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10/10/2020 07:00 -03

E se Trump tivesse lidado com a pandemia exatamente como Bolsonaro?

Os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil abordaram a crise de maneira parecida. Mas o que eles fizeram de diferente, especialmente sobre o auxílio financeiro à população, pode custar a reeleição do americano.

Donald Trump, ao que parece, tinha decidido apostar tudo na estratégia Bolsonaro. Na segunda-feira passada, horas depois de receber alta do hospital onde foi tratado de covid-19, um Trump desafiador insistiu estar bem de saúde e disse à população que não se deixasse “dominar” pelo coronavírus – que já deixou mais de 213.500 norte-americanos mortos.

Há 3 meses, depois de receber seu diagnóstico, Jair Bolsonaro também não demorou a proclamar-se saudável, justificando sua afirmação do início do ano de que a covid-19 não seria mais que uma “gripezinha”. Trump, considerado pelo presidente brasileiro um exemplo, por sua vez talvez tenha enxergado em seu par um modelo a seguir: apesar de o Brasil enfrentar um surto quase tão grande quanto o dos Estados Unidos, Bolsonaro recuperou sua popularidade. Enfrentando um enorme desgaste em sua imagem, Trump precisava de um alívio como o que a doença conferiu a Bolsonaro.

As semelhanças entre os dois nunca foram tão óbvias quanto durante a pandemia: a recusa em seguir as recomendações mais básicas resultou em consequências desastrosas e foi responsável não só pelas doenças dos dois líderes como também por dois dos maiores epicentros mundiais do coronavírus. Juntos, Brasil e Estados Unidos respondem por mais de 12 milhões de casos e 360 mil mortes.

Só um dos dois presidentes, entretanto, parece estar pagando o preço. Apesar das características comuns, Trump ignorou uma medida chave que ajudou a reerguer seu colega brasileiro.

Kevin Lamarque / Reuters
Bolsonaro e Trump em encontro na Casa Branca em março de 2019.

Na terça-feira (6), Trump anunciou pelo Twitter que estava suspendendo, até depois das eleições de 3 de novembro, as negociações com os democratas e com a líder do partido na Câmara, Nancy Pelosi, do segundo pacote de auxílio emergencial. Foi um choque: Trump estava recusando um potencial presente de seus adversários, o que significaria um impulso econômico e possivelmente uma ajuda nas urnas. Mais que isso: ele estava jogando nas suas próprias costas a culpa pelas dificuldades enfrentadas por uma parcela enorme dos americanos.

Como Trump, Bolsonaro desde o início enquadrou a resposta à pandemia como uma falsa escolha entre saúde pública e saúde da economia, apostando que “a preocupação dos brasileiros seria sua sobrevivência econômica”, como escreveu em agosto o analista político Thomas Traumann. Mas, diferentemente de Trump, Bolsonaro manteve-se focado na economia. Foi uma decisão mais sábia que a de seu par – quando lhe ofereceram um presente, Bolsonaro decidiu aceitá-lo.

Nos primeiros meses da pandemia, apesar da oposição de Bolsonaro, o Congresso aprovou um pacote de ajuda emergencial para cerca de 70 milhões de pessoas que atuam na economia informal. Os pagamentos beneficiaram milhões, poucos dos quais se deram conta de que o presidente queria oferecer uma quantia bem inferior.

Bolsonaro fez tudo errado no que diz respeito à epidemia, mas isso ficou de lado porque as pessoas mais atingidas na verdade acham que o governo fez algo por elas.Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics

Os índices de aprovação de Bolsonaro despencaram em junho em meio a acusações de corrupção e interferência do Executivo, justamente quando o Brasil se tornou um dos epicentros globais da covid-19. Mas o auxílio econômico (bem como as concessões ao centrão no Congresso) ajudaram na recuperação dos números do presidente.

O programa de auxílio ajudou a reduzir os índices de pobreza do País, e a retração econômica, apesar de severa, deve ser menor que a de outros países da América do Sul. Os escândalos do governo Bolsonaro e a tragédia da pandemia afastaram do presidente muitos dos eleitores que pertencem à classe média e à classe média alta. Ainda assim, suas taxas de aprovação bateram recordes graças à camada mais pobre, principalmente no Nordeste, beneficiada pelo auxílio emergencial.

“Não há dúvidas de que a popularidade de Bolsonaro cresceu não porque ele sobreviveu à covid, mas sim porque o Estado ofereceu uma ajuda que teve impacto significativo para os mais pobres”, diz Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly e vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas.

Trump também apoiou um enorme pacote de ajuda para a população no início da pandemia, por meio de um pagamento direto, aumento do seguro-desemprego e assistência às empresas. Mas o dinheiro destinado às pessoas foi comparativamente pequeno: os Estados Unidos fizeram um único pagamento aos cidadãos, em vez de assistência mensal recorrente. A maioria dos benefícios foi concedida a grandes empresas. Somente um quinto dos 4 trilhões de dólares do pacote ajudou indivíduos diretamente, de acordo com o The Washington Post.

Mais de 21 milhões de americanos estão desempregados, e outros 11,5 milhões viram suas horas de trabalho e seus salários reduzidos durante a pandemia, de acordo com o Economic Policy Institute, um centro de estudos liberal. Embora a taxa de desemprego tenha caído desde o auge da crise, o crescimento dos empregos está em desaceleração, e as demissões estão aumentando. Sem um novo programa de estímulo econômico, a economia americana pode ser devastada, alertam os economistas.

Bolsonaro, por outro lado, apoiou uma extensão do programa assistencial, que terminaria em setembro. Embora o governo tenha cortado pela metade o valor dos pagamentos mensais, a manutenção da assistência pública até o final de 2020 garante que o Bolsonaro continue a desfrutar dos benefícios políticos do “coronavoucher”, ao mesmo tempo esquivando-se da culpa pela disseminação do vírus. (Na pesquisa de agosto, apenas 11% dos brasileiros o culparam pelo número de mortos no País.)

“Um número enorme de pessoas foi beneficiado pelo programa e, mesmo que estejam desempregadas, acham que o governo as ajudou”, diz Monica de Bolle, pesquisadora-sênior do Peterson Institute for International Economics que assessorou legisladores brasileiros envolvidos na elaboração do programa de socorro. “Bolsonaro fez tudo errado no que diz respeito à epidemia, [mas] isso ficou de lado porque as pessoas mais atingidas na verdade acham que o governo fez algo por elas. Ao contrário daqui [EUA], onde em geral o governo não fez nada pelas pessoas que são realmente vulneráveis.”

The Washington Post via Getty Images
Trump, ao chegar à Casa Branca, depois de receber alta do hospital. O presidente americano disse que os americanos não devem se preocupar com a covid-19

Existem várias razões pelas quais Trump poderia não ter se beneficiado mesmo que seguisse à risca o que fez Bolsonaro.

A pandemia atingiu os Estados Unidos num ano de eleição presidencial, enquanto Bolsonaro nem sequer chegou à metade de seu mandato. Trump enfrenta uma força oposta unida e coerente no Partido Democrata, enquanto a oposição brasileira ainda está fragmentada, sem voz e impotente. E os níveis mais altos de pobreza do Brasil aumentam o impacto político dos programas de ajuda direta à população.

Embora Bolsonaro tenha alimentado e se beneficiado dos altos níveis de polarização do Brasil, a população do País é menos rígida em termos políticos que a dos Estados Unidos. Essa dinâmica significa que muitos brasileiros estão mais dispostos a apoiar ― ou dar as costas aos ― seus líderes.

Nenhum presidente americanos seria capaz de alcançar uma aprovação de 90% como a de Luiz Inácio Lula da Silva, há uma década. Igualmente, jamais se veria no país uma aprovação de míseros 3% da população, como a de Michel Temer, em 2017.

A doença de Trump também parece muito mais grave do que a de Bolsonaro, o que vai de encontro ao verniz de invencibilidade propagandeado por populistas como os dois. E Bolsonaro provou ser mais implacável do que seu colega: Trump pode ter escanteado as principais autoridades de saúde pública do governo americano, mas Bolsonaro demitiu um ministro da saúde e forçou outro a renunciar após apenas 28 dias no trabalho.

A abordagem agressiva e a resposta econômica ajudaram o brasileiro a vencer a guerra de narrativas com os governadores, prefeitos e outras autoridades locais que buscavam prolongar as medidas de isolamento social.

Os brasileiros também apresentam níveis mais altos de desconfiança nos cientistas em comparação com habitantes de outros países, segundo uma pesquisa recente do Pew Research Center.

A confluência de todos esses fatores pode ter criado “um ambiente mais adequado para o negacionismo no Brasil do que nos Estados Unidos”, permitindo que Bolsonaro se beneficiasse mais que Trump, diz Oliver Stuenkel, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em São Paulo.

Bolsonaro ainda pode enfrentar consequências políticas caso a assistência econômica termine no início do ano que vem ou se a falta de ajuda às empresas prejudicar a economia no futuro próximo.

Ainda assim, é chocante notar que Trump não tenha se esforçado para copiar o único aspecto da resposta brasileira à pandemia que realmente faz sentido. Entregar dinheiro na mão das pessoas, ao que parece, faz sentido político e econômico em meio a uma pandemia, mesmo que tudo o mais que Bolsonaro tenha feito só piorou a crise.

“Fico surpresa porque isso é o óbvio, certo?”, diz de Bolle sobre a recusa de Trump em fornecer mais ajuda econômica. “Isso é o que você tem de fazer: ajudar as pessoas. Todos saem ganhando”, conclui.

* Esta reportagem foi publicada originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.

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