NOTÍCIAS
30/09/2020 11:08 -03

Mentindo, trapaceando, intimidando: Como Trump sequestrou o primeiro debate presidencial

O presidente não conseguiu parar de interromper, ganhando até mesmo uma repreensão do moderador, o âncora da Fox News Chris Wallace.

Brian Snyder / Reuters
Primeiro debate entre Trump e Biden foi marcado pela tática caótica de Trump.

“Você não vai calar a boca, cara?”

Levou apenas alguns minutos do primeiro debate presidencial para que Joe Biden respondesse nesse tom a Donald Trump em resposta às interrupções do presidente durante uma pergunta sobre a Suprema Corte. Mas a troca acalorada foi apenas um precursor da feia noite que se avizinhava, no que foi talvez o debate presidencial mais caótico e tóxico da história moderna. 

O debate em Cleveland, Ohio, deveria ser sobre a Suprema Corte, a saúde, a pandemia do coronavírus, a segurança e a brutalidade policial. Mas Trump tentou sequestrar o debate, desrespeitando incessantemente as sua regras – ele atropelou com frequência Biden e o moderador Chris Wallace, da Fox News – e contando mentiras ostensivas sobre todos os assuntos. Trump afirmou falsamente que havia apresentado um plano de saúde abrangente, lançou ataques pessoais sobre o filho de Biden, Hunter, e voltou a desinformar sobre o voto pelos correios.

Embora sua performance tenha sido bem típica do seu perfil, não está claro que Trump tenha se esforçado para influenciar os milhões de eleitores dos subúrbios e mulheres que dizem estar afastados por seu comportamento após quase quatro anos no cargo. Lançar um debate presidencial no caos quando você não está na frente nas pesquisas pode até dar um impulso inicial na também combativa Fox News, mas provavelmente será uma estratégia ruim a longo prazo para o presidente em exercício. 

O debate foi, no entanto, uma demonstração de como Trump chegou à Casa Branca e tem governado: atropelando regras sobre o respeito mútuo pelo processo eleitoral e seus oponentes. A um Biden irritado – que além de dizer para Trump “calar a boca” também o chamou de “palhaço” – só restou esperar de pé enquanto Wallace implorava e, quando isso não funcionou, acabou gritando para Trump respeitá-lo. 

“Deixe-me fazer minha pergunta”, disse Wallace. “Sr. Presidente, sou o moderador deste debate, gostaria que o senhor me deixasse fazer minha pergunta, e então o senhor pode responder. ... Minha pergunta, senhor, é qual o é o plano de saúde de Trump?”

Trump voltou a disparar: “Bem, antes de mais nada, acho que estou debatendo você, não ele. Mas tudo bem, não estou surpreso”.

Em outro ponto do debate, Wallace tentou frear Trump depois que o presidente não permitiu que Biden respondesse sobre o trabalho de seu filho na Ucrânia. O ex-vice-presidente defendeu Hunter Biden, dizendo que ele não fez nada de errado ao servir na diretoria de uma empresa de energia ucraniana. 

“Sr. Presidente, deixe-o responder!”, Wallace disse. “Sr. Presidente, por favor, pare”.

Um Biden frustrado respondeu: ”É difícil falar com este palhaço”. Ele acrescentou: “Desculpe-me, com esta pessoa”.

Em um auditório que há poucos meses servia como um hospital de emergência para pacientes da covid-19, alguns dos maiores problemas que os Estados Unidos enfrentavam eram grandes. Até hoje, a pandemia do coronavírus já custou mais de 200 mil vidas americanas, e os casos continuam aumentando, ultrapassando as nações do mundo inteiro. Enquanto isso, milhões de americanos continuam desempregados e com a assistência federal cada vez menor. 

Mas o embate entre Trump e Biden não avançou a ponto de tratar desses problemas. Trump alegou repetidamente que o número de mortos americanos teria sido maior sob um governo Biden, defendeu a realização de grandes comícios durante a pandemia e minimizou a utilidade do uso de uma máscara.

Jonathan Ernst / Reuters
"Sr. Presidente, sou o moderador deste debate, gostaria que o senhor me deixasse fazer minha pergunta, e então o senhor pode responder", disse o morador Chris Wallace, da Fox News.

Biden, em alguns raros momentos em que conseguiu falar por mais tempo, foi capaz de fazer o que sua campanha disse que ele tentaria: falar diretamente aos eleitores. Olhando para a câmera, Biden perguntou quantos americanos têm uma cadeira vazia em sua mesa depois de perder um ente querido para a pandemia. Ele perguntou aos americanos da classe trabalhadora como eles estavam realmente indo no atual cenário econômico. E em um último apelo, ele pediu aos americanos que votassem como se sentissem confortáveis.

Esses momentos foram seguidos pela explosão de Trump. 

Quando foi questionado sobre seus impostos, Trump negou tudo: disse ter pago “milhões” em impostos em 2016 e 2017, refutando uma reportagem do New York Times que mostrou que ele pagou apenas US$ 750 em impostos em cada um desses anos. Ele se agarrou aos números do pré-coronavírus na economia, inflando como a indústria manufatureira estava se saindo mesmo antes da pandemia.

E em um dos momentos mais notáveis da noite, Trump se recusou a condenar os supremacistas brancos e grupos de milícias. Em vez disso, ele disse que os Proud Boys, um grupo neofascista, deveriam “recuar e esperar”.

O debate de terça-feira vem num momento em que Trump se arrasta nas pesquisas de intenção de voto nacionais e em pesquisas de estados-chave, incluindo Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. Trump venceu todos os três estados do Cinturão da Ferrugem em 2016, derrotando a então candidata democrata Hillary Clinton, para conquistar a presidência. 

O comentarista político da CNN e ex-senador republicano da Pensilvânia Rick Santorum, que defende Trump com frequência, disse que o presidente se saiu mal na terça-feira.

“Acho que o presidente exagerou esta noite”, disse Santorum após o debate. “Acho que não funcionou para ele esta noite. Acho que ele veio muito quente.”

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost