ENTRETENIMENTO
24/01/2019 02:00 -02

'True Detective': O que esperar da terceira temporada da série

O retorno da série de Nic Pizzolatto na HBO, agora estrelada por Mahershala Ali, quer levar os fãs de volta aos tempos existenciais de Rust Cohle.

Divulgação/HBO
Mahershala Ali agora protagoniza a nova temporada de "True Detective", da HBO.

Ouvimos uma versão sombria de Death Letter, de Son House, enquanto alguns rostos vagamente familiares passam rapidamente pela tela em close. Em seguida vislumbramos vários locais rurais – florestas de ar tenebroso, margens de rios, ferros-velhos. São lugares que vão exercer algum tipo de papel no crime que vamos trazer à tona.

Sim, os créditos iniciais clássicos de True Detective voltaram, assinalando que a terceira temporada da série criada por Nic Pizzolatto para a HBO quer levar os fãs de volta aos tempos existenciais de Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson), após uma segunda temporada lamentável.

A nova edição da série antológica é ambientada na região dos montes Ozark, onde os parceiros de trabalho Wayne Hays (Mahershala Ali) e Roland West (Stephen Dorff), ambos veteranos da Guerra do Vietnã, investigam o desaparecimento de duas crianças, irmão e irmã, no Arkansas em 1980. Scoot McNairy e Mamie Gummer fazem Tom e Lucy Purcell, os pais das crianças que desapareceram quando saíram para andar de bicicleta na tranquila cidadezinha de West Finger. A história avança e recua entre três períodos diferentes – 1980, 1990 e 2015 ―, durante os quais Hays investiga, descobre e revive verdades sobre o caso dos Purcell, ao mesmo tempo em que começa a sofrer de demência senil.

Divulgação/HBO

A trama remete à primeira temporada, quando vimos os detetives Cohle e Hart desvendarem uma série de assassinatos ritualísticos cometidos no Louisiana em 1995. O tempo era um círculo plano quando a investigação intensa e frequentemente metafórica sobre Carcosa e o Rei Amarelo era reforçada pela química inegável de policiais amigos representada por McConaughey e Harrelson.

A terceira temporada, que estreou no último dia 13 de janeiro na HBO, nos traz outra dupla de policiais estudando um caso passado, mas não tem o clima inovador da primeira. Vivemos em uma era de televisão dominada por dramas policiais tenebrosos - Broadchurch, The Fall, Top of the Lake, Happy Valley, Dark, Mindhunter - , de modo que uma série antológica tem ainda mais dificuldade em se destacar. E a partir das massas emergiu um microgênero curiosamente popular que também exerceu seu fascínio sobre Pizzolatto: as histórias de crimes passadas no sul do Missouri e região, exemplificadas por Ozark, da Netflix, e a recente série limitada Objetos Cortantes”, da HBO, ambas ambientadas no Missouri.

True Detective apresenta uma história persuasiva no primeiro episódio da temporada,The Great War and Modern Memory, deslocando-se entre períodos de tempo um pouco melhor do que faz Westworld, por exemplo. Mahershala Ali, vencedor do Globo de Ouro por Green Book – O Guia, se destaca em relação aos outros personagens, todos apresentados na primeira meia hora do episódio. O rosto austero e preocupado de Wayne “Purple” Hays capta nossa atenção enquanto o vemos ao mesmo tempo fixado sobre o caso Purcell e tentando lidar com sua perda de memória. Ele espelha Rust Cohle na medida em que é um sujeito solitário e misterioso que prefere tomar algumas cervejas a investir em um relacionamento com qualquer pessoa exceto seu parceiro na polícia. Na década de 1990 essa mentalidade já mudou um pouco, mas a família ainda parece ser uma questão dolorosa para Hays, agora envelhecido, quando ele tenta recordar seu trabalho de investigador, falando com um documentarista em 2015.

(Ressalva: a maquiagem usada para envelhecer Ali distrai nossa atenção do essencial. A prótese facial que recobre seu rosto normalmente escultural não é melhor do que as que foram usadas pela NBC para converter Mandy Moore numa mulher de 70 anos no muito mais sentimental This Is Us.)

Divulgação/HBO

A série tem vários ótimos momentos graças à atuação de Ali. Os diálogos espirituosos no carro estão de volta, desta vez entre Ali e Dorff, que, depois trabalhar por um tempo em Star, tem a oportunidade aqui de encarar o peso de um personagem escrito para a televisão de alta qualidade. O criador e roteirista Nic Pizzolatto mergulha fundo no desenvolvimento dos personagens, conferindo tanta profundidade às pessoas obrigadas a investigar e reviver um crime quanto ao próprio crime.

Mas em comparação com a primeira temporada a trama passa a impressão de ser intencionalmente menos complexa, editada para garantir que os espectadores consigam acompanhar a saga mais facilmente. Para nos ajudar a entender o caso das crianças desaparecidas, Pizzolatto usa flashbacks e relatos. Em uma das primeiras cenas, os filhos de Tom Purcell, Will e Julie, perguntam ao pai se podem encontrar um amigo. De boné de beisebol, consertando o motor de seu carro diante da casa deles em uma paisagem cheia de feixes de feno, Tom os deixa ir mas os manda voltar até as 17h30m, “antes do pôr do sol”.

“Sim senhor”, eles respondem educadamente e vão embora de bicicleta. Tom dá um gole em sua cerveja e olha para a rua, agora deserta exceto por alguns carros estacionados. Passa-se tempo suficiente para o espectador entender: seus filhos não vão voltar.

Pizzolatto disse ao CinemaBlend: “Eu quis deixar claro que não há truques à espera do espectador. Como 2015 e 1990 acontecem ao mesmo tempo que 1980, você está constantemente ouvindo o que ainda vai acontecer, tipo o tempo todo. Dependendo da experiência do espectador ou do que ele quer fazer, há um jeito que se pode encarar a série, que é lhe dizer tudo que vai acontecer antes que aconteça. E eu quero conseguir fazer isso, não levar o espectador na conversa. Quero respeitar sua atenção e seu tempo, mas ainda assim recompensá-lo com uma revelação e um regresso.”

Os tempos da volta por cima de Matthew McConaughey já ficaram para trás, mas True Detective está replantando suas raízes com a presença de um ator premiado com o Oscar. Talvez o caso das crianças desaparecidas pareça pouco memorável quando comparado às várias outras séries policiais saídas de um submundo sombrio da região dos Ozarks. Mas, no meio da multidão de opções dos serviços de streaming, TV aberta e TV a cabo, será que uma série precisa ser memorável para ser boa?

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.