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05/06/2020 03:00 -03 | Atualizado 05/06/2020 08:11 -03

O que já sabemos sobre possíveis tratamentos e vacinas para a covid-19

Cientistas estão desenvolvendo remédios para parar o coronavírus. Eis o que é promissor e o que não é, de infusões de plasma e anticorpos a hidroxicloroquina e mais.

A pandemia de coronavírus tornou-se um dado de nossas vidas, e todos aguardam um tratamento eficaz ou uma vacina que permita que a vida volte ao normal.

As especulações sobre quais medicamentos podem ser eficazes contra o vírus são constantes, mas as táticas iniciais para o tratamento foram baseadas principalmente em suposições dos cientistas. O “medo, a emoção e a angústia psicológica” dessa pandemia geraram muita discussão sobre medicamentos específicos antes mesmo da realização de testes clínicos, diz Dan Culver, pneumologista da Cleveland Clinic, que lidera a equipe avalia pesquisas sobre a covid-19.

“Parte da imprensa tentou andar mais rápido que a ciência, digamos assim”, diz Culver. “Acho que agora estamos vendo os problemas disso; as pessoas estão percebendo que é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. As coisas estão sendo feitas com um pouco mais de rigor e cautela.”

Ainda não sabemos que remédios serão eficazes para tratar a covid-19, mas há alguns nomes dos quais você provavelmente já ouviu falar – da cloroquina ao remdesivir ―, além de vários outros. 

Aqui, os especialistas descrevem o que sabemos e o que não sabemos até agora sobre os tratamentos para a doença causada pelo coronavírus.

Hidroxicloroquina

Inicialmente, alguns especialistas esperavam que a hidroxicloroquina fosse um tratamento para a covid-19. O medicamento possui propriedades antiinflamatórias e é usado no combate à malária e também em pacientes com doenças como artrite reumatoide e lúpus.

“É um remédio que possui alguma eficácia no laboratório, com um histórico muito longo de segurança e eficácia para doenças do tecido conjuntivo”, afirma Michael Dubé, professor de medicina e chefe interino de doenças infecciosas da faculdade de medicina da University of Southern California. “Graças à sua disponibilidade, desde muito cedo ele foi proposto como um tratamento para a covid-19.”

No entanto, até agora há “muito pouca evidência de eficácia e uma crescente acumulação de evidências de sua toxicidade”, alerta Dubé. A pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a hidroxicloroquina seja usada como tratamento para a covid-19 também levou à falta do remédio para as pessoas que precisam dele para tratar outras doenças, além de efeitos colaterais perigosos.

Em meados de maio, um estudo publicado na revista médica The Lancet sugeriu que os pacientes que tomaram hidroxicloroquina estavam morrendo mais e sofrendo mais problemas cardíacos do que aqueles que receberam outros tratamentos. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e líder da força-tarefa do coronavírus da Casa Branca, disse à CNN: “Os dados científicos são realmente bastante evidentes agora sobre pouca eficácia [da hidroxicloroquina]”.

O estudo da Lancet e a droga ainda estão sendo debatidos pelos pesquisadores. Parte do problema é que ainda não foi realizado um estudo clínico randomizado e controlado por placebo com o remédio, afirma Dubé. “Mas os sinais indicam que, pelo menos em pacientes doentes e hospitalizados, pode haver um risco maior de problemas cardíacos”, como arritmias, explica ele. 

Remdesivir

Desenvolvido pela empresa americana Gilead para tratar o ebola, o antiviral Remdesivir ainda está sendo testado contra o coronavírus.

Em 1º de maio, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) autorizou o uso emergencial do Remdesivir no país. 

A decisão foi baseada no principal ensaio clínico com a droga, coordenado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID). Dados preliminares publicados em abril mostraram que o uso da droga reduziu o número de diárias hospitalares em 31%, cerca de 4 dias. A pesquisa foi feita com um grupo de 1.063 pacientes: um grupo usando o remédio e outro, um placebo.

Desde então, houve uma pressão de médicos e de membros da comunidade científica para que os pesquisadores informassem dados mais sólidos sobre o experimento.

No fim de maio, o periódico científico The New England Journal of Medicine publicou um relatório preliminar que conclui que o Remdesivir foi superior ao placebo em reduzir o tempo de internação. Os pacientes que usaram o medicamento intravenoso se recuperaram em 11 dias. O outro grupo precisou de 15 dias.

Quanto a efeitos adversos, como insuficiência respiratória aguda, hipotensão, pneumonia viral e lesão renal, foram observados em 114 pacientes (21,1%) no grupo que usou a medicação e em 141 pacientes (27,0%) no grupo placebo. Apenas dois desses efeitos foram considerados pelos pesquisadores como causados pelo Remdesivir ou pelo placebo. A análise preliminar também não relaciona qualquer morte ao tratamento.

Tratamento de plasma ou anticorpos

Quem foi exposto ao coronavírus ou desenvolveu a covid-19 terá experimentado uma resposta imune, ou seja, desenvolveu anticorpos que podem protegê-lo contra novas infecções. 

Esses anticorpos desenvolvidos pelas pessoas podem ser “infundidos passivamente em pacientes infectados” na forma de plasma convalescente (também conhecido como parte líquida do sangue) para “aumentar ou reforçar” a própria resposta imune do paciente, explica Culver. “Essa é uma ideia que existe desde a pandemia de gripe espanhola há mais de 100 anos.”

A esperança é que os anticorpos “neutralizem o vírus e impeçam sua replicação”, de acordo com Dubé. “Provavelmente, essa terapia terá mais chances se for adotada de forma preventiva, bloqueando o vírus antes que ele tenha a chance de se estabelecer no organismo.”

Uma desvantagem? “A presença de anticorpos pode piorar a doença, um fenômeno conhecido como ‘aprimoramento dependente de anticorpos’, diz Dubé. “Mas a esperança é que o plasma usado tenha anticorpos que neutralizem o vírus sem ter o potencial de agravar a infecção viral.”

Ainda é difícil determinar a eficácia do plasma convalescente, já que a maioria dos estudos até agora apresentou resultados inconclusivos, diz Culver. 

“Ainda não sabemos como avaliar direito anticorpos”, afirma ele. “Será que o doador terá um plasma que realmente vai garantir imunidade ao receptor? Ou o plasma será pouco eficaz? Realmente não sabemos.”

A maioria dos pacientes americanos que passa por esse tratamento faz parte de um programa experimental da Mayo Clinic.

“O medicamento é bem tolerado, e a incidência de efeitos colaterais é baixa, embora não se saiba o quanto ele será útil”, observa Culver. Dito isso, ele incentiva as pessoas que já tiveram covid-19 a entrar em contato com bancos de sangue para saber se devem doar plasma.

NADIA_BORMOTOVA VIA GETTY IMAGES

Vitamina C

Também há relatos de administração de altas doses de vitamina C por via intravenosa em pacientes hospitalizados doentes com covid-19.

“Existem alguns dados indicando que ela aumenta a função imunológica e muitos dados apontando para suas propriedades antioxidantes”, diz Culver. “Por isso, é claro que a vitamina C foi proposta como tratamento para infecções e várias condições inflamatórias. Em muitos casos, não funcionou, ou os benefícios foram marginais. Mas certamente acho que pode haver alguma chance de que ela seja útil.”

Culver afirma que a vitamina C pode “reduzir ou atenuar o vírus em vez de curá-lo ― mas para muitos pacientes talvez isso seja suficiente”, diz ele. “Na Cleveland Clinic, estamos fazendo um teste de vitamina C, zinco e uma combinação dos dois, em pacientes que têm covid mas não foram internados. O zinco tem dados um pouco melhores, especialmente na gripe.”

Mas ele afirma que não recomendaria vitamina C ou zinco como prevenção. “As doses necessárias são bem altas” e devem ser administradas no hospital.

Vacina da Moderna

Culver diz que existem cerca de 100 vacinas atualmente em teste para uso contra a covid-19. No momento, porém, a vacina de RNA da Moderna é a mais comentada.

“A vacina da Moderna mostrou em um número muito pequeno de pacientes que pode gerar anticorpos”, diz ele. “Mas isso está muito longe de provar que a vacina funciona na população como um todo e também está longe de provar que os anticorpos realmente protegem os pacientes contra infecções.”

Os próximos passos, para Moderna e para as outras empresas e instituições que buscam uma vacina, é demonstrar que a vacinação cria anticorpos em um amplo espectro de pessoas, “incluindo pacientes idosos ― que não são bem estudados, mas correm o maior risco ― e então provar que isso realmente protege as pessoas da infecção”, afirma Culver.

“Isso exigirá testes mais longos e amplos, com muito mais pacientes, e a avaliação desses testes não deve acontecer ainda este ano. Com muita sorte, isso vai acontecer na primeira metade de 2021.”

Para acelerar a inovação, os pesquisadores estão lançando uma série de novas tecnologias de vacinas para a covid-19. Um exemplo são as vacinas que usam partes da proteína de pico do vírus (os “espinhos” que você vê nos desenhos que ilustram o vírus).

Alguns cientistas estão trabalhando em vacinas que escondem partes do vírus em outro vírus não-infeccioso ― chamado adenovírus ―, usado como um “cavalo de Troia”, diz Culver. O pico da proteína pode ser a única parte do coronavírus introduzida no organismo, o que poderia iniciar a resposta do sistema imunológico. 

O Instituto Jenner, da Universidade de Oxford  – que, como a Moderna, vem sendo apontado como um dos mais avançados na corrida da vacina ― está trabalhando em uma estratégia diferente. As outras duas grandes categorias de vacinas envolvem DNA e RNA – nesses casos, não se introduz o próprio vírus no organismo, mas sim seu material genético.

A vacina de Oxford será testada em 2.000 brasileiros. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o estudo clínico por aqui.

Outras ideias de tratamento

Existem vários tratamentos sendo estudados. Dubé menciona um remédio chamado Kaletra, com base em um estudo publicado no New England Journal of Medicine.

“O Kaletra é um medicamento para o HIV que existe há mais de uma década e parece ter atividade contra o coronavírus no laboratório”, diz ele. “O estudo com o Kaletra foi amplamente noticiado como negativo, mas não foi o caso. Na verdade, houve mais melhorias clínicas com o Kaletra e uma redução de 4 a 5 dias na estadia na UTI.”

Dubé, que não estava envolvido com o estudo, acrescentou que o medicamento é amplamente disponível e pode ser administrado por via oral, em vez de por via intravenosa.

Outros tratamentos são menos direcionados ao vírus e mais controlados pela resposta imune esmagadora observada em alguns pacientes muito doentes – um fenômenos conhecido como tempestade de citocinas.

“Você meio que pode combinar a estratégia de controlar o vírus com o antiviral, além de tentar controlar a resposta inflamatória com intervenção antiinflamatória”, afirma Dubé. “Os dados mais maduros no momento são com tocilizumab. Trata-se de um antiinflamatório muito promissor que pode interromper a inflamação excessiva observada em pacientes com casos graves de covid-19.

A equipe de Dubé na USC também está investigando os efeitos do medicamento baricitinibe contra o covid-19, que pode funcionar de maneira semelhante para conter a reação exagerada do sistema imunológico. 

Dubé não acredita que haverá uma cura milagrosa para a covid-19. “É improvável que encontremos uma única intervenção antiviral suficiente para evitar intubações ou mortes”, diz ele. “O maior impacto para as pessoas gravemente doentes virá da combinação de remédios que agem contra o vírus e mantêm o sistema imunológico sob controle.”

 *Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.