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11/07/2020 17:12 -03 | Atualizado 13/07/2020 06:25 -03

Como as máscaras se tornaram o centro da disputa política nos EUA

Donald Trump e outros republicanos sempre rejeitaram a ideia de usar máscaras para combater o coronavírus. Agora, com o pico de casos, o discurso está começando a mudar.

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Donald Trump foi um dos críticos do uso da máscara nos Estados Unidos.

Quando a pandemia de coronavírus atingiu a Europa, o uso de máscaras foi o método escolhido e disseminado para evitar a propagação do vírus.

Na Espanha, os órgãos do governo distribuíram milhões de máscaras para os usuários do transporte público. O adereço facial também passou a ser comum na Alemanha. Em Berlim, por exemplo, pode ser encontrado em várias lojas e até em máquinas automáticas. Na França, onde o uso de máscaras é obrigatório em escolas, lojas e no transporte público desde maio, o presidente Emmanuel Macron foi elogiado por demonstrar que usar máscara para cuidar da saúde pública não significa abrir mão da elegância.

Tudo isso aconteceu sem que houvesse controvérsias significativas. De acordo com uma enquete do YouGov realizada em junho, o uso de máscaras aumentou para 79% na França e atingiu 86% na Espanha e 85% na Itália.

No entanto, esse não foi o caso nos Estados Unidos, onde as máscaras se tornaram o elemento central de uma guerra cultural bastante tensa. 

“Eu não acho que nada que eu tenha visto até hoje capture tão perfeitamente por que não tem jeito de os Estados Unidos saírem do topo do ranking da covid-19 no mundo.”

Vídeos publicados em redes sociais mostram clientes gritando e tratando os funcionários com desrespeito em lugares como um supermercado e uma cafeteria por causa da exigência do uso de máscara. Em Denver, clientes revoltados teriam tossido e cuspido nos funcionários de uma sorveteria. Já em Los Angeles, um restaurante mexicano fechou todas as filiais no domingo devido a “conflitos constantes com clientes que se recusavam a usar máscaras”.

Em Michigan, onde a orientação estadual é usar máscara em lugares públicos, o segurança de uma loja acabou levando um tiro fatal por não deixar uma cliente entrar no local sem o acessório.

Os políticos republicanos, especialmente o presidente Donald Trump, consideram o uso da máscara uma questão de liberdade individual e identidade política. 

“Eu não quero usar”, disse Trump em abril, quando o Centro de Controle e Prevenção de Doenças publicou novas orientações recomendando o uso de máscaras. “Acho que não combina comigo usar máscara para cumprimentar presidentes, primeiros-ministros, ditadores, reis e rainhas.”

No entanto, basta olhar para a Europa e o mundo todo para perceber que Trump é a minoria entre os líderes globais. Trump e, claro, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Trump fez piada com o rival democrata Joe Biden por usar máscara. Além disso, em uma entrevista para o The Wall Street Journal no mês passado, ele sugeriu que os americanos não estavam usando máscaras para se proteger contra o coronavírus, mas sim para indicar a oposição política a ele. 

Biden, por sua vez, disse que Trump era um “completo idiota” por não usar máscara em eventos públicos e que sua falta de liderança em face desse problema estava “custando vidas”.

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Joe Biden vestiu máscara preta no Memorial Day em 25 de maio.

Esse debate político também se estendeu aos estados. “Quem não quer usar máscara deve ter o direito de não usar”,  afirmou Mike Parson, governador republicano do Missouri, na quarta-feira.

Na Carolina do Norte, onde o governador democrata passou a exigir o uso de máscaras na semana passada, milhares de manifestantes sem máscara se reuniram na assembleia legislativa do estado para protestar contra a “tirania” da obrigatoriedade do acessório. Diversos delegados do estado afirmaram que não fariam cumprir essa exigência, e os legisladores republicanos chegaram a apresentar um projeto para tornar o uso de máscaras ilegal.

Tudo isso contribuiu para criar uma barreira entre as opiniões dos democratas e republicanos sobre o uso de máscaras. De acordo com uma pesquisa recente da Axios, a polarização partidária em relação às máscaras aumentou ainda mais. Agora, 65% dos democratas afirmam que sempre usariam máscara em lugares públicos, mas esse número cai para 35% entre os republicanos.

Entre os cientistas, existe um consenso cada vez maior de que a máscara ajuda a evitar a propagação do vírus. O CDC recomendou o uso de máscaras em abril e, no início de junho, a OMS (Organização Mundial da Saúde) também aconselhou o uso de máscaras em público sempre que o distanciamento social não for possível. 

Na terça-feira, o renomado infectologista Anthony Fauci afirmou a um comitê do Senado que “recomenda o uso de máscaras a todos” e que “as máscaras são extremamente importantes”.

Com o número de casos de coronavírus disparando em várias regiões dos Estados Unidos, muitos republicanos em cargos importantes lamentaram a demonização do adereço pelo Partido Republicano e até pediram a Trump que adotasse a máscara.

“Todo mundo tem que usar a porcaria da máscara”, esbravejou Marco Rubio, senador da Flórida, na semana passada.

A Flórida, que relatou mais de 6.500 novos casos de coronavírus na quarta-feira, é um dos epicentros da pandemia nos Estados Unidos.

“Não podemos estigmatizar o uso da máscara quando saímos de casa e nos aproximamos de outras pessoas”,  comentou Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, na segunda-feira. “Usar uma cobertura facial simples não serve só para nos proteger, mas também para proteger todas as pessoas que cruzam o nosso caminho”.

“Infelizmente, essa prática simples que pode salvar vidas passou a ser parte de um debate político. Então, quem está a favor de Trump não usa máscara, e quem é contra, usa”, analisou o senador Lamar Alexander, do Tennessee, na terça-feira.

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Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, utiliza máscara em audiência no Senado, em Washington, no final de junho.

Na quarta-feira, o número de casos da covid-19 nos Estados Unidos avançou para 50.000, a máxima diária até agora. Em uma declaração no Senado nesta semana, Anthony Fauci afirmou que o número de casos diários poderá chegar rapidamente a 100.000 se os estados não adotarem medidas mais drásticas para combater a propagação da doença.

Agora, os números alarmantes e as críticas de alguns republicanos importantes parecem finalmente ter convencido Trump.

“Não tenho problema com as máscaras”, afirmou o presidente na última asemana, em uma entrevista para a Fox Business. Ele afirmou que não considera que as máscaras deveriam ser obrigatórias, mas que “não tem nada contra” as pessoas que querem usá-las. “Quem se sente bem com esse acessório deve usar”, opinou.

O presidente ainda afirmou que usaria máscara: “Se eu estivesse em um lugar apertado com outras pessoas, usaria sim”.

No entanto, na mesma entrevista, Trump reiterou a ideia de que o coronavírus vai simplesmente “desaparecer”. 

*Este artigo foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.