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20/07/2020 06:00 -03 | Atualizado 20/07/2020 08:23 -03

5 meses de covid-19 no Brasil: O que pesquisadores descobriram sobre tratamentos até agora

Terapia combinada de mais de um medicamento pode ser saída mais promissora para a doença, segundo cientistas.

Enquanto a onda de respostas milagrosas para tratar a covid-19 toma conta das redes sociais e de algumas receitas médicas nos últimos meses, os desafios persistem entre pesquisadores que buscam uma resposta científica para combater o novo coronavírus. Os avanços têm se concentrado no enfrentamento à fase mais grave da doença, e a tendência é que a terapia combinada de mais de um medicamento seja a saída mais promissora, de acordo com cientistas ouvidos pelo HuffPost.

A principal iniciativa global de medicamentos para o SARS-CoV-2 é o estudo Solidariedade, lançado em março pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em diversos países e coordenado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Brasil.

À frente da pesquisa, o vice-diretor de Serviços Clínicos da instituição, Estevão Portela, afirma que “aparentemente existe um espectro da doença em que nos primeiros dias talvez o antiviral seja mais importante e depois o agente mais importante sejam os anti-inflamatórios”.

A covid-19 é uma doença sistêmica, que afeta vários órgãos. A presença do vírus desencadeia a chamada “tempestade de citocinas”, uma resposta imunológica do próprio corpo que, se for descontrolada, pode acabar agravando o quadro. Nessa etapa, medicamentos como a dexametasona, um tipo de corticoide, têm se mostrado eficazes. 

Um remédio para covid-19

Quando surge um novo vírus, é comum que se adote uma estratégia chamada “reposicionamento de fármaco”, que consiste em testar drogas já existentes para tratar a nova doença, a fim de ter respostas mais rápidas e com custo menor. “Isso esbarra em dois problemas. Primeiro o fato de que não são medicamentos desenvolvidos especificamente para esse vírus. Segundo que historicamente sempre sofremos derrotas para tratamentos específicos de doenças virais agudas”, afirma Portela. Ele cita o sarampo e o ebola como exemplos.

De acordo com o infectologista, isso acontece porque quando o paciente começa a desenvolver sintomas mais fortes, “o vírus já está caindo, já está entrando em uma fase mais inflamatória do processo, com menos replicação viral e mais resposta inflamatória”. Por esse motivo, a terapia combinada pode ser a resposta ideal. “Provavelmente o que vai acabar sendo desenvolvido são combinações de agente antiviral com anti-inflamatório”, afirma.

Portela ressalta, contudo, que é difícil cravar exatamente o momento em que essa divisão ocorre e que ainda há inconsistências sobre ação de remédios no início. “Nos primeiros dias, se o paciente está muito bem, é difícil que um antiviral vá conseguir mostrar um grande benefício. A maior parte desse tipo de paciente evoluiu bem com ou sem o remédio, e a gente precisa de um estudo muito grande para tentar mostrar algum benefício”, explica.

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A principal iniciativa global de medicamentos para o SARS-CoV-2 é o estudo Solidariedade, lançado em março pela OMS em diversos países e coordenado pela Fiocruz no Brasil.  

O estudo Solidariedade 

Iniciado com 4 braços - cloroquina ou hidroxicloroquina, remdesivir, lopinavir e interferon -, o estudo Solidariedade continua com apenas 2 medicamentos: interferon e remdesivir. Os outros foram considerados ineficazes e/ou provocaram graves efeitos colaterais, de acordo com pesquisas validadas pelo meio científico.

No Brasil, pacientes de hospitais selecionados são divididos entre um grupo que recebe o medicamento e outro que não recebe medicação específica para o SARS-CoV-2. ”É um estudo simples do ponto de vista metodológico. O que ele quer ver é desfecho de morte ou alta [hospitalar]. Não é desenhado para nenhuma aprovação em bula de medicação no Brasil. Quando isso acontece, o estudo tem que ser mais complexo, precisa ter dados para colocar na bula”, explica Portela.

Não há previsão de data para finalizar a pesquisa porque depende do ritmo de inclusão de pacientes. Fora os antivirais testados pelo Solidariedade, o pesquisador lembra que anti-inflamatórios estão sendo pesquisados, mas é preciso respeitar o ritmo do método científico.

“A gente precisa dar tempo para a ciência, que é uma coisa que não se deu. Ficou sempre correndo atrás de estudos inadequados, sem grupo de controle adequado, com número de pessoas insuficiente. Isso acabou fazendo que várias estratégias de tratamento demorassem a apresentar algum tipo de resultado negativo ou positivo confiável porque os estudos eram metodologicamente muito apressados. A gente realmente tem que dar tempo para conseguir chegar a resultados confiáveis”, argumenta o infectologista.

A gente precisa dar tempo para a ciência, que é uma coisa que não se deu.Estevão Portela, da Fiocruz

Ministério da Saúde e prefeitos na contramão da ciência

O Ministério da Saúde resolveu abrir mão da comprovação científica ao definir o protocolo de tratamento para covid-19 no SUS (Sistema Única do Saúde). A pasta recomenda o uso da cloroquina com azitromicina (antibiótico) ou de sulfato de hidroxicloroquina com azitromicina mesmo para casos leves. Além de não ter se provado eficaz, a cloroquina aumenta o risco cardíaco. Já foram entregues 4,3 milhões de comprimidos pelo Brasil, de acordo com o governo federal.

Na última sexta-feira (17), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou uma nota reforçando a necessidade do fim do incentivo ao uso da cloroquina e hidroxicloroquina. “É urgente e necessário que os agentes públicos, incluindo municípios, estados e Ministério da Saúde reavaliem suas orientações de tratamento, não gastando dinheiro público em tratamentos que são comprovadamente ineficazes e que podem causar efeitos colaterais”, diz o texto.

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O Ministério da Saúde resolveu abrir mão da comprovação científica ao definir o protocolo de tratamento para covid-19 no SUS. A pasta recomenda o uso da cloroquina.

Questionado sobre os critérios adotados pelo ministério, o pesquisador da Fiocruz afirmou que “para que as nossas estratégias ganhem a força da ciência, elas precisam ser embasadas pela metodologia científica adequada”.

“A Medicina avançou nos últimos 30, 40 anos quando a gente passou a ser mais criterioso em relação à literatura médica, à metodologia dos estudos publicados. As práticas se tornaram mais baseadas em evidências científicas concretas do que simplesmente na experiência. Experiência é muito difícil. Posso falar que tratei 15 pessoas no meu consultório com a droga X e todas ficaram bem, mas quantas ficariam se não tivessem usado o remédio?”, completa Portela.

Ivermectina: do piolho ao SARS-CoV-2

Na esfera municipal, prefeitos têm repetido a conduta do governo federal. A distribuição da ivermectina, antiparasitário usado principalmente para tratar piolho, tem se multiplicado pelas cidades, embora não haja comprovação científica de eficácia para prevenir ou tratar o novo coronavírus.

Além de não ser eficaz, a ivermectina pode trazer riscos à saúde. Tanto a dosagem alta quanto a interação com outros medicamentos pode trazer malefícios ao paciente. Os chamados “kits covid”, distribuídos por algumas prefeituras, incluem ivermectina, além da azitromicina, dipirona e cloroquina.

“As pessoas usam medicamento como se só fosse benéfico. É benéfico, mas tem efeitos adversos. Sempre que um médico dá um medicamento, ele avalia o risco e o benefício. O benefício tem que ser maior que o risco”, afirma Sandra Farsky, vice-presidente da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas. 

Professora da Faculdade Ciências Farmacêuticas da USP, ela explica que os medicamentos precisam atingir uma concentração específica no sangue para atingirem eficácia, mas sem provocar toxicidade. “A toxicologia é uma ciência que a gente aprende muito em cima das coisas que dão errado, por exemplo, a talidomida. As crianças tiveram essa gravidade imensa de má formação porque as mulheres começaram a tomar a talidomida para evitar enjoo. A toxicologia a gente descobre infelizmente em cima da tragédias. Nada é inócuo”, afirma.

A toxicologia a gente descobre infelizmente em cima da tragédias. Nada é inócuo.Sandra Farsky, da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas

Criada para ser um ansiolítico, a talidomida ficou conhecida na Alemanha na década de 1950. Como um efeito colateral do remédio era tirar enjoo, o fármaco passou a ser usado por grávidas. Em 1959, um jornal alemão informou que 161 bebês haviam sido afetados e o medicamento foi banido do mercado europeu nos anos seguintes.

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A distribuição da ivermectina, antiparasitário usado principalmente para tratar piolho, tem se multiplicado pelas cidades, embora não haja comprovação científica de eficácia para prevenir ou tratar o novo coronavírus.  

No caso da ivermectina, o uso na pandemia ganhou força ainda em abril, com a publicação de um estudo na Antiviral Research que indicou que o fármaco foi capaz de inibir a replicação do SARS-CoV-2 in vitro (em laboratório). Os pesquisadores alertaram, porém, que, para ter efeito em humanos, a dose teria de ser 10 vezes maior.

Dos resultados na bancada de laboratório até os seres humanos o caminho é longo. “Você partir de usar um medicamento a partir de um estudo in vitro não é científico. Não é ético”, afirma Farsky. “Vai do in vitro para a célula isolada; para depois sistemas in vitro mais complexos, que são tecidos com várias células juntas; depois vai para animal de experimentação, de toxicidade e eficácia; e depois vai para o estudo clínico”, explica.

Um dos ensaios clínicos da ivermectina no Brasil, conduzido pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) com 64 pacientes só terá resultados em 2021.

De acordo com relatório mais recente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), publicado em 14 de julho, há 142 estudos experimentais ou intervencionais relacionados à covid-19 no Brasil. Desse total, 52 são de medicamentos, 23 com plasma convalescente ou técnicas semelhantes e 25 com alternativas, como o uso de células-tronco.

Plasma de convalescentes

A terapia com plasma de convalescente consiste em fazer uma transfusão do plasma (parte líquida do sangue) de pessoas que tiveram covid-19 e se recuperaram para pessoa com a doença ativa. “A ideia é pegar quem supostamente tem anticorpos para dar para quem está com a doença e atacar mais eficientemente o vírus”, explica José Mauro Kutner, hematologista do hospital Albert Einstein e integrante de um grupo de pesquisa sobre o tema.

Desde março, 60 pacientes do Albert Einstein e do Hospital Sírio Libanês com covid-19 confirmada e quadro de insuficiência respiratória relevante participaram do estudo, que ainda não foi concluído. Outras 60 pessoas devem ser incluídas.

De acordo com o pesquisador, há fatores que dificultam a análise estatística de dados já coletados. ”É muito complexa porque tem muito fator ‘confundidor’. Alguns usaram cloroquina, outros não. Tem gente fazendo de tudo e você precisa ir separando em subgrupos para tentar comparar o máximo possível. Senão, você corre o risco de comparar laranja com banana”, afirma.

Nessa análise estatística, os pesquisadores comparam pacientes que tomaram plasma com um grupo de controle. “A gente precisa fazer o pareamento, que é pegar pacientes com mesma idade, sexo, tempo de doença, tempo de UTI. Isso tudo é extremamente trabalhoso. Não tem um programa que faça isso para gente”, completa Kutner.

Também está sendo feito um segundo estudo com plasma de convalescente mais amplo liderado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Ainda não há conclusões sobre a pesquisa, que prevê análise de 120 casos em todos hospitais envolvidos. 

Questionado se a opção é promissora, o médico afirma que ajuda, mas que “o plasma não está parecendo ser a bala de prata”, de acordo com estudos que têm sido publicados em outros países.

Algumas das variáveis são o momento ideal de dar o plasma e a quantidade mínima de anticorpos necessária, além de incertezas sobre como funciona a imunidade para covid-19. “Dependendo da evolução imunológica das pessoas, o uso do plasma pode ir para um lado ou para o outro”, afirma.

A ciência está fazendo em 6 meses o que se faz em 6 anos e isso traz uma série de dúvidas, desafios e às vezes inconsistência nas respostas.Mauro Kutner, do hospital Albert Einstein

O pesquisador também participa de uma pesquisa com células mesenquimais, um tipo de célula-tronco, mas que ainda não foi iniciada. “A célula mesenquimal não é tão usada, não se tem muita certeza do tanto de benefícios e de prejuízos dela, então o protocolo é muito mais restrito do que o de plasma e a gente reservou para usar em pacientes mais graves”, afirmou.

De acordo com Kutner, ou os doentes não estavam graves o suficiente para se enquadrar ou já estavam mais graves ou a família não quis que participassem do estudo. Outro possível entrave para essa opção é o tempo e o custo. Cada dose demora ao menos 20 dias para ficar pronta e custa até R$ 100 mil.

Sobre a cura para covid-19, o hematologista pondera. “Está todo mundo tentando encontrar alguma forma de aliviar essa situação, mas a ciência está fazendo em 6 meses o que se faz em 6 anos, e isso traz uma série de dúvidas, desafios e às vezes inconsistência nas respostas. Nós todos queremos resultados rápidos, mas às vezes isso traz inconsistências nas respostas. É isso que a gente está vendo.”