MULHERES
11/03/2020 02:00 -03

Os homens jovens são a favor da igualdade de gênero – mas não se dispõem a lavar uma louça

Poderíamos imaginar que os casais da geração Y dividiriam os trabalhos domésticos mais igualmente entre eles, mas não é o que acontece na prática.

Os homens da geração Y, ou millenials, não se incomodam nem um pouco se suas mulheres elevam sua presença no mundo profissional ou pagam metade das contas da casa. Mas não peça para que eles lavem a louça em casa.

Um novo estudo do instituto Gallup mostra que mulheres casadas ou que vivem com seus companheiros ainda tendem a assumir uma parte maior das tarefas de faxina da casa, lavagem da louça e da roupa, supermercado, preparar as refeições e tomar decisões sobre o futuro e sobre a decoração do lar. Isso ocorre mesmo entre as gerações mais jovens que têm atitudes mais igualitárias em outras questões.

Os homens não se furtam totalmente das tarefas domésticas, mas as poucas tarefas pelas quais se responsabilizam – cuidar do carro, do quintal e de trabalhos externos – são as que tradicionalmente ficam a cargo dos homens.

No que diz respeito a cuidar dos filhos, a pesquisa revelou que as tarefas são divididas mais igualmente entre homem e mulher no caso dos casais jovens, comparados com os mais velhos (se bem que mesmo nos casais jovens as mulheres ainda tendam a assumir uma parte maior das tarefas). E, quando pai e mãe recebem remuneração aproximadamente igual, os homens tendem a ajudar mais com a lavagem de louça e a faxina da casa, além de cuidar dos filhos.

Fato interessante é que a percepção de quem se encarrega de determinados trabalhos domésticos difere nitidamente segundo o gênero: tanto homens quanto mulheres tendem a dizer que realizam uma parte igual ou maior dos trabalhos domésticos que seu (sua) companheiro(a). 

pixelfit via Getty Images
“Acho que isso se deve muito a nossos estereótipos e premissas profundas sobre os papéis tradicionais de gênero em casa, que são difíceis de contestar ou romper, uma vez desencadeados”, comentou Rebecca Horne, doutoranda no departamento de psicologia da Universidade de Toronto.

Os resultados da pesquisa podem ser inesperados para algumas pessoas – afinal, em 2020 as mulheres têm mais empregos remunerados que os homens e alcançam nível de instrução mais alto ―, mas não surpreendem sociólogos. As tarefas domésticas simplesmente não parecem estar seguindo a mesma trajetória na luta pela igualdade.

“Acho que isso se deve muito a nossos estereótipos e premissas profundas sobre os papéis tradicionais de gênero em casa, que são difíceis de contestar ou romper, uma vez desencadeados”, comentou Rebecca Horne, doutoranda no departamento de psicologia da Universidade de Toronto.

No ano passado Horne foi a autora principal de um estudo diferente que concluiu que mulheres de todas as idades ainda tendem a realizar mais tarefas de casa do que seus parceiros homens, independentemente do quanto trabalhem ou ganhem em um emprego fora de casa.

Devido à natureza oculta dos trabalhos do lar, não discutimos essas desigualdades tão abertamente quanto falamos da disparidade salarial de gênero ou do fato de poucas mulheres exercerem papéis de liderança corporativa.

“Para contestar a desigualdade de gênero, podemos apontar objetivamente para os salários vigentes no mercado de trabalho pago, mas é difícil fazer o mesmo com tarefas domésticas – ou seja, todo o tempo, a energia e o esforço investidos no trabalho doméstico, quer seja organizar as atividades dos filhos, comprar o leite ou outras tarefas. Tudo isso é trabalho invisível.”

O que a pesquisa Gallup apontou é que é o gênero – e não a capacidade de ganhar dinheiro de cada indivíduo – que define a divisão do trabalho doméstico, disse Aliya Hamid Rao, professora assistente de sociologia na Singapore Management University e autora do livro ainda inédito Crunch Time: How Married Couples Confront Unemployment (Crunch Time: Como os casais enfrentam o desemprego, em tradução livre).

Acho que muitos cientistas sociais presumiam que a igualdade de gênero aumentaria quando pessoas mais jovens formassem casais e forjassem seus relacionamentos. Mas não estamos vendo isso acontecer.Aliya Hamid Rao, professora assistente de sociologia na Singapore Management University

“Acho que é provável que essas mulheres que trabalham fora assumam ainda mais tarefas de casa, como maneira de reafirmar a masculinidade de seus maridos – algo que os estudiosos descrevem como a teoria de exibição de gênero – e para deixar claro a seus parceiros que eles não precisam se sentir ameaçados pela fato de elas ganharem mais dinheiro que eles.”

O âmbito familiar e os casamentos heterossexuais (pesquisas indicam que os casais homossexuais dividem as tarefas domésticas muito mais igualmente, pelo menos até terem filhos) parecem ser mais resistentes à igualdade de gênero do que outras áreas da vida moderna.

“Acho que muitos cientistas sociais presumiam que a igualdade de gênero aumentaria quando pessoas mais jovens formassem casais e forjassem seus relacionamentos”, disse Rao. “Mas não estamos vendo isso acontecer da maneira como muitos previam. Em vez isso, estamos vendo ideias tradicionais continuando a dominar.”

Falta de assistência por parte do Estado agrava situação

Parte da divisão desigual de trabalho nas famílias jovens pode ser atribuída à falta de políticas de trabalho que favorecem as famílias nos EUA (licença-maternidade e paternidade boa e acesso universal a creches, por exemplo), comentou Oriel Sullivan, professora de sociologia do gênero no University College London.

Sem acesso a assistência infantil a preços módicos, os casais heterossexuais acabam recaindo nas premissas de gênero vigentes no passado.

“Nos países com ampla disponibilidade de creches e escolas infantis ao alcance do bolso dos pais, a maioria dos pais aproveita essa disponibilidade”, ela disse. “Nos países onde isso não existe, inevitavelmente a mãe ou o pai – na prática, é quase sempre a mulher – sofre pressão para permanecer em casa por vários anos ou a assumir apenas trabalho limitado, em regime de tempo parcial, e depender da ajuda de membros da família, geralmente outras mulheres.”

Westend61 via Getty Images
“Acho que o que está em jogo aqui é que os homens não querem abrir mão de certos privilégios”, disse Jill Yavorsky, professora assistente na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte.

Homens não são incentivados a fazer sua parte em casa

Mesmo que tivéssemos creches e escolas infantis para todas as crianças, como nos países nórdicos, uma mudança genuína de atitude exigiria uma modificação no modo de pensar das pessoas.

“Mesmo com uma transformação desse tipo nas políticas públicas, é improvável que vejamos uma transformação profunda sem mudanças simultâneas na ideologia da masculinidade tradicional e nas expectativas das empresas”, disse Sullivan. “A ideia de que homens ‘de verdade’ não fazem coisas ‘femininas’ como cuidar de casa ou dos filhos precisa ser combatida.”

Os homens têm pouco incentivo para assumirem a responsabilidade pelo trabalho doméstico, disse Jill Yavorsky, professora assistente de sociologia na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte. Fazer a faxina semanal da casa é um trabalho rotineiro e entediante, que reduz as horas de lazer e o tempo livre para fazer trabalho remunerado. E os trabalhos domésticos não encerram nenhum ganho financeiro.

“Acho que o que está em jogo aqui é que os homens não querem abrir mão de certos privilégios”, disse Yavorsky. “Nossos esforços feitos nas últimas décadas para aumentar a igualdade de gênero têm realmente enfocado a modificação dos comportamentos e oportunidades das mulheres, não dos homens.”

Essa é a metade que falta para a revolução de gênero, ela explicou. “Não ampliamos os papéis e as expectativas associadas aos homens. O significado de ser um ‘homem bom’ ainda está altamente associado a ter um emprego estável, ser o ganha-pão da família e evitar atividades vistas como femininas.”

E isso acontece desde a infância

Os pais possuem grande poder de modificar o modo como as gerações futuras vão encarar os trabalhos de casa. Embora muitas mães e muitos pais tentem ensinar seus filhos a ter ideias mais neutras em relação ao trabalho pago – que uma garota é capaz de realizar qualquer trabalho que um garoto pode fazer, por exemplo ―, o mesmo não ocorre com as tarefas domésticas.

Segundo uma análise de 2017, as meninas na faixa dos 15 aos 19 anos passam em média 45 minutos por dia fazendo tarefas do lar, enquanto os rapazes do mesmo grupo etário passam 30 minutos. E a pesquisa de Yavorsky sobre a divisão do trabalho já mostrou que as mães têm tendência maior a incorporar as meninas que os meninos à sua rotina de trabalho doméstico diário.

Mesmo assim, é possível dar exemplos sadios.

“Pesquisas recentes mostram que um homem que cresceu numa família em que a mãe tem emprego pago terá tendência maior a dividir o trabalho doméstico não pago em seus relacionamentos futuros”, ela disse. “Provavelmente porque terá visto seu pai realizando mais tarefas em casa, já que sua mãe trabalhava fora de casa.”

É importantíssimo que os pais de meninos deixem claro para eles que eles podem fazer tudo que suas irmãs fazem.

“Sabemos, graças às pesquisas sobre masculinidade e feminilidade, que a condição de mulher abrange mais opções”, disse Rao. “Quero dizer que os pais muitas vezes dizem às suas filhas pequenas que elas podem fazer tudo: cozinhar, fazer bolos, cuidar do jardim e trocar os pneus do carro.”

É muito menos frequente ver meninos pequenos ouvindo de seus pais que eles são tão capazes de cozinhar e arrumar a casa quanto suas irmãs e que sua responsabilidade não se limita a cuidar do jardim. Precisamos dar mais opções aos meninos, disseram Rao e Yavorsky.

“Os pais têm a oportunidade de exemplificar os papéis de gênero e o que significa ser um ‘bom homem’ e uma ‘boa mulher’ no âmbito familiar”, disse Yavorsky.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Also on HuffPost