ele está envolvendo as pessoas na política de maneira que não vemos há muito tempo, com seus tweets e todo o resto.”

Três dias depois, Johnson renunciou ao cargo de ministro do exterior. Na semana seguinte, quando Trump estava ao lado de May numa entrevista coletiva, o presidente americano parecia  encantado com os elogios recebidos de Johnson. “Ele está dizendo coisas muito boas sobre mim. Acha que estou fazendo um bom trabalho. Estou fazendo um bom trabalho.”

Johnson admira o fato de Trump definir objetivos claros e comprometer-se com eles, apesar de ele próprio não trabalhar assim, segundo relatos de funcionários do Ministério do Exterior.

O ex-prefeito de Londres está até mesmo aprendendo com o estilo pessoal de Trump. Durante anos, a população britânica estava acostumada a ver Johnson em ternos que não serviam direito, gravatas tortas e camisas para fora da calça. Nos últimos meses, ele cortou o cabelo, perdeu peso e passou a prestar mais atenção nas roupas que usa.

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Trump e Boris Johnson na Assembleia Geral da ONU de 2017.

Na primeira reunião daquele ano, Trump reconheceu as semelhanças com Johnson. O britânico depois brincaria num discurso na Austrália: “Ele disse, curiosamente, que era sempre confundido comigo, o que considerei um golpe baixo”.

Dado o encontro com a menina nas ruas de Nova York, não havia nada de “curioso” no comentário de Trump. Mas Johnson não resistiu à oportunidade de fazer uma piada autodepreciativa.

O relacionamento da dupla continuou no ano seguinte. Quando Johnson visitou os Estados Unidos em maio de 2018, tinha feito a lição de casa. Uma matéria da Fox News (https://www.foxnews.com/opinion/after-north-korea-triumph-trump-deserves-the-nobel-peace-prize-not-obama) exibida semanas antes sugerira que Trump deveria receber o Nobel da Paz pelas negociações com a Coreia do Norte.

O britânico apareceu em programas da emissora, inclusive no Fox & Friends – o predileto de Trump ―, para declarar: “Se Trump consertar [a situação da] Coreia do Norte – e o acordo nuclear com o Irã ―, não vejo por que ele não seria tão candidato ao Nobel da Paz quanto Barack Obama.”

O presidente americano certamente não “consertou” o acordo com os iranianos. Na realidade, ele se retirou do acordo, gerando temores de desestabilização no Oriente Médio que persistem até hoje. Foi um exemplo claro de como os elogios podem insuflar o ego de Trump, mas no fim das contas não são capazes de fazê-lo mudar de ideia.

Johnson estava cada vez mais frustrado com seus problemas domésticos – especificamente as negociações do Brexit. Em uma gravação de um jantar privado, ouve-se Johnson dizendo que “admira cada vez mais” o presidente americano, acrescentando que “você pode chegar a algum lugar” caso ele – e não May – lidere as discussões com Bruxelas.

“Imagine Trump fazendo o Brexit... Ele entraria muito duro... Haveria todo tipo de colapso [nas negociações], todo tipo de caos. Todo mundo acharia que ele enlouqueceu. Mas na verdade talvez chegássemos a algum lugar. Estou cada vez mais convencido de que a loucura dele tem método.”

Apesar do desdém dos colegas pela aproximação com o presidente “maluco”, também havia método na aparente loucura de Johnson. Comparar May com Trump era uma maneira de persuadir os deputados conservadores de que ele também era contrário a um “Brexit suave”.

No começo de julho do ano passado, Johnson despejou mais elogios sobre Trump. “A abordagem de Trump em relação à política domina o imaginário mundial”, afirmou ele. “Ele está envolvendo as pessoas na política de maneira que não vemos há muito tempo, com seus tweets e todo o resto.”

Três dias depois, Johnson renunciou ao cargo de ministro do exterior. Na semana seguinte, quando Trump estava ao lado de May numa entrevista coletiva, o presidente americano parecia  encantado com os elogios recebidos de Johnson. “Ele está dizendo coisas muito boas sobre mim. Acha que estou fazendo um bom trabalho. Estou fazendo um bom trabalho.”

Johnson admira o fato de Trump definir objetivos claros e comprometer-se com eles, apesar de ele próprio não trabalhar assim, segundo relatos de funcionários do Ministério do Exterior.

O ex-prefeito de Londres está até mesmo aprendendo com o estilo pessoal de Trump. Durante anos, a população britânica estava acostumada a ver Johnson em ternos que não serviam direito, gravatas tortas e camisas para fora da calça. Nos últimos meses, ele cortou o cabelo, perdeu peso e passou a prestar mais atenção nas roupas que usa.

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Boris Johnson e o ônibus usado na campanha do Brexit.

Existem grandes diferenças entre os dois, sem dúvida, principalmente no que diz respeito à educação e ao intelecto. Trump tem dificuldade de lembrar nomes de pessoas e lugares. Johnson tem uma memória afiadíssima e guarda na memória trechos inteiros de conversas ocorridas anos atrás.

Johnson recita cenas de certos filmes (Apocalypse Now é um de seus favoritos), canta em alemão e faz piadas em francês. Mas seu grande amor são os clássicos.

 “Boris tem um amor genuíno por literatura grega e latina e sabe muito de ambas”, disse o biógrafo Gimson. “Mas ele tem um gosto bem amplo, aprecia filmes de ação, coisas simples tanto quanto a alta cultura.”

“Boris também tem sentimentos genuínos a respeito do meio ambiente, ele é pró-bicicletas. Mas ele também é pró-carros velozes. É meio incomum gostar das duas coisas. Nós ciclistas achamos que os carros velozes vão nos matar, além de destruir o planeta.”

“A questão é que Boris é muito generoso com as pessoas, ele não as ignora. Ele é bastante tolerante, no geral. Ficaria chocado com algumas coisas que Trump diz, como a afirmação de que um juiz [Gonzalo Curiel] não poderia ser imparcial porque é mexicano. Acho que Boris não gostaria disso, e certamente não diria nada parecido.”

Em relação à imigração, Johnson se descreve como “o político britânico mais favorável à imigração”. Theresa May o criticou no passado por sua proposta de anistia para os imigrantes ilegais, algo que Trump jamais faria. Mas, durante o plebiscito do Brexit, ele não fez nada para negar a mentira de que David Cameron permitira que 70 milhões de turcos emigrassem para o Reino Unido.

O preço do sucesso de sua campanha pró-Brexit foi o aumento de sua rejeição. Um contingente muito maior do eleitorado não quer que ele chegue perto do poder. Antes ele era considerado só um palhaço, mas agora muitos britânicos o odeia. Um grafite que apareceu em Bristol durante a campanha do plebiscito previa um beijo na boca entre Trump e Johnson.

Para alguns, Johnson deixou para trás suas credenciais liberais. A descrição de mulheres que usam burcas como “caixas de correio” e “assaltantes de banco” foi uma provocação à la Trump. Quando ele disse que continuar na UE era o mesmo que vestir um “colete suicida”, Guto Harri, seu ex-chefe de comunicações na prefeitura de Londres, disse “basta”.

“Durante um período, Boris passou de celebridade a estadista [quando era prefeito de Londres]”, disse Harris. “Agora ele está caminhando na direção contrário, ficando mais tribal. Se ele virar [premiê], seria uma figura muito divisiva.” 

Talvez o maior obstáculo de Johnson dentro do partido seja a desconfiança de seus colegas em relação a seus motivos.

Parte disso se explica pelo fato de que ele acreditava na vitória do Brexit nas urnas. Harri acha que Johnson estava apenas interpretando um papel, na expectativa de chegar a Downing Street como o unificador dos conservadores. 

Assim como Trump era zebra na corrida pela Casa Branca, Johnson começou sua campanha pela saída da UE  achando que a derrota seria heroica. Sua expressão chocada e subjugada no dia seguinte à votação, parecendo um vencedor acidental, era inegável.

Ele confidenciou a amigos que tem um “profundo senso de responsabilidade” no que diz respeito a implementar o Brexit como primeiro-ministro. Apesar do silêncio nada característico desde a renúncia de May, acredita-se que uma de suas maiores cartadas na disputa interna do partido possa ser prometer aqueles 350 milhões de libras semanais para o sistema de saúde.

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Donald Trump e Nigel Farage.

Alguns defensores ferrenhos do Brexit não se conformam que Johnson tenha escrito duas colunas – uma a favor da UE e outra contra ―, antes de decidir pela publicação da que defendia o rompimento com a comunidade. Na mídia de extrema direita americana, e até mesmo na Fox News, o radical Nigel Farage tem sido descrito como “o cara”, não Johnson. 

Na semana passada, Trump elogiou o ex-secretário do exterior e também Farage, líder do novo Partido do Brexit, grande vencedor das eleições europeias no Reino Unido.

“Nigel Farage é meu amigo, Boris é meu amigo, são pessoas ótimas”, disse ele. “São dois caras muito bons, muito interessantes. E acho que são muito poderosos lá, fizeram um bom trabalho.”

Como sempre, Trump mantém todas as opções em aberto, especialmente agora com a possibilidade de Farage ter impacto real nas eleições gerais.

O desdenho de Trump por Michael Gove é outro lembrete de como os políticos britânicos podem rapidamente sair do radar do presidente. Gove foi o primeiro jornalista a entrevistar Trump depois do anúncio de sua vitória. A dupla posou para fotos, e Gove escreveu um artigo elogioso dizendo que “a inteligência pode tomar várias formas”.

Mas, depois de ser acusado por Gove de fazer provocações ao Irã, Trump reagiu com indignação. Questionado pelo The Sun se Gove estava entre os que tinham pedido seu apoio na disputa pela liderança conservadora, Trump afirmou: “Não, não estava”.

Outros acreditam que, se vier a ser premiê, Johnson vai rapidamente repetir os erros cometidos na prefeitura londrina e no Ministério do Exterior.

Ele estava tão despreparado para a vitória na eleição municipal que os primeiros meses de seu governo foram puro caos, com inúmeras demissões de assessores e secretários. Assim como aconteceu com Trump, a salvação veio com a nomeação de um chefe de gabinete experiente.

“Tem o charme e a vitória, depois tudo sai do controle”, diz Purnell. “Johnson é como as bolhas do champanhe. Ele deveria ser um ‘presidente do conselho de administração’, não o presidente encarregado do dia-a-dia. Mas ele não era nenhum dos dois. Morro de medo só de pensar no ministério dele, porque ele não sabe escolher pessoas.”

Mas talvez o maior ponto em comum entre Trump e Johnson seja o cansaço de seus adversários. Estão previstos protestos anti-Trump em Londres, mas eles não devem ser tão grandes quanto os do ano passado.

Igualmente, as objeções a Johnson vêm perdendo o ímpeto entre seus colegas deputados. Ele os venceu pelo cansaço.

Então Johnson e Trump podem ser os novos melhores amigos do cenário global. Para muitos críticos, o único “relacionamento especial” que eles têm é com seus respectivos egos.

Não vai demorar para que Johnson lembre todo mundo que ele é nova-iorquino, nem que só por nascimento. Ele recentemente abriu mão da cidadania americana para não ter de pagar impostos nos dois países.

Antes disso, porém, ele disse a David Letterman: “Acho que poderia ser presidente dos Estados Unidos. Tecnicamente, sabe?”

Tanto ele quanto Trump vão querer rir por último. Mas, para milhões de pessoas, a piada perdeu a graça.

 *Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.