Como transformar um conhecido em um bom amigo

Fazer novos amigos depois de adultos exige um certo esforço.

Antes da pandemia, costumava encontrar a mesma garota toda manhã de sábado numa aula da minha academia. Fazíamos alguns exercícios em par e trocamos cumprimentos. Começamos a nos cumprimentar com um “oi” e a conversar um pouco quando nos víamos. Ela parecia legal, e pensei em convidá-la para tomar um café depois da aula. Mas desisti – achei ia parecer esquisito.

Quem é adulto sabe como é difícil fazer novos amigos próximos. Uma explicação, diz o psicólogo David Narang, de Los Angeles, é que as pessoas esperam que esses vínculos se formem sem esforço, como acontecia quando éramos mais jovens.

“Na infância e muitas vezes no início da idade adulta, estamos todos os dias junto com o mesmo grupo de pessoas na escola, com bastante tempo não-estruturado disponível para conversar e criar essas amizades”, afirma ao HuffPost Narang, autor de Leaving Loneliness (deixando a solidão para trás, em tradução livre). “Essa repetição nos dá a chance de examinar uns aos outros ao longo do tempo e nos permite nos aproximar naturalmente daqueles com quem nos sentimos à vontade.”

Conforme vamos envelhecendo, essas oportunidades orgânicas ficam muito mais raras. Em vez ficar esperando que uma nova amizade incrível caia em nosso colo, temos de fazer um pouco de esforço.

Existe algum conhecido em sua vida que você acha que poderia virar um grande amigo? Temos alguns conselhos úteis, referendados por especialistas, para te ajudar.

Marque um encontro fora do lugar onde você normalmente vê essa pessoa

Se for um conhecido da aula de ioga, por exemplo, pergunte se ele quer tomar um brunch. Se for um amigo do Instagram com quem você andou trocando mensagens, convide-o para almoçar. A ideia é interagir com as pessoas em outros contextos, afirma a psicóloga e especialista em amizade Marisa G. Franco.

“No fim das contas, a proximidade da amizade está relacionada a quanto mais lados de nós mesmos revelamos um ao outro”, diz Franco. “Mudar os ambientes em que interagimos nos permite trazer à tona esses outros lados.”

“No fim das contas, a proximidade da amizade está relacionada a quanto mais lados de nós mesmos revelamos um ao outro”

- Marisa G. Franco, psicóloga e especialista em amizade

Você pode pensar nisso como “replantar” as amizades casuais. Assim como uma planta requer um vaso maior para continuar crescendo, o mesmo acontece com uma amizade que está se formando.

“Às vezes você vê uma pessoa todos os dias no trabalho, mas o vaso é muito pequeno”, disse o pesquisador Ryan Hubbard à revista The Atlantic. “Ela vai atingir o limite daquele vaso, e é isso. Para uma amizade maior e mais profunda, você precisa replantá-la. Você pode precisar trazê-los para sua casa. Ou então convidá-los para conhecer sua família – um vaso ainda maior.”

Uma alternativa - convide-os para uma atividade em grupo

Se você ainda não está pronto para um encontro a dois, comece convidando o conhecido para juntar-se a você e outros em um pequeno grupo.

<i>Sair com o conhecido em um pequeno grupo pode ser uma &oacute;tima maneira de quebrar o gelo.</i>
Sair com o conhecido em um pequeno grupo pode ser uma ótima maneira de quebrar o gelo.

“Pense em algo divertido, como um jantar, uma sessão de Zoom para trocar vídeos de YouTube ou até mesmo um happy hour”, diz Narang. “Se tudo correr bem, reúna o grupo novamente quando tiver passado tempo suficiente para que todos estejam com vontade de repetir a dose.”

À medida que você vai conhecendo melhor essa pessoa com, fica mais fácil marcar um encontro a dois.

Mantenha regularidade

“Interagir regularmente é a forma como construir e manter relacionamentos”, afirma Franco. “Isso se deve, em parte, a um fenômeno psicológico denominado ‘efeito da mera exposição’, ou seja, temos a tendência de gostar mais das pessoas à medida que as conhecemos melhor.”

Uma boa ideia é criar algum tipo de rotina, como levar seus cachorros para passear todo fim de semana ou se encontrar num clube do livro virtual duas vezes por mês.

Encontre pequenas maneiras de mostrar que você os apoia

“As pessoas muitas vezes pensam que é necessário ser interessante, inteligente ou engraçado para fazer novos amigos, mas na verdade o mais importante é fazer os outros se sentirem valorizados e amados”, diz Franco. “Elogiar, apoiar, empolgar-se com as realizações, demonstrar gratidão – tudo isso é essencial para aprofundar os laços. Sempre que você tiver um pensamento positivo sobre um amigo, certifique-se de transmiti-lo.”

Abra-se gradualmente

Criamos relacionamentos significativos e gratificantes sendo vulneráveis – correndo riscos emocionais e sendo sinceros a respeito de nossos medos, inseguranças, dificuldades e erros.

“Embora tenhamos a tendência de pensar que isso assusta, as pesquisas indicam o contrário”, afirma Franco. “Isso faz com que os outros gostem mais de nós, nos vejam como pessoas mais genuínas e se sintam mais próximos de nós. Também faz com que os outros se sintam seguros ao demonstrar suas próprias vulnerabilidades.”

Isso não significa que você tenha de colocar todas as suas cartas na mesa imediatamente. Mas abrir-se gradualmente ajuda a criar intimidade.

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A vulnerabilidade é um ingrediente chave em relacionamentos íntimos. Comece se abrindo gradualmente.

“Se você se abrir demais, a outra pessoa pode temer que você se torne dependente, desestabilizando a amizade antes que ela se forme”, diz Narang. “Se você se fechar, pode demonstrar que não está disposto a correr os riscos necessários para uma aproximação verdadeira.”

Em vez disso, comece contando algo ligeiramente pessoal, diz Narang. Você pode, por exemplo, falar de algum tropeço no trabalho que lhe custou uma venda importante. A outra pessoa provavelmente vai se sentir à vontade para contar algum erro que cometeu.

“Aí, dê um tempo, pense no longo prazo e não tenha pressa”, diz ele. “Se as coisas parecem ir bem, o ciclo vai se repetir.”

Se o conhecido estiver em passando por dificuldades, veja se você pode ajudar

“Se a pessoa estiver doente, precisando de algum remédio, ou então precisam de um cabo específico para fazer uma apresentação no dia seguinte, é o momento de parar o que está fazendo e ajudar”, afirma Narang.

É nesses momentos difíceis que notamos ― e nos lembramos ― quem apareceu para dar uma mão, diz Narang, “e nos sentimos instintivamente mais abertos a essa pessoa”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.