ENTRETENIMENTO
03/09/2020 02:00 -03

'O tempo passa e o filme vai ficando mais atual', diz diretora sobre 'Três Verões'

Sandra Kogut fala sobre seu novo filme, estrelado por Regina Casé, que estreia em drive-ins e streaming a partir desta quinta-feira (3).

Estrelado por Regina Casé, o filme Três Verões estava pronto para estrear nos cinemas no dia 19 de março. A equipe de produção foi pega de surpresa — assim como todos nós — pela pandemia do coronavírus. “Acho que por conta disso, Três Verões será um filme emblemático, até um estudo de caso sobre o cinema na pandemia”, comenta a diretora Sandra Kogut às vésperas da estreia de seu filme em drive-ins e plataformas de streaming, a partir desta quinta-feira (3). 

Comédia dramática filmada em 2018, antes mesmo da eleição de Jair Bolsonaro, Três Verões nasceu do desejo da cineasta de falar sobre as mudanças no rumo do País impulsionadas pela até então poderosa Operação Lava Jato, mas pelos olhos “das pessoas que orbitavam ao redor desses corruptos investigados e presos”, como a própria Kogut explicou em entrevista exclusiva ao HuffPost.

O principal desses olhares é o de Madá (Regina Casé), uma caseira/governanta de uma mansão em um condomínio de luxo à beira-mar. Recortado em três verões, aqui resumidos à última semana do ano (de 2015 a 2017), o filme acompanha o desmantelamento de uma família em função da investigação e posterior prisão de Edgar (Otávio Müller), o “dono” da casa. Durante esse processo, Madá faz de tudo para sobreviver no gerenciamento da mansão de veraneio e transformar o sonho de ser dona de um quiosque praiano. 

“A Madá é um personagem entre dois mundos. Ela é empregada, mas é a chefe dos empregados. E isso é uma coisa muito importante porque eu queria muito falar desse momento que estamos vivendo esse projeto neoliberal em que o legal é ser patrão. Todo mundo quer ser patrão. Tudo é um negócio em potencial. Tudo tem de se tornar uma mercadoria. Esse é o projeto que foi vendido e todo mundo comprou”, conta Kogut, que entre outros filmes, dirigiu os longas Mutum (2007) e Campo Grande (2015).

Por uma ironia do destino, até esta entrevista ocorreu entre dois mundos, pré-pandemia e durante o isolamento. Batemos um papo com a diretora em março e nesta semana sobre os perrengues de Três Verões, sua relação com Regina Casé e, claro, o fato de ver seu filme “pulando” a etapa das salas de cinema no Brasil e ter ido direto para os drive-ins e serviços de streaming.

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A cineasta Sandra Kogut no set de filmagens de "Três Verões".

Veja aqui nossa conversa com Sandra Kogut:

HuffPost Brasil: É curioso que na entrevista que fizemos em março, você falou que no filme você queria discutir esse projeto neoliberal em que o legal é ser patrão, do “empreendedorismo”, que tudo é um negócio em potencial, e aí veio a pandemia, que obrigou muita gente a se enveredar por esse caminho. Parece que o filme vai ficando cada vez mais atual... 

Sandra Kogut: Engraçado isso, né? Várias pessoas têm comentado isso comigo, de que o tempo passa e o filme vai ficando mais atual. É que o filme fala de algo que foi amplificado na pandemia, que é o seguinte: quando tudo desmorona, como é que você se reinventa? Como você se vira? É um filme que fala sobre decepção e esperança, coisas que a pandemia tornou ainda mais agudas. Mas eram coisas que já estavam aí, já existiam. As questões de classe, desigualdade social... A gente não poderia imaginar algo desse tamanho, mas, realmente, o filme ficou ainda mais atual. Do mesmo jeito que ficou mais impactante porque nós filmamos antes da eleição do Bolsonaro, quando já eram dados alguns sinais do que estava vindo pela frente. 

Por que você quis contar essa história pelo ponto de vista da Madá?

Quando eu acompanhava aquelas histórias espetaculares de grandes escândalos de corrupção, ficava curiosa em saber sobre as pessoas que orbitavam ao redor desses corruptos investigados e presos. Eram personagens quase invisíveis. Eram as pessoas do fundo do quadro. Fora de foco. Eu tinha uma curiosidade muito grande de saber como aquilo tudo atingia essas pessoas, como eles lidavam com aquilo. É sempre muito interessante você olhar para as histórias por esse lugar que não é aquele lugar mais previsível. Estava com vontade de falar desse momento do Brasil, daquilo tudo que estávamos vivendo, mas olhando por outros olhos.

Além disso, tem um aspecto do personagem da Madá que é muito importante. A Madá é um personagem entre dois mundos. Ela é empregada, mas é a chefe dos empregados. E isso é uma coisa muito importante porque eu queria muito falar desse momento que estamos vivendo esse projeto neoliberal. Esse é o projeto que foi vendido e todo mundo comprou. A Madá é uma personagem num lugar muito específico que permitia falar disso.

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Por que você escolheu essa forma de contar a história, dividida em três verões?

Ainda pontuando o fato de que eu queria que a Madá fosse uma personagem entre dois mundos, eu também queria que o filme se passasse em uma casa secundária. Que não fosse a casa em que a família mora. Porque isso significa que aquela casa acaba sendo mais da Madá do que de seus patrões. Eles não estão lá sempre, mas ela, sim. É muito interessante ir a esses lugares de casas de veraneio fora de temporada. Nesses períodos só os empregados estão lá. Isso é fascinante. Eles são falsos proprietários, são os “donos da casa” sem ser. É uma situação muito boa para falar dessa sociedade neoliberal que eu queria discutir no filme.

Acho que 'Três Verões' será um filme emblemático, até um estudo de caso sobre o cinema na pandemia.

Mas, por que o verão? Essa última semana do ano é muito específica, única. Primeiro porque o verão é aquela época do ano em que tudo é exagerado, multiplicado por mil. O calor é maior, é tudo mais colorido, os sons são mais barulhentos, as chuvas são mais intensas... Está tudo em seu ponto máximo. E essa é uma semana que tem o Natal e todos os seus dramas familiares e o ano novo, aquele momento de esperança que todo mundo faz muita promessa e acredita que tudo vai melhor, que agora sim a coisa vai pra frente. É um momento muito único do ano, em que tudo está em evidência. Ou seja, muito rico dramaticamente falando.

Por outro lado, essa estrutura episódica é narrativamente muito rica para você falar do que você não está mostrando. Em que a gente supõe o que aconteceu no período em que o filme não mostra. A “grande história”, a do cara que vai preso, ela está sempre ali na nossa cabeça, num subtexto. É inevitável que ela exista, mas eu acho melhor ela existir nesse lugar do subtexto, pra gente olhar melhor para o eco que ela produz nas pessoas que estão em volta.

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O filme também mostra um conflito de gerações que é centrado na figura do Seu Lira [interpretado por Rogério Fróes], o pai do Edgar. A relação dele com a Madá, aliás, traz alguns momentos bem emblemáticos que mostram a relação dos patrões e empregados com a tecnologia...

Eu acho que o personagem do Seu Lira é o único personagem humanista. Ele é uma espécie de reserva moral. E ele se tornou anacrônico. O humanismo que ele representa não encontra mais lugar nesse mundo. Já essa questão geracional, eu realmente me faço essa pergunta. O que aconteceu com essa geração que ele representa que não foi capaz de transmitir para a geração seguinte esse valores? Ele mesmo fala algo tipo: ‘puxa, eu não fui capaz de educar meu filho’. Não quer dizer que todo mundo daquela geração é assim ou assado, mas existe uma questão geracional aí, sim. De que esses valores de algum maneira foram se perdendo no meio do caminho. 

Sobre as redes sociais e o uso da tecnologia, eu acho que é uma parte super importante do filme que a gente acaba até falando pouco e que tem a ver com a questão de classes. Para a classe dos empregados, aquela ferramenta ali é uma ferramenta de trabalho. É um jeito deles venderem, negociarem... E para a outra classe é uma ferramenta de ostentação. Isso é um negócio que está subjacente no filme inteiro. Essas diferentes imagens das câmeras pela casa, como cada classe usa as redes sociais, aquela reunião com o advogado via Skype. Um monte de usos da imagem, e todos têm a ver com relações de poder. Todo mundo vigia todo mundo.

'Três Verões' fala sobre o que fazer quando tudo desmorona e até no próprio lançamento do filme estamos vivendo isso.

Você tem um histórico de trabalhar com atores não profissionais, mas também já trabalhou bastante com a Regina [Casé]. Ela ainda te surpreende?

A Regina me encanta. Isso vai além da surpresa. Eu não me canso de admirar o talento dela. Esse filme foi um processo de trabalho muito diferente para mim. Foi feito muito rápido. Sou uma pessoa que adora o processo, gosto de ter tempo para trabalhar. Mas era o jeito de fazer esse filme, e cada filme tem seu jeito de fazer. É legal a gente estar pronta para aceitar isso. No caso de Três Verões, ou fazia desse jeito ou eu nunca faria.

Além dos trabalhos que fizemos juntas na televisão, fiz um curta com ela em 1995 chamado Lá e Cá. Regina é uma parceira que eu conheço há muito tempo. Ela é o tipo de atriz que está em um lugar que é exatamente onde eu gosto de trabalhar, seja com um ator profissional ou não, que é aquele lugar onde você às vezes não tem nem certeza se está rodando ou não. É bem nessa fronteira. Ela não é uma atriz de composição. O que eu gosto no trabalho com ela é exatamente nesse lugar onde passa a ser o jeito de estar ali. Tá muito abstrato o que eu estou falando?  

Não. Acho que esse estilo de atuação fica muito evidente na cena em que a Madá está participando da propaganda do supermercado. Em que depois de tantas tentativas, ela deixa o roteiro de lado e dá um surpreendente depoimento pessoal...

Totalmente. Exato. Aquela cena sintetiza o que eu estou falando, que é a própria definição da ficção. O que é a ficção? É uma pessoa ter a coragem de se levantar e falar para um grupo de pessoas e essas pessoas acreditarem nela. De alguma maneira, isso produz uma coisa mágica que a gente pode chamar de ficção. E isso, de alguma maneira, tem a ver com coisas que eu fiz ao longo da minha vida profissional, com aquelas cabines que eu fiz nos anos 1980, 1990, com pessoas falando sozinhas para a câmera. É bem esse lugar que eu gosto de estar ao fazer um filme. Foi um trabalho bem diferente dos meus outros filmes, nos quais as pessoas não liam um roteiro, não sabiam direito para onde a gente estava indo, o que estava acontecendo. Enfim, foi um processo bem diferente.

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Como foi esse processo de ver o lançamento do seu filme no circuito cancelado poucos dias antes da data marcada e depois vê-lo ser lançado em drive-ins e plataformas de streaming?

Pensei em muita coisa nesse período em relação ao lançamento do filme. Ainda mais no nosso caso, em que tivemos de cancelar o lançamento seis dias antes da data marcada. Acho que por conta disso Três Verões será um filme emblemático, até um estudo de caso sobre o cinema na pandemia. E ainda temos outra particularidade, porque o o filme tinha sido lançado na França, teve de ser interrompido e voltou a entrar em cartaz quando reabriram os cinemas lá, em 91 salas, que era um número maior do que quando foi lançado pela primeira vez. O filme está em cartaz na Holanda e vai ser lançado agora na Espanha. Países que souberam lidar melhor com a pandemia.

Aqui no Brasil a gente está nessa situação que todos já sabem, né?! É muito difícil saber o que vai acontecer, mas como eu disse antes, Três Verões fala sobre o que fazer quando tudo desmorona e até no próprio lançamento do filme estamos vivendo isso [risos].

Sobre a questão do lançamento no drive-in e streaming, existem muitas maneiras de você ver um filme. É verdade que nenhuma delas é como a sala de cinema. Na sala de cinema você tem uma experiência que é ao mesmo tempo individual, que você sente que aquele filme foi feito para você, que está falando com você, e também coletiva, onde todo mundo ri ou chora ao mesmo tempo. Essa situação só existe na sala de cinema. É algo muito mágico.

Mas nesse momento isso não é possível e as outras maneiras também são legais. O negócio do drive-in é incrível. Uma coisa que eu lembro da minha infância. Foi uma ideia genial para lidar com esse momento surpreendente e inimaginável. E o streaming também cresceu. Tomou uma nova proporção. Quando você faz um filme, você quer que ele chegue no maior número de pessoas possível. Infelizmente a gente não está podendo fazer isso agora no cinema no Brasil, mas que bom que mesmo assim a gente ainda pode lançar.

Você pensa em fazer um filme que se passa nesse período da pandemia? 

Pior que eu penso. Esses meses todos foram meses que eu acabei escrevendo bastante porque era o que dava para fazer e eu gosto de falar do que está acontecendo. Dizem que a gente nunca deve fazer isso, mesmo com documentários. Que a gente deve manter distância, que você não deve falar das coisas quando elas estão acontecendo. Eu não obedeci essa regra. Quando estou fazendo um filme, eu gosto que sempre exista alguma coisa que seja maior que o filme ali presente e no caso de Três Verões a gente estava lidando com uma realidade que ainda estava acontecendo que foi muito rica porque estávamos constantemente dialogando com algo que era maior que o filme, que alimentava o filme e que, ao mesmo tempo, mantinha ele sempre vivo.

Quando a gente estava fazendo pesquisa de locação, aconteceram coisas, situações, às vezes uma conversa, que dialogavam diretamente com o roteiro e que as pessoas não tinham a menor ideia disso. Acho isso muito bom porque cinema é uma máquina grande e é muito fácil que aquilo se transforme em uma coisa fria e o meu trabalho é sempre tentar manter uma vida maior que a gente, sabe? Nesse sentido foi muito bom.

Aí aconteceu uma coisa que a própria realidade ultrapassou a gente. O filme se tornou um retrato do momento anterior às eleições de 2018. E quando você olha o filme agora, você vê que os sinais do que vinha pela frente estavam todos ali, e nós não enxergávamos.

Mas, para ser sincera, não sei direito como vai ser essa história passada na pandemia, que forma isso vai tomar, porque mesmo que eu goste de desobedecer essa regra, é complicado falar sobre alguma coisa que está acontecendo, que não está totalmente definida. Mas tenho vontade, sim.

Veja aqui as datas e locais de estreia de Três Verões:

São Paulo
De 3 a 7 de setembro (20h50) – Cinesystem Morumbi Drive-In
4 de setembro (23h) – Petra Belas Artes Drive-In
5 de setembro (18h) – Petra Belas Artes Drive-In
6 de setembro (18h30) – Sesc Parque Dom Pedro II Drive-In

Rio de Janeiro
De 3 a 7 de setembro (20h20) – Cinesystem Américas Drive-in
5 de setembro (19h) – Drive-In Lagoa
16 de setembro (horário ainda não definido) – Open Air Drive Air

Curitiba
07 de setembro (19h) – Drive-In Curitiba (Planeta Brasil)

Fortaleza
3 de setembro (21h) – Drive-in Imprensa
9 de setembro (21h) – Drive-in Imprensa 
15 de setembro (19h) – Drive-in Imprensa
29 de setembro (21h10) – Drive-in Imprensa

Maceió
3 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In
4 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In
5 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In
6 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In
8 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In
9 de setembro (18h15 e 20h15) – Cineart Pajuçara Drive-In

Nova Lima (MG)
1 de setembro (18h40) – Cineart Drive-In Alphaville *pré-estreia

Pinhais (PR)
11 de setembro (20h) – Drive-in Pinhais (Planeta Brasil Pinhais)

*A partir do dia 16 de setembro, o filme estreia no Telecine e para aluguel no Telecine Play.