OPINIÃO
29/09/2020 06:00 -03 | Atualizado 29/09/2020 06:00 -03

Qual o significado da decisão da Magazine Luiza sobre o programa de trainees 2021?

O movimento “Vidas Negras Importam” também passa por desenvolvimento de oportunidade de empregabilidade.

Iiulia Kudrina via Getty Images

O que faz uma empresa perceber que precisa oferecer oportunidade para desenvolver jovens negros para cargos de liderança em ambientes corporativos? E, mais do que isso, mexer no corpo estratégico, desenvolvendo habilidades para diversificar cargos de liderança?

A decisão da rede Magazine Luíza de contratar apenas pessoas negras para o programa de trainees 2021 vem nos mostrar os pontos de atenção que necessitam ser mudados a partir da pauta racial nas estratégias de potencialização profissional, incorporadas como política dentro das empresas. As pesquisas sobre mercado de trabalho denunciam há tempos que pessoas negras correspondem a apenas 5% dos cargos executivos das 100 maiores empresas do país. A decisão de investir no desenvolvimento de jovens negros e na formação de futuras lideranças negras é um passo importante na mudança deste cenário.

Se pensarmos historicamente, o trabalho para as pessoas negras está quase sempre relacionado a uma manutenção de sobrevivência, não voltada para a construção de carreiras e de crescimento profissional. Por isso, muitos negros se veem engessados em cargos e funções e, por mais que desenvolvam suas trajetórias de formação, muitos se aposentam no mesmo cargo ou no máximo assumem posições de baixa e média gerência. 

O recorte racial nos chama para a responsabilidade de mudança de cultura no mundo corporativo. Os C-Levels precisam despertar para o fato de que diversidade racial e inclusão (D&I) dialogam diretamente com crescimento, com a inovação e com a melhoria de desempenho das suas equipes. Ao reunir diferentes perfis, diferentes trajetórias de carreira, experiências e vivências, há um investimento em qualificação dos seus times com criações e inovações voltadas para problemas cotidianos ou implementação de novos negócios.

Um mundo em transformação que está voltado para o crescimento econômico e sustentável precisa caminhar com responsabilidade social. Trabalhar a pauta de raça não é uma ação assistencialista e sim uma estratégia de negócio alinhada ao crescimento econômico, pois a população negra no Brasil corresponde a 55,8% de toda população do país. Negros e negras são a maioria nas universidades, segundo o IBGE/2019 e consomem 1,9 trilhão de reais por ano, o que corresponde a 40% do PIB brasileiro (Instituto Locomotiva, 2020). Desse modo, a ocupação de cargos estratégicos em empresas significa a inserção do olhar de pessoas negras para as decisões fundamentais do negócio e impacta positivamente a percepção sobre a marca. Além disso, a diversidade em cargos estratégicos representa um movimento na ampliação do poder econômico de classes sociais e possibilita atuar com responsabilidade social na vulnerabilidade histórica experimentada por pessoas negras.

Trabalhar a pauta de raça não é uma ação assistencialista e sim uma estratégia de negócio alinhada ao crescimento econômico, pois a população negra no Brasil corresponde a 55,8% de toda população do país.

O posicionamento da Magazine Luiza mostra a urgência de sair do discurso e ir para a ação. O movimento “Vidas Negras Importam” também passa por desenvolvimento de oportunidade de empregabilidade. A Magalu está impulsionando o mercado quando usa a medida de “discriminação positiva” no seu processo de seleção, que, aliás, é assegurada em lei. A decisão da Magazine Luiza de dar início a um processo de trainee que só aceitará jovens negros está contribuindo com o Pacto de Promoção da Igualdade Racial da OIT (Organização Internacional do Trabalho) - do qual o Ministério Público do Trabalho e o Estado Brasileiro são signatários -  e em conexão com o objetivo 10 da  Agenda de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Agenda 2030), que visa reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.

O Instituto Identidades do Brasil - ID_BR - atua há 4 anos de forma efetiva para o letramento e construção de políticas afirmativas em empresas e organizações, e somos sempre questionados sobre o como e quando é o momento ideal para anunciar as ações de promoção da igualdade racial que têm sido desenvolvidas internamente, como gerar engajamento e como acolher mais profissionais negros e indígenas. A Magazine Luiza deu um grande passo nesta comunicação. Este é o momento para que outras empresas comuniquem, se posicionem e impactem o mercado apontando para crescimento socioeconômico. É o momento de juntar as mãos e seguir.

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