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24/07/2019 18:03 -03 | Atualizado 24/07/2019 18:03 -03

O Show de Donald Trump e Boris Johnson: Reino Unido e EUA se preparam para 'relacionamento especial'

Muita expectativa sobre como será esse casamento. Será um loiro liderando o loiro? Ou um encontro de cabeças e temperamentos semelhantes que o mundo será obrigado a engolir?

Boris Johnson estava em Nova York alguns anos atrás, cercado por um grupo de fotógrafos tentando clicá-lo, quando viu uma garota andando em sua direção.

Fascinada pela cena, ela parou, e Johnson então a ouviu dizer algo que o deixou arrasado: “Uau, será que esse é Trump?”.

Em junho deste ano, no momento que Donald Trump iniciava sua visita de estado ao Reino Unido, suas semelhanças – física, política, de temperamento – com Boris Johnson passaram a constituir um elemento novo na longa história do chamado “relacionamento especial” entre os dois países.

Agora, com Boris Johnson como novo premiê do Reino Unido, sucedendo Theresa May, essa união se torna ainda mais robusta. 

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Ele já iniciou a corrida pelo cargo de primeiro-ministro como favorito de Trump. Durante a “visita de trabalho” que fez ao Reino Unido no ano passado, o presidente americano se rasgou em elogios a Johnson.

Postado ao lado de Theresa May numa coletiva de imprensa na casa de campo dela, a residência histórica de Chequers, Trump disse que Johnson é “um cara muito talentoso” por quem ele sentia “muito respeito”. Uma semana apenas antes disso Johnson abandonara o governo de May em protesto contra o plano dela para o brexit.

Na época, com Trump abandonando todo decoro diplomático, o sorriso forçado de May virou quase uma careta. “Fiquei muito triste ao ver que Johnson estava deixando o governo”, disse Trump. “Só estou dizendo que acho que ele daria um ótimo primeiro-ministro. Acho que ele possui as qualidades necessárias.”

Trump voltou a romper com o protocolo na véspera de outra visita ao Reino Unido; ele chegou perto de dar seu endosso oficial a Johnson na disputa para tornar-se o próximo líder do Partido Conservador. “Na verdade, já estudei esse assunto a fundo”, disse o presidente americano ao jornal “The Sun”. “Conheço os diferentes candidatos. Acho que ele (Johnson) seria excelente. Não sei se ele será o escolhido, mas eu o acho um sujeito muito bom.”

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Theresa May e Donald Trump

Trump e Johnson têm tanto em comum que não é difícil entender por que eles podem se dar muito bem, nem por que o público americano pode vir a confundir um com o outro. Vale mencionar que Johnson foi confundido com Trump não apenas naquela ocasião perto do Central Park, mas em três momentos daquela viagem.

As semelhanças superficiais entre eles são evidentes, a começar pelo fato de que ambos têm cabelo loiro quase cômico e que virou sua marca registrada. Ambos nasceram em Nova York: Trump em Queens e Johnson em Manhattan, onde seu pai estudava com uma bolsa de estudos Harkness.

Os dois compartilham um talento para a autopromoção e para converter sua celebridade em impacto político contundente de uma maneira que fascina as pessoas e provoca repulsa em medida quase igual.

Andrew Gimson, autor da biografia Boris: The Rise of Boris Johnson, diz que o ex-prefeito de Londres e ex-chanceler britânico tem uma conexão com Trump que poucos políticos britânicos conseguem alcançar.

“Há uma razão por que Trump chegou a onde está hoje: ele é um grande ator, está sempre montando algum tipo de show. Boris também é um ator; ele quer divertir as pessoas, quer ser interessante. Ele e Trump reconheceriam que são semelhantes nesse sentido”, diz Gimson.

“Outro ponto que eles têm em comum é que ambos se beneficiam quando são desprezados e quando irritam muitas pessoas cosmopolitas e inteligentes. Isso realmente mostra a seus seguidores que eles devem estar acertando alguma coisa. Para eles, irritar hipócritas liberais convencidos é uma espécie de vingança.

“Eles são agitadores antiestablishment; eles chocam os chamados adultos que pensam que a política deve ser feita de maneira muito solene, que nada de importante deveria ser anunciado no Twitter. Nem Boris nem Trump são entediantes.”

Também há um cálculo astuto por trás da representação deles. Trump aproveita e manipula a imagem construída de um empresário de sucesso, algo que apresentou na TV-realidade, apesar de muitos de seus empreendimentos comerciais terem virado fracassos de proporções épicas.

Boris Johnson, enquanto isso, passou anos burilando sua “persona” pública – a de um ingênuo desajeitado, descabelado e que tende a cometer gafes homéricas ―, sendo que na realidade ele é um indivíduo tremendamente ambicioso e competitivo.

Essa persona pública, que ele começou a criar em seus tempos de estudante em Oxford, lhe valeu o afeto de muitos ativistas do Partido Conservador, muitos dos quais acham que Johnson possui o dom raro de fazê-los rir. Seu gesto típico de desarrumar seu cabelo desgrenhado é tão conhecido quanto suas piadas politicamente incorretas e seu discurso bombástico.

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Boris Johnson em sua pose clássica de bagunçar seu próprio cabelo.

Mas as pessoas que acompanham sua trajetória há anos discernem até que ponto essa performance toda é fabricada. Sonia Purnell, autora de outra biografia, “Just Boris: A Tale of Blond Ambition”, trabalhou com Johnson quando ambos eram jornalistas em Bruxelas no início da década de 1990.

“Ele é um grande ator, é um showman”, comenta. “Essa história toda de ele desarrumar seu cabelo foi pensada para passar a impressão de que ele não é muito ambicioso. As supostas gafes na realidade não foram gafes – foram redigidas de antemão.”

Certa vez, durante a conferência do Partido Conservador em 2007, o orador convidado Arnold Schwarzenegger estava ouvindo Johnson discursar enquanto aguardava sua hora de subir ao palco. “Ele está se atrapalhando completamente”, comentou o ator de Hollywood em voz baixa, mas suas palavras foram captadas por um microfone.

Porém, como destaca Purnell, Arnie na realidade se deixou enganar pela representação de Boris Johnson. “As divagações estava previstas em seus discursos”, explica Purnell. “Foram ensaiadas com cuidado. No dia seguinte Boris faria exatamente as mesmas divagações aparentemente aleatórias, diante de outra plateia.”

Um ano mais tarde Johnson reforçou sua vantagem, declarando: “Meus amigos, foi um momento tenebroso quando tive meu estilo de oratória criticado por um ciborgue australiano monossilábico”. A plateia não conseguia parar de gargalhar.

Seu desejo de ser cômico ou provocante já prejudicou Johnson em várias ocasiões. Suas colunas anteriores como jornalista foram repudiadas por seus críticos, especialmente quando degringolaram em insultos racistas.

Em uma coluna publicada pelo Daily Telegraph, Johnson falou em tom de brincadeira sobre “criancinhas crioulas agitando bandeiras” que saúdam a Rainha no exterior, acrescentando que quando combatentes armados congoleses se reunissem com Tony Blair, todos “dariam sorrisos de melancia ao ver o grande chefe branco pousar em seu grande pássaro alado branco britânico financiado pelos contribuintes”. Johnson mais tarde pediu desculpas pelo que disse, mas seus amigos alegam que seu sarcasmo e ironia são levados demasiado a sério.

A defesa segundo a qual “eu estava apenas brincando” também é evocada com frequência por Trump, sempre que suas próprias declarações injuriosas e ultrajantes provocam reações negativas.

Desde dizer “amo o Wikileaks”, durante a campanha de 2016, até elogiar a brutalidade policial em 2017 e, no início de junho, dizer que gostaria de continuar no cargo por “pelo menos 10 ou 14 anos”, o presidente e seus porta-vozes sempre justificaram tudo dizendo que Trump não estava falando a sério.

Não há dúvida de que tanto Johnson quanto Trump se comprazem com sua capacidade de chocar os ouvintes. Ambos enxergam a incorreção política com arma para alimentar o avanço populista que os elevou a posições de destaque. No caso de Trump, esse avanço o levou a tornar-se presidente. No caso de Boris Johnson, o ajudou a liderar o levante do brexit em 2016.

Essa disposição de tratar seus adversários com aspereza, incluindo seus adversários do setor das grandes empresas, é uma das marcas registradas dos dois políticos. Enquanto Trump faz pouco caso dos temores de empresários americanos em relação a uma guerra comercial com a China, seu amigo britânico explora uma desconexão semelhante entre o “homem trabalhador” e aqueles que receiam que sua política leve o país ao caos econômico.

Numa recepção reservada para comemorar o aniversário da Rainha, Johnson foi perguntado sobre os temores dos empregadores de que a saída britânica da União Europeia possa levar à perda de empregos britânicos nas indústrias automotiva e da aviação. “Que se fodam as indústrias”, ele respondeu. Desde então seus adversários vêm tentando associar a frase a seu nome, algo que fizeram também durante a disputa pela liderança do Partido Conservador, mas Johnson parece ostentá-la com orgulho.

A regra que guia tanto Trump quanto Johnson parece ser a célebre máxima de Oscar Wilde segundo a qual “só existe uma coisa no mundo pior do que as pessoas falarem de você – é não falarem de você”. O narcisismo não chega a ser um traço raro entre políticos, mas Trump e Johnson o elevaram a um novo nível.

Brian Coleman, ex-presidente da Organização de Bombeiros de Londres, disse que quando Boris Johnson foi prefeito de Londres, demonstrava pouco interesse pelos detalhes práticos – outro traço classicamente trumpiano ―, sendo mais obcecado por sua própria imagem que pelas políticas públicas.

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Barack Obama e Gordon Brown na cúpula do G20 em 2009

Coleman recordou um briefing dado durante a cúpula do G20 em Londres em 2009, quando o presidente Obama estava presente e o anfitrião era o então premiê Gordon Brown. “A polícia estava muito preocupada com a possibilidade de tumultos provocados por manifestantes. Boris estava recebendo um briefing sobre o policiamento do evento e seu olhar era de indiferença. Ele não estava interessado no assunto.”

“Então lhe disseram que, se as coisas fugissem do controle, Obama seria evacuado por barco, pelo Tâmisa. De repente Boris se interessou: ‘Ok, sim, mas quando é que eu vou aparecer na televisão para tranquilizar a nação?’ Ele fez isso diante das altas autoridades policiais, da polícia antiterrorista. Lhe responderam com gentileza que, entre ele e o primeiro-ministro, o mais provável era que quem assumiria esse papel de tranquilizador seria o premiê.”

Seu biógrafo Andrew Gimson encontrou uma carta reveladora do diretor do colégio Eton, onde Johnson estudou, para o pai de Boris, quando este era aluno do colégio. “Acho que ele acredita honestamente que é desagradável de nossa parte não encará-lo como a exceção, alguém que deveria ser isento da teia de obrigações à qual todos os outros alunos se submetem”, queixou-se o diretor.

Algo que é muito mais prejudicial ainda do que esse narcisismo descarado é a percepção de que tanto Trump quanto Boris Johnson não apenas dissimulam, como outros políticos, mas mentem. As mentiras de Trump são tão fartamente documentadas que o New York Times elaborou uma lista de todas ditas em 2017 (Trump falou uma inverdade a cada dia nos primeiros 40 dias de sua presidência).

A “grande mentira” contada por Johnson foi que ele disse que o voto pelo brexit renderia ao Reino Unido £350 milhões (R$1,6 bilhão) a mais por semana em verbas para o NHS (o Serviço Nacional de Saúde britânico). Isso foi baseado na declaração falsa de que o Reino Unido “envia” esse valor à União Europeia. Exposta sobre seus ônibus da campanha Vote pelo Brexit, a afirmação levou Johnson a ser processado, acusado de “erro de conduta no exercício de um cargo público”.

As mentiras anteriores do ex-chanceler o levaram a sofrer duas demissões importantes em sua carreira.

Quando trabalhava em Bruxelas, Johnson foi demitido do jornal The Times por inventar uma citação.

Mais tarde, foi demitido do cargo de ministro do governo alternativo pelo então líder conservador Michael Howard por mentir sobre um caso extraconjugal que teve enquanto era casado. Johnson havia descrito os relatos dos tabloides como “uma pirâmide invertida de baboseiras”, mas quando Howard descobriu que ele havia sido “menos que sincero”, o demitiu sumariamente.

E no quesito mulheres, as semelhanças entre Trump e Johnson são notáveis. Embora Johnson nunca tenha assediado ou agredido nenhuma de suas companheiras, ele sofre de “incontinência sexual”, nas palavras de uma ex-assessora sua. Petronella Wyatt, cujo caso extraconjugal com Johnson levou Boris a ser afastado da equipe de Howard, contou que Johnson lhe disse certa vez: “Acho genuinamente ilógico que os homens sejam restritos a uma só mulher”.

Como Trump, suas infidelidades conjugais não afetaram sua base de partidários. Sobram histórias sobre “Boris pegador”, mas Trump minimiza as infidelidades de Johnson, algo que não chega a surpreender. O presidente americano disse ao The Sun: “Isso sempre tem importância, mas acho que certamente não é o mesmo que seria 20 anos atrás e com certeza não o que teria sido 50 anos atrás. Acho que hoje isso tem muito menos importância.”

Trump, que nunca se sente à vontade com mulheres poderosas, provavelmente vai preferir o ambiente de companheirismo machista que será possibilitado por Boris Johnson como premiê britânico.

Mas quando se trata de atrair seus colegas políticos, Johnson, como Trump, não é tão bem-sucedido. Uma das razões por que ele não conquistou a liderança conservadora em 2016 foi que não conseguiu o apoio de um número suficiente de colegas de partido.

Estranhamente, no caso de Johnson isso se deve em parte à sua timidez. Purnell disse que Boris tem dificuldade em sentir empatia com outros, de pessoa para pessoa.

“Me recordo de ter conversado certa vez com uma ex-assessora de Boris que tinha que conduzi-lo de carro para diversos lugares. Ela achava o trabalho altamente aflitivo porque ele não dizia uma palavra. Formavam-se silêncios longs. Acho que Boris não a considerava interessante, já que ela não era uma figura poderosa.”

Outra pessoa contou que convidou Boris para um jantar com outras pessoas em sua casa e ele ficou tão apavorado diante da perspectiva de ter que manter uma conversa individual com alguém que estivesse sentado a seu lado que ofereceu proferir um discurso para todos os presentes.

“A diferença é que quando ele está tentando levar uma mulher para a cama, ele entra em outro clima e faz você sentir que você é a única pessoa do mundo para ele. Podemos imaginar que é esse mesmo tipo de charme que ele vai tentar usar com Trump. Boris vai querer massagear o ego de Trump.”

Apesar das atuais relações cordiais entre eles, Johnson sabe que precisou se esforçar para se aproximar do presidente americano. Quando foi confundido com Trump nas ruas de Nova York alguns anos atrás, sua reação foi de horror, não de alegria. “Foi um dos piores momentos”, ele comentou na época.

Em 2015, Johnson encarou o candidato republicano como um perigo real. “Estou genuinamente preocupado com a possibilidade de ele se tornar presidente”, comentou. Em dezembro desse ano ele criticou a alegação de Trump de que era preciso proibir a entrada de muçulmanos nos EUA porque cidades como Londres e Paris tinham “áreas que não podem ser acessadas” que seriam “tão radicalizadas que os policiais temem por sua própria vida”.

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Trump e o candidato a vice-presidente na Convenção Republicana de 2016

A reação de Johnson foi de escárnio:

“Os comentários mal-informados de Donald Trump são baboseira total e absoluta. Acho que ele trai uma ignorância chocante que, francamente, o desmerece para ocupar a presidência dos Estados Unidos.

Acho que Donald Trump está evidentemente fora de si se pensa que essa é uma maneira sensata de agir – proibir pessoas de ingressarem nos EUA, ou em qualquer outro país, dessa maneira”. 

E, para não dar margem a dúvidas, acrescentou: “A única razão por que eu não visitaria certas partes de Nova York é o risco real de topar com Donald Trump”.

Mas quando ficou claro que Trump ia contrariar as expectativas e realmente chegar à presidência, Johnson mudou de tática. O processo de cortejar Trump começou para valer.

Foi o brexit que criou um elo entre Trump e Johnson. Trump ficou fascinado ao ver que o inglês loiro rivalizava até mesmo com Nigel Farage no quesito “discurso bombástico”.

A farpa lançada por Johnson contra Barack Obama por este ter sugerido que o Reino Unido, se saísse da União Europeia, “iria para o fim da fila” em negociações comerciais, foi repassada para Trump. O mesmo aconteceu com a sugestão quase racista de Boris Johnson de que o presidente americano “em parte queniano” nutria “uma aversão ancestral pelo império britânico”.

Quando Johnson se tornou chanceler do Reino Unido, no verão de 2016, começou imediatamente a estudar como relacionar-se com uma Casa Branca ocupada por Trump.

Em novembro desse ano, após a vitória eleitoral de Trump, Johnson pediu o fim do “chororô coletivo” em torno do presidente eleito e se recusou a comparecer a uma reunião de chanceleres da UE convocada para discutir preocupações suscitadas pela nova Casa Branca.

Enquanto Angela Merkel deixava claro seu desgosto com a vitória de Trump, Boris Johnson tuitou seus parabéns e disse que estava “antevendo com grande prazer trabalhar com a administração de Trump para promover a estabilidade e prosperidade global”.

Johnson foi recompensado com um encontro com a equipe de transição do presidente eleito que ocorreu no edifício Trump Tower em janeiro de 2017 e incluiu Jared Kushner, genro e assessor senior de Trump, além de Steve Bannon, seu estrategista chefe, e Steve Miller, seu redator de discursos e assessor político.

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Johnson conseguira se insinuar junto a Trump antes mesmo da visita formal de Theresa May à Casa Branca naquele mês. E, quando Trump surpreendeu a primeira-ministra britânica, anunciando minutos após a partida dela sua polêmica proibição de entrada de muçulmanos no país, Johnson usou seus novos contatos para procurar minimizar o impacto da medida no reino Unido.

Um ex-assessor dele disse que, após uma troca de mensagens de texto, Johnson recebeu um telefonema pessoal de Kushner, que confirmou que a ordem executiva seria “esclarecida” para deixar claro que não afetaria britânicos, incluindo o atleta olímpico sir Mo Farah. Não seria uma “isenção” da medida, propriamente dita, mas significava que pessoas com cidadania dupla seriam protegidas contra ela.

Naquele mês Boris Johnson disse a críticos trabalhistas na Casa dos Comuns que teria sido contraproducente “vilificar Trump desnecessariamente”.

“A maioria das pessoas de pensamento justo diria que isso na realidade mostra as vantagens de colaborarmos estreitamente com a administração Trump, as vantagens de termos um relacionamento que nos possibilita apresentar nossos argumentos e conseguir para os cidadãos que possuem passaporte britânico as proteções vitais que eles dizem necessitar.”

Johnson não teve êxito igual em seus esforços para convencer Trump a não abandonar o acordo climático de Paris ou o acordo com o Irã contra a proliferação nuclear.

Mas em julho desse ano ele se derramou em elogios à Casa Branca pela ousadia desta em matéria de política externa, voltando a criticar o predecessor de Trump.

“Quando observamos como os americanos reagiram à crise na Síria, vemos que eles estão sendo mais intransigentes contra os russos do que foi a administração Obama”, disse Johnson. “Na realidade, os americanos reagiram ao massacre bárbaro de 4 de abril, em que até cem pessoas morreram em um ataque com armas químicas, com ação cinética, coisa que a administração Obama nunca fez.”

Mesmo com relação à questão complicada da Rússia, Johnson foi leniente com Trump. “É justo e correto que o presidente dos Estados Unidos tenha qualquer espécie de relacionamento pessoal com Putin? Eu, na realidade, penso que é, sim.”

O esforço para cortejar o presidente dos EUA rendeu frutos. Quando Trump foi à ONU em setembro de 2017, Johnson foi um dos poucos rostos amigáveis que viu no palco internacional. Antes de fazer seu discurso, Trump parou para cumprimentá-lo cordialmente.

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Boris Johnson e Donald Trump na ONU em 2017

No primeiro encontro dos dois nesse ano, Trump chegou a reconhecer as semelhanças entre eles. Em um discurso que fez mais tarde na Austrália, Johnson comentou em tom de brincadeira: “Não sei bem por quê, ele destacou que frequentemente é confundido comigo. Achei isso um golpe baixo.”

Dado o encontro com aquela garota nas ruas de Nova York, não foi surpresa alguma. Mas Johnson não resistiu à oportunidade de fazer humor às suas próprias custas, como é seu hábito.

A troca de ideias entre os dois continuou no ano seguinte. Quando Johnson viajou aos EUA em maio de 2018, havia feito sua lição de casa antes. Uma reportagem da Fox News semanas antes sugerira que Trump mereceria um Prêmio Nobel da Paz por seu esforço para abrir um diálogo com a Coreia do Norte.

O chanceler britânico foi para os programas de jornalismo matinais, incluindo o favorito de Trump, “Fox & Friends”, para declarar: “Se Trump conseguir resolver a questão da Coreia do Norte – e o acordo nuclear com o Irã ―, não vejo por que seria menos viável que Barack Obama como candidato ao Nobel da Paz”.

O presidente não “resolveu” o acordo com o Irã, de maneira alguma; na verdade, retirou os EUA do acordo, provocando receios sérios de desestabilização na região, temores que continuam até hoje. Foi um exemplo claro de como lisonjas são capazes de reforçar o ego de Trump, mas em última análise não conseguem fazer o presidente americano mudar de ideia quando ele já tomou uma decisão sobre alguma coisa.

Johnson estava cada vez mais frustrado com seus próprios problemas em casa para conseguir o tipo desejado de brexit. Em um jantar particular, foi gravado dizendo que admirava Trump cada vez mais, acrescentando que “poderíamos chegar a algum lugar” se fosse Trump, em lugar de Theresa May, quem comandasse as negociações com Bruxelas.

“Imagine Trump negociando o brexit. Ele não deixaria barato. Haveria rupturas de todo tipo, caos de todos os tipos. Todo o mundo acharia que ele enlouqueceu. Mas poderíamos realmente chegar a algum lugar. Estou cada vez mais convencido de que existe uma lógica por trás da loucura dele.”

Não obstante o desdém de seus colegas por Johnson querer se aproximar do presidente americano “maluco”, havia uma lógica por traz da aparente loucura do político britânico. Comparar Theresa May desfavoravelmente com Trump era uma maneira de persuadir parlamentares conservadores que ele, Johnson, era tão contrário quanto eles a um “brexit suave”.

No início de julho de 2018, Johnson exagerou nos elogios. “O modo como Donald Trump enfoca a política é algo que vem tomando conta da imaginação das pessoas em todo o mundo”, ele disse. “Com seus tuites e todo o resto, Trump vem levando as pessoas a envolver-se em política de uma maneira que não víamos havia muito tempo.”

Três dias depois disso Johnson abandonou o governo de Theresa May. Na semana seguinte, quando Trump se postou ao lado da primeira-ministra na coletiva de imprensa em Chequeres, ele ficou felicíssimo por Johnson ter manifestado admiração por suas habilidades de negociador. “Johnson vem dizendo coisas boas a meu respeito como presidente. Ele acha que estou fazendo um ótimo trabalho. Estou realmente fazendo um ótimo trabalho.”

Johnson admira o modo como Trump define metas claras e se fixa sobre elas, apesar de alguns funcionários governamentais sugerirem que isso forma um contraste marcante com a atuação do próprio Johnson no Ministério das Relações Exteriores.

O ex-prefeito de Londres está aprendendo até com o estilo de vestuário de Trump. Durante anos Boris foi conhecido por seus ternos mal-ajambrados, por usar gravatas tortas e calças que ficavam penduradas fora das calças. Nos últimos meses ele cortou o cabelo, perdeu peso e se arrumou de maneira geral.

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Boris Johnson e o infame ônibus da campanha do “Vote Leave”, em defesa da saida da UE

É evidente que existem algumas diferenças grandes entre os dois políticos, entre outras coisas em termos de intelecto e educação. Enquanto Trump tem uma dificuldade notória em recordar nomes de pessoas e lugares, Boris Johnson possui memória incrivelmente arguta. Ele é capaz de recordar conversas inteiras entre ele próprio e pessoas com quem esteve anos antes.

Johnson é capaz de recitar cenas inteiras de filmes (Apocalypse Now é um de seus favoritos especiais), cantar em alemão e contar piadas em francês. Mas seu maior amor são as letras clássicas.

Em um momento especialmente revelador, um ex-colega dele na universidade Oxford relatou certa vez como Boris Johnson, em um evento para fins beneficentes intitulado A Alegria do Latim, contou por que ama essa língua.

“O interessante das palavras latinas é que são evasivas”, disse Johnson. Citando trechos de Apocalypse Now, ele aludiu à ordem de assassinato dada por um oficial de inteligência: “eliminar com dolo extremo”. “Foi uma frase fantástica de inglês de origem latina. ‘Eliminar com dolo extremo’ é uma ordem muito mais evasiva do que ‘mate-o’.”

Seu biógrafo Andrew Gimson explica: “Boris conhece e ama a literatura latina e grega. Mas ele tem uma gama muito ampla de interesses. Ele gosta não apenas de cultura erudita – também curte filmes de ação e coisas mais populares.

“Do mesmo modo, Boris tem uma preocupação genuína com o meio ambiente, é a favor do uso da bicicleta. Mas também é a favor do uso de carros velozes. É um pouco incomum uma pessoa curtir essas duas coisas. Nós, ciclistas, geralmente pensamos que os automóveis vão acabar por nos matar e por destruir o planeta.”

“O importante é que Boris é bastante aberto às pessoas, ele não descarta as pessoas. Ele é bastante tolerante, de modo geral. Ele ficaria chocado com algumas das coisas que Trump diz, como quando falou que aquele juiz (Gonzalo Curiel) não poderia ser justo porque é mexicano. Acho que Boris não gostaria disso, mas é claro que não o diria.”

Sobre a questão da migração de modo mais amplo, Johnson já se descreveu como “o político mais pró-imigração do Reino Unido”. Theresa May criticou no passado sua proposta de anistia aos imigrantes ilegais, algo que Trump jamais faria. Mas durante o referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na EU, ele não fez nada para desmentir a ideia falsa de que David Cameron deixaria 70 milhões de turcos entrarem no país.

O preço que Johnson pagou pelo sucesso de sua campanha pelo brexit é o aumento agudo no número de pessoas que o querem longe do poder. Enquanto antes ele era apenas desprezado, visto como palhaço, hoje muitas pessoas o odeiam visceralmente. De modo presciente, uma pixação em Bristol da campanha contra o brexit, durante a campanha do referendo (foto principal), previa um beijo entre Trump e Johnson no caso de uma vitória do brexit.

Algumas pessoas consideram que Johnson deixou suas credenciais de esquerda para trás. Quando no ano passado ele disse que mulheres que usam burcas lembram “caixas de correio” e “assaltantes de bancos”, foi uma provocação à moda de Trump. Isso, mais sua declaração de que fazer parte da UE é como usar um “colete de explosivos de um homem-bomba”, foi a última gota para Guto Harri, que foi seu diretor de comunicações na prefeitura de Londres.

“Ao longo do tempo, Boris passou de celebridade a estadista [na época em que era prefeito de Londres]”, me disse Harri. “Agora ele percorreu a trajetória inversa: virou mais tribal, ele se tribalizou dentro da tribo. Portanto, se ele virasse líder, seria uma figura divisiva.”

Talvez a maior dificuldade que Johnson enfrenta dentro do Partido Conservador é a desconfiança das pessoas quanto às suas motivações.

E parte disso talvez se deva ao fato de que ele não esperava realmente sair vencedor no referendo do brexit. Harri acredita que Johnson defendeu a saída da UE apenas na expectativa que isso o colocaria em primeiro lugar entre os possíveis sucessores de David Cameron. Ele pensou que poderia ser o homem que voltaria a unir seu partido.

Do mesmo modo que Trump iniciou sua campanha presidencial com poucas expectativas reais de chegar à Casa Branca, Johnson iniciou sua campanha Vote Leave achando que sofreria uma derrota heroica. Sua expressão chocada e séria no dia após o resultado do referendo, parecendo um vitorioso acidental, deixou tudo muito claro.

Johnson já confidenciou a amigos que sente “uma responsabilidade pessoal profunda” de, como primeiro-ministro, levar o brexit a cabo. Embora venha guardando silêncio incomum desde o anúncio da renúncia de Theresa May, alguns acreditam que uma de suas maiores apostas na disputa pela liderança conservadora será prometer que vai implementar aqueles £350 milhões adicionais por semana para o NHS.

Mashable
Donald Trump e Nigel Farage

Para alguns defensores do brexit, um fato que condena Johnson é que ele redigiu duas colunas de jornal alternativas – uma pró-UE e outra anti-UE – antes de optar por publicar aquela que defendia a saída do bloco europeu. Nos EUA, nos últimos dias, algumas figuras da direita alternativa e até mesmo da FoxNews vêm descrevendo Nigel Farage, e não Boris Johnson, como a verdadeira voz do brexit.

Na semana passada o presidente Trump fez elogios fartos tanto a Johnson quanto a Farage, líder do novo Partido do Brexit, que recentemente venceu as eleições parlamentares europeias no Reino Unido.

“Nigel Farage é amigo meu, Boris é amigo meu, eles são ótimas pessoas”, disse Trump. “São dois sujeitos ótimos, pessoas muito interessantes. E acho que são poderosos em seu país, acho que fizeram um bom trabalho.”

Como sempre, Trump está mantendo suas opções em aberto, entre outras razões porque Farage agora pensa que tem uma chance de modificar o equilíbrio de poder britânico na próxima eleição geral.

O desdém manifestado recentemente por Trump em relação a Michael Gove demonstra mais uma vez com que rapidez um político pode sair de suas boas graças. Gove foi o primeiro jornalista britânico a entrevistar Trump após a vitória deste. Os dois posaram para fotos juntos, Gove escreveu uma reportagem altamente elogiosa e declarou que “a inteligência assume muitas formas”.

Mas quando, na semana passada, Gove acusou Trump de fazer ameaças beligerantes ao Irã, Trump ficou indignado. Perguntado pelo Sun se Gove foi um dos candidatos que pediu seu endosso a um líder do Partido Conservador, o presidente respondeu com firmeza que não.

Outros acreditam que, se Johnson se tornar primeiro-ministro, ele não demorará a repetir os erros que cometeu tanto na prefeitura de Londres quanto no Ministério de Relações Exteriores.

Johnson estava tão despreparado para conquistar a prefeitura que seus primeiros meses no cargo foram marcadas por uma sucessão caótica de contratações e demissões de assessores diversos. Do mesmo modo como Trump já passou por toda uma série de assessores, a administração de Boris Johnson foi caótica – até ser salva por um chefe de gabinete experiente.

“Há a fase de cortejar os eleitores e a fase de vencer, e depois disso tudo desaba”, explica Purnell. “A questão toda de Boris Johnson era que ele funcionaria como ‘as bolhas na campanha’. Ele deveria ser um ‘chairman’ do varejo, não o executivo-chefe. Mas não foi nem uma coisa, nema a outra. Me assusta tremendamente pensar nele formando o gabinete, porque ele não é bom quando se trata de escolher subordinados.”

É possível que Johnson e Trump acabem sendo os melhores novos amigos no palco global. Para muitos dos criticos deles, o único “relacionamento especial” que cada um tem é com seu próprio ego.

Não vai demorar para Boris Johnson lembrar a todo mundo que é nova-iorquino de nascimento, mesmo que não tenha sido criado na cidade. Nos últimos anos ele renunciou à cidadania americana, temendo ser obrigado a pagar impostos em dois países.

Antes disso, contudo, ele apareceu uma vez no programa de David Letterman e não conseguiu resistir à tentação de querer alcançar as estrelas. “Acho que eu poderia ser presidente dos Estados Unidos”, falou. “Tecnicamente falando, sabe como.”

Ele e Trump querem rir por último. Mas para milhões de pessoas a piada já deixou de ter graça.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.