Para cada brasileiro com covid-19, haverá outros 40 com doenças psiquiátricas por conta da pandemia

Não sabemos quantas pessoas vão pegar o vírus. Não sabemos quantas vão morrer. O que sabemos é que, além da nossa saúde física, nossa saúde mental está em perigo.
Além da saúde física, pandemia e quarentena podem prejudicar sanidade mental de 25 milhões de brasileiros.
Além da saúde física, pandemia e quarentena podem prejudicar sanidade mental de 25 milhões de brasileiros.

A conta é simples.

Até o momento, nenhum país controlou com sucesso a pandemia do novo coronavírus, à exceção da China. Então peguemos a Itália, por exemplo. Lá a pandemia parece dar sinais de estar arrefecendo. Para uma população de 60 milhões de habitantes, até o dia de hoje (9 de maio) temos mais de 217 mil contaminados por covid-19. Neste momento, em que o número de infectados e de mortes pelo vírus decresce a cada dia, o contágio ocorreu em 0,3% da população italiana (na Alemanha, onde a queda está mais adiantada e onde se fala de um controle exemplar da infecção, esse número é de 0,2%).

No Brasil de hoje estamos atingindo 145 mil infectados. Se seguirmos a proporção da Itália, até começarmos a estabilizar a doença teremos no mínimo 630 mil casos de covid-19 na população — 0,3% de 210 milhões.

Pois bem, agora do lado da saúde mental. Na medicina de desastres, entende-se por desastres eventos de grandes proporções (terremotos, maremotos, surtos de doenças, grandes incêndios) que afetam profundamente o funcionamento de uma sociedade, gerando sérias consequências econômicas, sociais e sanitárias. E um dos reflexos graves dessas ocorrências são as doenças mentais que se seguem: estudos estimam que a prevalência de doenças mentais aumenta em até 40%.

Vamos agora aos números: pesquisa realizada na cidade de São Paulo há alguns anos observou que 30% da população tinha transtornos mentais. Se expandirmos essa proporção para o Brasil, que tem 210 milhões de habitantes, destes, 63 milhões teriam transtornos psíquicos. Se houver um aumento de 40% por conta da pandemia, seriam 25 milhões de pessoas a mais.

Desta forma: para 630 mil casos de covid-19 no Brasil, teríamos 25 milhões de pessoas com transtornos mentais gerados por conta dessa catástrofe. Uma proporção de 1/40. Ou seja: para cada pessoa contaminada por COVID-19, teríamos outras 40 com doenças mentais causadas pela pandemia.

Há diversas ressalvas para essas contas: não dá pra esperar que o resto do país se comporte como São Paulo; não dá para saber ao certo quantas pessoas vão pegar covid; não dá para saber se teremos uma resiliência maior ou menor a desastres do que o reportado no estudo. Enfim: não dá para prever o futuro.

Mas, mesmo que o número seja uma estimativa grosseira, ele impressiona.

Isso já entrou em pauta em diversas discussões, privadas e públicas. Qual o ônus real do vírus? Certamente não são só os que perdem a vida para a doença. Qual o custo da quarentena? Qual o custo do isolamento social? Qual o custo econômico, e de saúde mental?

Permeiam aí questões morais delicadas: realizar um lockdown sério, prolongar a quarentena e expor as pessoas à penúria econômica e a sérios problemas mentais? Ou deixar pessoas morrerem por falta de leitos de UTI?

Não há balança para isso. Depressão, ansiedade, a gente trata. A morte, não.

Não sabemos quantas pessoas vão pegar o vírus. Não sabemos quantas vão morrer. O que sabemos é que, além da nossa saúde física, nossa saúde mental está em perigo.

Que possamos dar o melhor de nós em casa com as nossas famílias para ficarmos sãos. Pois outra coisa também sabemos: que isso tudo uma hora vai passar.

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