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17/10/2020 06:00 -03

Trump não seria o primeiro republicano derrotado nas urnas a reclamar de fraude

Candidatos republicanos aos governos de Kentucky e Carolina do Norte tentaram – sem sucesso – mudar o resultado das eleições com falsas acusações.

O plano do presidente Donald Trump para a noite da eleição é claro: se perder, ou parecer destinado a perder, ele vai mentir e dizer que foi roubado. Tentará reverter os resultados com ações judiciais, pressionando as lideranças regionais do Partido Republicano ou usando qualquer outro método imaginável.

Há meses Trump vem preparando o terreno com uma enxurrada de mentiras sobre o voto pelo correio e invenções sobre a fraude eleitoral generalizada. Mas essa bizarra ― e falsa – teoria da conspiração é anterior ao próprio presidente. O Partido Republicano há décadas espalha desinformação sobre fraudes eleitorais e também se esforça para limitar o acesso às urnas. Membros do partido chegaram a usar essas acusações para tentar permanecer em seus cargos, apesar de derrotados nas urnas. Trump é apenas mais “transparente”.

Desde 2000, políticos republicanos, advogados, organizações sem fins lucrativos e meios de comunicação partidários levantam suspeitas de fraude eleitoral e promovem políticas com o objetivo de criar obstáculos ao voto, especialmente em distritos de maioria democrata – ou seja, aqueles com grandes presenças de minorias e de estudantes universitários.

Depois de vencer eleições estaduais nas últimas duas décadas, eles rapidamente impuseram mais restrições ao voto, fechando seções eleitorais e cancelando registros de eleitores. Tudo isso com base em alegações comprovadamente falsas de fraude eleitoral em massa. Quando perderam, como na corrida presidencial de 2008, eles colocaram a culpa em conspirações infundadas de fraude eleitoral.

Há 4 anos, com a aproximação da eleição presidencial, Trump recusou-se explicitamente a se comprometer a aceitar os resultados. Mesmo depois de proclamado o vencedor, ele insistiu na tese das fraudes. Até hoje ele ainda mente, afirmando que venceu o voto popular, “se você descontar os milhões de pessoas que votaram ilegalmente”. (O presidente americano é eleito por um colégio eleitoral, com base na votação de cada candidato nos estados, e não pelo número absoluto de votos dos eleitores)

Trump não teve de contestar formalmente o resultado da eleição de 4 anos atrás. Desta vez, pode ser diferente. Se ele o fizer, é provável que o presidente dos Estados Unidos siga o mesmo manual de 2 ex-governadores republicanos que se recusaram a aceitar a derrota, reclamando (sem provas) que a votação em seus estados não foi justa. Pat McCrory, ex-governador da Carolina do Norte, e Matt Bevin, ex-governador de Kentucky, conseguiram minar a confiança dos americanos no sistema eleitoral e também em suas próprias credibilidades ― e no final das contas foram forçados a admitir que perderam.

“Veremos o mesmo filme este ano”, diz J. Sailor Jones, diretor de campanha da organização sem fins lucrativos Democracy North Carolina.

Carolina do Norte: 2016

Raleigh News & Observer via Getty Images
O então governador da Carolina do Norte, Pat McCrory, fala com seus apoiadores acompanhado pela mulher, Ann, em Raleigh, no dia da eleição de 2016. McCrory perdeu para o democrata Roy Cooper, contestou o resultado alegando fraude eleitoral e admitiu a derrota um mês depois.

Quatro anos atrás, McCrory estava cerca de 5.000 votos atrás do adversário, o democrata Roy Cooper, em um total de 4,7 milhões de votos. Cooper assumiu a liderança depois contabilizadas cerca de 90.000 cédulas do condado de Durham, pouco antes da meia-noite.

McCrory se recusou a admitir a derrota, alegando fraude eleitoral. Ele e o Partido Republicano estadual continuariam a acusar falsamente centenas de cidadãos de seu estado. Havia rumores de que a assembleia legislativa da Carolina do Norte, também controlada pelos republicanos, anularia a eleição e daria a McCrory um segundo mandato.

As declarações do então governador não foram premeditadas, como as de Trump – ele decidiu partir para o ataque só depois de confirmada sua derrota nas urnas.

Sua campanha imediatamente expressou “muita preocupação com possíveis irregularidades no condado de Durham”. Ativistas republicanos locais, orientados pelo escritório de advocacia da campanha de McCrory, entraram com uma série de protestos junto aos conselhos eleitorais de Durham.

A campanha de McCrory acusava de fraude eleitoral mais de 600 eleitores da Carolina do Norte: votar duas vezes, votos de condenados por crime (o que é proibido por lei) e fraude no voto pelo correio. Ao mesmo tempo em que apoiava essas contestações, a campanha de McCrory fez acusações absurdas de que mortos teriam votado e prometeu revelações explosivas, que causariam uma reviravolta.

Um exemplo: “Um esquema massivo de fraude eleitoral foi descoberto no condado de Bladen”, que conta com mais de um terço de moradores negros.

A queixa dizia respeito a um evento em que ativistas locais ajudaram eleitores a preencher os votos que enviariam pelo correio. Isso era perfeitamente legal na época, mas a equipe de McCrory alegou tratar-se de uma “fábrica de votos”. Reclamações semelhantes foram feitas em outros condados, onde grupos ajudaram a servir de testemunha para eleitores negros que estavam votando à distância.

“Há uma correlação direta entre os condados onde houve essas acusações de fraude e a atuação dos ativistas negros”, afirmou o deputado G.K. Butterfield (democrata) depois de participar de uma audiência sobre supostas irregularidades condado de Halifax. “Os alvos são a comunidade afro-americana e sua participação nas eleições.”

Em meio aos protestos da campanha de McCrory, observadores políticos começaram a discutir uma lei estadual que permitiria ao Legislativo estadual anular os resultados de uma eleição em caso de corrupção. Tal ação da legislatura, que contava com folgada maioria republicana na época, “não era passível de revisão” pelos tribunais.

A lei só havia sido usada uma vez antes, quando a assembleia estadual escolheu o vencedor em uma disputa para superintendente escolar em 2004, quando um defeito na urna eletrônica provocou a perda de 4.500 votos, impossibilitando saber quem fora o vencedor. As alegações de fraude de McCrory seriam uma maneira de forçar uma intervenção da assembleia estadual.

A estratégia de McCrory, porém, tinha um grande problema: quase todas as suas alegações foram consideradas falsas pelos conselhos eleitorais dos condados (compostos por dois representantes republicanos e um democrata).

Primeiro, o conselho do condado de Durham rejeitou o pedido de McCrory para uma recontagem de votos depois de não encontrar nada errado com a apuração tardia das 90.000 cédulas. A campanha pediu então a intervenção do conselho eleitoral estadual em vários condados, mas a maioria dos pedidos foi negada, com exceção do condado de Bladen – onde também não se comprovou nenhuma irregularidade.

Os advogados de McCrory também incitaram as autoridades republicanas locais a denunciar 600 pessoas por fraude eleitoral, segundo um relatório do Democracy North Carolina.

Somente 30 das mais de 600 acusações tinham mérito. Mas mesmo nesses casos ― que envolviam presos em liberdade condicional mal informados sobre seus direitos –, não se descobriu nenhum esquema de fraude eleitoral em massa.

Vários dos republicanos que formalizaram queixas depois reclamariam que foram enganados ou deixados na mão pela campanha de McCrory, de acordo com o relatório Democracy North Carolina.

Alguns dos eleitores falsamente acusados de fraude ficaram ainda mais furiosos, especialmente aqueles que viram seus nomes publicados na imprensa local. Vários deles entraram com um processo por difamação contra McCrory.

“Agora que sei que o que fizeram comigo foi errado, estou reagindo”, escreveu Gabriel Thabet, um republicano falsamente acusado de fraude eleitoral, no jornal Greensboro News & Record. “Sei muito bem o que é esse esforço de invalidar meu voto. É intimidação pura e simples. E o esforço nacional para minar nossa confiança no sistema eleitoral com acusações de que não-cidadãos estariam votando é a mesma coisa.”

Semanas depois da eleição, contados os votos enviados pelo correio, a liderança de Cooper passou de 10.000 votos, superando a margem necessária para uma recontagem obrigatória. A campanha de McCrory disse que retiraria o pedido de recontagem em todo o estado se uma recontagem automática no condado de Durham não alterasse o resultado. Foi o que aconteceu, e McCrory finalmente admitiu a derrota.

No fim das contas, as autoridades eleitorais do estado, apesar de republicanas, se recusaram a deixar a independência de lado. A legislatura republicana também não se envolveu, já que McCrory não conseguiu apresentar provas de fraude intencional.

Um caso de fraude eleitoral bem divulgado marcou a eleição de 2018 na Carolina do Norte e envolveu um republicano – o consultor de campanha McRae Dowless. Descobriu-se que ele de fato tinha uma “fábrica de votos” cujo objetivo era eleger o republicano Mark Harris para a Câmara dos Deputados. Dowless estava entre os republicanos que protestaram oficialmente contra os resultados de 2016.

Harris parecia ter conquistado a vaga em Washington, mas a fraude cometida por Dowless fez que esse resultado fosse invalidado. O conselho eleitoral do estado agendou uma nova eleição para setembro de 2019, vencida pelo republicano Dan Bishop.

Kentucky: 2019

ASSOCIATED PRESS
O então governador de Kentucky, Matt Bevin, fala a apoiadores em Louisville, acompanhado da mulher, Glenna. Ele foi derrotado por pouco na eleição de novembro e reclamou de fraude. Mas as acusações não tinham substância e logo os líderes republicanos do estado se afastaram do candidato.

Em novembro passado, em Kentucky, Bevin não demorou a reclamar de fraude na eleição em que foi derrotado pelo democrata Andy Beshear, por cerca de 5.000 votos.

“Houve muitas irregularidades”, bradou Bevin a seus apoiadores, ao se recusar a admitir derrota na noite da eleição. Ele afirmou, sem mostrar provas, que as irregularidades tinham sido “comprovadas”.

Mais uma vez sem oferecer evidências, ele insistiu: “Milhares de cédulas enviadas pelo correio foram contadas ilegalmente. Isso é sabido”. Não era o caso.

Bevin também questionou se as cédulas de um determinado condado haviam sido contadas, disse que o escândalo de 2018 envolvendo Dowless na Carolina do Norte poderia estar se repetindo em seu estado e afirmou que eleitores foram impedidos de entrar em suas seções eleitorais. Novamente, ele não apresentou nenhuma evidência, exceto sua própria intuição.

“Sinceramente, não acho que as acusações foram tão claras assim”, afirmou o senador Morgan McGarvey, líder democrata do Legislativo estadual. Ele especulou que Bevin estava simplesmente “levantando a ideia de que poderia haver fraude eleitoral”.

Ainda assim, especulou-se na imprensa local e nacional que Bevin poderia, teoricamente, pressionar a assembleia legislativa (dominada pelos republicanos) a intervir e invalidar a eleição. O presidente do Senado de Kentucky, o republicano Robert Stivers, sugeriu que uma intervenção poderia ser necessária.

“Há menos de 0,5%” de diferença entre Bevin e Beshear”, disse Stivers. “Seguiremos a lei e o que determinarem os vários processos.”

Como não existiam evidências de qualquer fraude, Stivers e outros líderes republicanos começaram a pressionar o governador a aceitar ou resultado ou ficar de boca fechada.

“É hora de desistir e ir embora”, disse Stivers dois dias depois de sugerir uma possível intervenção legislativa.

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, é a maior figura do Partido Republicano em Kentucky. Dias depois da eleição, ele afirmou que Bevins “teve uns bons 4 anos” no cargo e lamentou a derrota do governador.

Em 13 de novembro, um grupo dirigido por Erika Calihan, indicada por Bevin, organizou uma coletiva de imprensa improvisada para apresentar acusações de fraude e irregularidades. Nas redes sociais, Bevin disse que estaria presente, mas não deu as caras.

As alegações infundadas de Calihan basicamente deixaram claro que não havia prova nenhuma, só um amontoado de teorias da conspiração.

O estado conduziu uma verificação das apurações de cada condado, e apenas um voto foi alterado. Logo depois, Bevin admitiu a derrota.

“Aponto para este exemplo como um modelo para o país caso Trump se recuse a aceitar a derrota”, diz Josh Douglas, professor de direito eleitoral da Universidade de Kentucky. “É muito importante que os membros do partido não permitam uma narrativa de fraude sem provas.”

Trump: 2020

ASSOCIATED PRESS
O presidente Donald Trump fala em um comício no Aeroporto Internacional de Duluth, em 30 de setembro. Como vem fazendo há meses, ele insistiu que haverá fraude generalizada na votação pelo correio.

Os exemplos de McCrory e Bevin mostram que o esforço de Trump para manipular a eleição com acusações falsas não é uma aberração, mas sim uma extensão da mentalidade e do comportamento de integrantes do Partido Republicano nos últimos anos.

Mas eles também mostram que tal plano exige que muita gente se curve à vontade do disseminador de teorias conspiratórias. 

McCrory não conseguiu que os conselhos eleitorais estaduais ou dos condados — controlados por republicanos — decidissem em seu favor. A assembleia legislativa de Kentucky dispensou Bevin quando descobriu que ele não tinha prova nenhuma para apresentar.

Trump precisará da ajuda de republicanos nas assembleias estaduais, no Congresso e na Suprema Corte se quiser qualquer esperança de reverter um resultado favorável a Joe Biden. Ou seja, muita gente teria de fazer as vontades do presidente.

Os exemplos recentes mostram que isso é difícil. Mas controlar a Casa Branca pode ser muito mais importante do que vencer uma eleição estadual.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.

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