LGBT
06/08/2019 06:00 -03

O que eu gostaria que tivessem me contado sobre fazer uma mastectomia dupla

A manhã seguinte à cirurgia, quando o médico tirou as bandagens e mostrou o resultado, não foi o momento memorável que eu estava esperando.

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Jameson Hampton, autor do texto.

Para quem passa por uma transição de gênero, alguns momentos são verdadeiramente marcantes.

Lembro de quando, há cinco anos, decidi mudar meu nome para Jamey. Lembro que, sete meses depois, minha mãe usou o nome que escolhi. E outros quatro meses se passaram até eu ver o nome na minha carteira de motorista. Em 2015, minha parceira me deu um cartão que guardo com carinho até hoje; ele dizia: “Feliz aniversário para meu namorado maravilhoso”. E, no verão do ano passado, estava me preparando para um outro grande momento: ver meu peitoral depois de passar por uma mastectomia dupla.

Essa cirurgia é parte da transição para trans masculinos, como eu. É definitivamente um investimento – a cirurgia é invasiva e, se você tiver de pagar do próprio bolso, não sai por menos de 10.000 dólares (cerca de 40 mil reais). Por sorte, mais planos de saúde estão passando a cobrir pelo menos parte dos custos médicos da transição nos Estados Unidos. Minha operação foi coberta pelo meu seguro.

A mastectomia dupla pode parecer uma necessidade para quem sente disforia de gênero na região do peito, tanto pelas sensações e também pela percepção que ela induz nas outras pessoas. Eu usava uma cinta, mas esse método não é sustentável a longo prazo por razões de saúde. Em 2015, tive pleurisia, uma inflamação do tecido, por causa do uso da cinta. Queria sentir-me livre, tanto da disforia quanto do fardo de usar a cinta.

Mas a manhã seguinte à cirurgia, quando o médico tirou as bandagens e mostrou o resultado, não foi o momento memorável que eu estava esperando.

Sabia que tinha de fazer a operação havia quatro anos, e há um ano estava na lista de espera do cirurgião. Mas toda a espera do mundo não me deixou menos nervoso. Nunca tinha passado por uma cirurgia tão importante; nem sabia como era ser anestesiado. Além disso, estou sempre achando coisas para fazer, e a ideia de passar o verão quase inteiro de cama, durante a recuperação, estava me enlouquecendo. Mas meus amigos me apoiaram, e a ideia de finalmente poder pular na água sem ter de segurar seios indesejados foi o suficiente para me manter otimista conforme o dia se aproximava. 

Conversei com várias pessoas trans que passaram pela mesma experiência. Me recitaram vários fatos médicos – quanto tempo teria de ficar em repouso, como manter os curativos limpos, que tipo de movimento evitar – bem como falaram do alívio que seria estar livre deles. Mas a manhã seguinte à cirurgia, quando o médico tirou as bandagens e mostrou o resultado, não foi o momento memorável que eu estava esperando.

Eu esperava curtir cada segundo do momento em que finalmente olhasse para mim e visse o que sempre quis. Mas eu estava meio tonto e sentindo dores – o que só piorou quando tiraram as bandagens. As cicatrizes estavam pronunciadas, e eu sentia tanta angústia que aquele momento especial nunca aconteceu – eu nem sequer tive a presença de espírito de olhar para o meu novo peitoral.

O médico fez fotos para que eu pudesse olhar quando me sentisse pronto, e disse: “Vi centenas, talvez milhares de peitos depois da cirurgia, e o seu ficou ótimo. Acredite, quando você estiver se sentindo melhor vai ficar muito contente com o resultado”.

Eu esperava curtir cada segundo do momento em que finalmente olhasse para o meu peito e visse o que sempre quis.

Nos dias e semanas depois da operação, pensei nessa conversa quase obsessivamente. Estava com medo de não estar cicatrizando direito. Por que me sentia tão... Mal? A recomendação era manter a área protegida com bandagens de compressão durante um mês e meio, mas estava preocupado de nunca ter vontade de tirá-las.

A ideia da compressão, segundo o que me explicaram, era evitar que houvesse acúmulo de líquidos sob a pele, o que impediria que meu peito ficasse liso. Mas as bandagens me lembravam a cinta que eu usei durante quatro anos. Odiava ter de trocá-las – era tudo novo e esquisito e me sentia exposto como nunca antes. Apertava as bandagens com tanta força que ficava meio tonto e quase desmaiava na hora de tirá-las, o que só piorava as coisas.

O médico recomendou conferir a cicatrização uma vez por dia, para identificar sinais de possível infecção. Em vez de pontos, usaram cola cirúrgica, o que significava que eu podia tomar banho desde o primeiro dia de volta para casa. Mas demorei quase duas semanas para me sentir à vontade o suficiente para tomar banho direito.

O desconforto físico e aquela novidade, aquela esquisitice foram emocionalmente brutais. (No fim das contas, a vontade de tomar um banho decente se sobrepujou à minha ansiedade.) 

Além disso, eu sentia um comichão no lugar onde ficavam os mamilos, apesar de ter optado por não mantê-los na operação. Liguei (de novo) para o consultório do meu médico e fiquei surpreso ao ouvir que estava sentindo uma espécie de síndrome do membro fantasma.

“Você tem várias terminações nervosas que estavam conectadas aos mamilos e que agora meio que vão para lugar nenhum”, me disseram. “Então é claro que a sensação é esquisita.” Me senti uma bizarrice médica e pensei: se era um sintoma normal da recuperação, por que estava ouvindo falar daquilo somente agora?

Eu tinha visto várias fotos de pessoas trans olhando para seus novos peitorais depois da operação. Nenhum deles parecia comigo: desorientado, angustiado, sentindo dor. O que estava errado comigo? Se isso era normal, por que não tinham me avisado?

Ser sincero com nossos sentimentos não nos torna menos masculinos, e as dificuldades da transição não nos tornam menos trans.

Mesmo quando me sentia mal, não achava que tinha tomado a decisão errada ou que me arrependeria de ter feito a cirurgia. Mas estava apavorado de dizer qualquer coisa que pudesse fazer as pessoas, até mesmo meus amigos, acharem que eu tinha arrependimentos. Sabia que tinha sorte de ter tantas pessoas do meu lado, mas parecia que todo mundo com quem conversava queria me parabenizar e perguntar como eu estava.

“Você não se sente ótimo agora que finalmente fez a sua cirurgia?” Parecia que se eu falasse de problemas, estaria minando minha identidade trans. Talvez até estivesse fazendo algum tipo de desserviço à comunidade trans como um todo, dando credibilidade ao “arrependimento trans”. Não imaginava que fosse me sentir tão solitário.

Felizmente, o tempo cura as feridas físicas. Conforme fui melhorando, ficava cada vez mais claro que meu corpo não se sentia mal porque eu havia feito a escolha errada ou porque estava errado a respeito – a sensação tinha a ver com a recuperação de uma cirurgia importante, é óbvio. Mais ou menos na metade do meu período de recuperação, pude me levantar e caminhar, embora com mais cuidado do que o normal.

Meus amigos fizeram uma festa surpresa para mim em um drive in. Provavelmente foi a primeira vez em que pude dizer honestamente que estava me sentindo muito bem. E depois as coisas só melhoraram. Por volta das sete semanas, finalmente abandonei as bandagens – e me senti mais parecido comigo do que há muito tempo, ou talvez na minha vida inteira.

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O autor com seus amigos em sua festa surpresa.

No final, a cirurgia foi uma das melhores coisas que já fiz. Agora, um ano depois, as lembranças de como era difícil lidar com isso estão se tornando mais distantes. Coisas como ir à praia, que costumavam envolver dor e ansiedade, agora parecem divertidas e empolgantes. Estou muito mais livre agora do que antes.

Mas a cirurgia em si também foi uma experiência difícil, ainda mais porque eu não estava preparado para isso. Meus amigos trans contaram histórias de como foi ruim o período de recuperação, de como eles dependiam dos outros para tudo, mas ninguém nunca falou das sensações ruins. Agora entendo o porquê; também me senti muito vulnerável!

Vivemos numa sociedade em que os trans precisam implorar por respeito. Quando sabemos que se afastar da típica narrativa trans fará que algumas pessoas questionem nossa credibilidade, não sobra muito espaço para sermos honestos sobre nossas experiências. Mesmo dentro da comunidade LGBT, algumas pessoas estão sempre prontas para afirmar que outras pessoas “não são trans o suficiente”.

Mas saber que eu não era o único teria facilitado muito a minha recuperação. Nós merecemos o espaço para podermos falar das nossas experiências: ser sincero com nossos sentimentos não nos torna menos masculinos, e as dificuldades da transição não nos tornam menos trans.

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O autor do texto.