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09/01/2020 08:00 -03 | Atualizado 09/01/2020 09:03 -03

Após fala de Trump, temor de impacto do conflito EUA-Irã no Brasil diminui

Principal receio era quanto à disparada do preço do petróleo, que poderia desencadear aumento nos combustíveis e desagradar caminhoneiros.

Brendan McDermid / Reuters
Possível alta no preço do petróleo, decorrente da tensão entre EUA e Irã, teria impacto direto no mercado brasileiro.

Os temores de um impacto no Brasil do conflito entre Estados Unidos e Irã começaram a se dissipar após o pronunciamento do presidente norte-americano Donald Trump, que arrefeceu a retórica bélica nesta quarta-feira (8).

A principal preocupação era com o preço dos combustíveis, uma vez que o valor do barril de petróleo havia disparado após o ataque de Teerã contra bases usadas pelos EUA no Iraque em retaliação à morte do general iraniano Qasem Soleimani.

Em sua fala após o ataque - que não resultou em mortes - Trump disse que o Irã estava recuando e que os Estados Unidos querem “abraçar a paz”.

Logo após a fala de Trump, o preço do petróleo baixou, chegando a US$ 70 o barril do petróleo Brent, depois de ter batido recorde de US$ 71,75. 

A elevação havia alertado de imediato o governo brasileiro, já que, isso impactaria diretamente o preço do combustível por aqui. Desde semana passada, o presidente Jair Bolsonaro vinha afirmando a necessidade de monitorar a situação. O maior receio, nos bastidores, era de que uma alta do óleo diesel desencadeasse uma nova paralisação de caminhoneiros. 

Um dos líderes da greve de caminhoneiros de 2018, Wallace Landim, presidente da Abrava, afirmou ao HuffPost que o momento é de “atenção” e de “manter a calma”. Chorão, como é conhecido, defende que se pense soluções para redução dos custos do combustível, sem depender de notícias externas. Mas alertou: “Caso a Petrobras faça ajustes desproporcionais de acordo com mercado internacional, a ABRAVA vai se posicionar de forma dura e firme.”

Outra liderança da classe, Wanderlei Alves, o Dedeco, destacou que qualquer reajuste representa um grande impacto aos caminhoneiros autônomos. “O risco é ficarmos impossibilitados de rodar. Aí não terá como trabalhar, o frete não cobrirá as despesas do diesel. Uma viagem de 6 mil km com um aumento de capital 0,10 centavos que seja, dá uma diferença absurda nos custos”, disse. 

A Petrobras informou que está monitorando o mercado internacional. “A companhia ressalta que, de acordo com suas práticas de precificação vigentes, não há periodicidade pré-definida para a aplicação de reajustes. A empresa seguirá acompanhando o mercado e decidirá oportunamente sobre os próximos ajustes nos preços”, afirmou a estatal em nota enviada ao HuffPost.

O governo tem avaliado uma série de medidas que possam ser usadas em crises que acarretem alta de petróleo e reajustes no mercado interno. Bolsonaro chegou a mencionar que os estados abrissem mão do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) cobrado sobre o valor dos combustíveis. Mas o Planalto já sabe que isso é impossível de exigir dos entes federativos, em especial neste momento de crise fiscal. 

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse na segunda que a palavra adequada é “compensação” e não “subsídio” ao falar sobre a forma como o governo pretende agir em relação ao controle de preços dos combustíveis. Ele destacou, porém, que estará garantida a autonomia da estatal. A fala ocorreu após reunião com o mandatário e o presidente da Petrobras, Castello Branco, que contou também com a presença da ANP (Agência Nacional do Petróleo).

Peso comercial

Embora a preocupação do Brasil neste momento seja maior sobre o preço dos combustíveis, analistas e o próprio governo concordam que uma elevação da tensão entre Estados Unidos e Irã poderia refletir por todo o mundo em termos econômicos.

O país persa é o segundo maior importador no Oriente Médio de produtos brasileiros, e analistas avaliam que a modulação do discurso do presidente Jair Bolsonaro - após tomar o lado americano e sugerir a associação do regime iraniano com terrorismo - é um dos fatores que vai determinar algum impacto sobre as exportações.

Exportações brasileiras em US$

2019 - 223.998.669.052

2018 - 239.263.992.681

 

Paísesdo Oriente Médio - Valor exportado pelo Brasil em US$

  1. Emirados Árabes Unidos - 2.213.433.933
  2. Irã - 2.209.598.877
  3. Turquia - 2.170.997.378
  4. Arábia Saudita - 2.036.094.657
  5. Egito - 1.826.310.471
  6. Omã - 937.584.548
  7. Iraque - 649.213.609
  8. Catar - 484.610.197
  9. Israel - 370.673.188
  10. Jordânia - 331.640.524
  11. Iêmen - 330.634.855
  12. Líbano - 239.208.392
  13. Coveite (Kuweit) - 209.334.307
  14. Geórgia - 175.832.447
  15. Chipre - 73.738.135
  16. Síria - 62.836.110
  17. Palestina - 22.357.839

*Fonte: MDIC. 

 

Um dia depois do ataque que matou Soleimani, considerado o segundo homem mais importante do Irã, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, emitiu uma nota manifestando apoio à luta contra o “flagelo do terrorismo” e mencionou a disposição brasileira em ajudar os esforços para evitar uma “escalada de conflito”.

O comunicado do Ministério das Relações Exteriores levou o Irã a convocar a encarregada de negócios do Brasil em Teerã, Maria Cristina Lopes, para esclarecimentos já que o embaixador, Rodrigo Azeredo, está no Brasil. 

Depois de ser bastante criticado pelo posicionamento sobre o conflito externo, Bolsonaro determinou a toda a equipe que mantivesse silêncio sobre o tema e apenas ele se manifestou, dizendo que o Brasil manterá o comércio com Teerã. “Temos o comércio com o Irã e vamos continuar nesse comércio”, disse ao deixar o Palácio da Alvorada na terça-feira (7). 

Nesta quarta (8), contudo, o Itamaraty mandou a encarregada de negócios em Teerã desmarcar uma outra reunião - esta pré-agendada, para tratar de cooperação cultural entre as nações. 

Essa não é a primeira vez que a relação entre Brasil e Irã fica estremecida. No meio do ano passado, o Brasil precisou apelar à diplomacia para solucionar uma questão com o regime islâmico. Dois navios cargueiros iranianos carregados de milho ficaram parados no porto de Paranaguá por falta de combustível, e o país ameaçou suspender as exportações. A Petrobras alegou à época que as embarcações eram alvo de sanções americanas e temia ser punida.

Impactos ‘periféricos’

Para o diretor da consultoria Arko Advice e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), Thiago Aragão, os impactos do conflito para o Brasil seriam “periféricos”. “Geopoliticamente, o grande risco do Brasil é não medir as palavras: o presidente Bolsonaro ou o ministro de Relações Exteriores trazerem polêmica para um assunto no qual o Brasil não precisa necessariamente se envolver”, destacou. 

Aragão acredita que a “cautela, que não foi muito utilizada em 2019, passa a ter um papel ainda mais importante”, já que, devido à aproximação de Bolsonaro com os EUA, o governo norte-americano deve esperar uma manifestação de apoio pelo Brasil. “Por isso o Brasil deve estudar os tipos de manifestação que estão sendo dadas no mundo agora. Pode dar uma manifestação de apoio sem ser enfático, controverso e sem atrair a antipatia para cima de você.”

Já o analista do Eurasia Group Silvio Cascione disse que o maior impacto econômico para o Brasil seria mesmo no petróleo, e ressaltou a posição do Irã como importador de produtos brasileiros. “Em termos de perspectiva, por mais relevante que seja em alguns setores, no agregado, não é tão grande quando se compara com a balança comercial como um todo.” 

Cascione refere-se à enorme participação do milho, por exemplo, entre os produtos importados pelo país persa. Em 2019, o Irã importou US$ 998.110.431 do grão, sendo o segundo país que mais comprou o insumo brasileiro. Acontece que, no montante, dos US$ 223.998.669.052 exportados pelo Brasil no ano passado, as vendas para os iranianos representam somente 1% - o país ficou em 24º lugar no ranking mundial. 

Ranking dos principais importadores do Brasil em 2019 - Valor em US$

  1. China - $62.871.652.107
  2. Estados Unidos - $29.560.580.499
  3. Países Baixos (Holanda) - $10.086.120.215
  4. Argentina - $9.723.825.017
  5. Japão - $5.408.840.889
  6. Chile - $5.143.614.254
  7. México - $4.856.980.402
  8. Alemanha - $4.716.258.434
  9. Espanha - $3.999.194.828
  10. Coreia do Sul - $3.426.489.502
  11. Canadá - $3.310.854.888
  12. Bélgica - $3.179.998.439
  13. Itália - $3.128.762.536
  14. Colômbia - $3.091.574.820
  15. Reino Unido - $2.965.315.005
  16. Cingapura - $2.849.908.134
  17. Malásia - $2.792.929.778
  18. Índia - $2.763.196.827
  19. França - $2.579.073.274
  20. Uruguai - $2.479.464.389
  21. Paraguai - $2.455.250.390
  22. Hong Kong - $2.403.558.234
  23. Emirados Árabes Unidos - $2.213.433.933
  24. Irã - $2.209.598.877
  25. Peru - $2.191.657.663
  26. Turquia - $2.170.997.378
  27. Vietnã - $2.037.599.579
  28. Arábia Saudita - $2.036.094.657
  29. Egito - $1.826.310.471
  30. Panamá - $1.815.885.523
  31. Indonésia - $1.715.433.487
  32. Tailândia - $1.663.108.918
  33. Rússia - $1.607.827.504
  34. Taiwan (Formosa) - $1.533.031.685
  35. Bolívia - $1.397.293.908
  36. Bangladesh - $1.323.744.508
  37. Suíça - $1.250.965.365
  38. Portugal - $1.159.237.960
  39. África do Sul - $1.122.929.003
  40. Noruega - $1.072.191.253
  41. Argélia - $1.040.010.226

*Fonte: MDIC. 

** Considerados países que importaram mais de $1 bilhão em 2019

 

Exportação de milho e soja afetada?

Para o diretor-geral da Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec), é necessário ficar atento e a situação preocupa. “Toda vez que há uma ameaça de guerra ou conflito, em se tratando de um grande importador, lógico existe preocupação nossa. Não se sabe direito ainda para que lado vai a situação”. 

Para o presidente da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), Bartolomeu Braz Pereira, contudo, o Brasil é “o protagonista da vez” e os impasses entre os EUA e o Irã tendem a beneficiar o mercado brasileiro.

“Se não vai comprar do Brasil, vai comprar de quem? A China não tem para oferecer, a Argentina está sucateada, e está em guerra com os Estados Unidos”, afirmou Pereira. “Nenhum outro país tem a parcimônia, o ambiente de negócios e a qualidade do produto brasileiro. Abrimos o mercado no último ano. O Brasil é isso, não a queimada na Amazônia. Estamos mostrando a verdadeira comercialização brasileira e, com isso, desde abril, estamos nos abrindo.”

Alysson Paolinelli, da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho), concorda. “O Brasil é um grande exportador de alimentos e tem o melhor milho e uma soja também muito boa. Está consolidado no mercado”, disse, frisando que, para a entidade, a interferência nas exportações podem ocorrer somente em uma escalada elevadíssima do conflito.