MULHERES
21/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 25/03/2020 19:57 -03

Como o 'trabalho do cuidado' em tempo de coronavírus afeta a vida das mulheres

Trabalho ligado a crianças e idosos, empregos informais e atendimento a pacientes infectados deixam as mulheres mais expostas.

Na pandemia do novo coronavírus, fatores ligados à divisão do trabalho e cuidados com idosos e crianças fazem com que as mulheres sejam mais afetadas pela crise. No Brasil, elas são maioria entre desempregados e em alguns setores do mercado informal, além de gastarem mais do que o dobro de horas que os homens com funções domésticas. A presença feminina também é majoritária entre profissionais de saúde na linha com pacientes da covid-19.

“A sociedade espera que sejam as mulheres que vão estar à frente do trabalho do cuidado, porque é estabelecido que esse é seu papel de gênero. Pensa-se que ela é que vai ter mais habilidade, mais cuidado. Não se espera de um homem esse papel”, aponta Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp.

Os números refletem as normas sociais com relação aos papéis de gênero. Se fosse contabilizado e remunerado, esse trabalho agregaria pelo menos US$ 10,8 trilhões à economia mundial todo ano, estima a ONG britânica Oxfam. Cerca de 42% das mulheres no mundo em idade economicamente ativa estão fora do mercado de trabalho porque estão cuidando de alguém. Entre os homens, a fatia é de 6%. 

Especificamente no Brasil, as mulheres dedicam 21,3 horas a atividades domésticas, enquanto os homens gastam 10,9 horas com essas atividades, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes a 2018. Dentro desse cenário, o percentual de mulheres (37%) que realizavam cuidado de pessoas também é maior do que o dos homens (26%).

“Se um casal de idosos têm de se confinar em casa [para evitar o contágio pelo coronavírus], quem vai garantir o suprimento é a filha, provavelmente. Não é o filho”, afirma Marilane Teixeira. Pessoas acima de 60 anos fazem parte do grupo de risco da doença. 

Por outro lado, também pesa para as mulheres a responsabilidade por cuidar das crianças com a suspensão das aulas, cenário que se agrava quando elas estão no mercado informal.

A sociedade espera que sejam as mulheres que vão estar à frente do cuidado porque é seu papel de gênero. É ela que vai ter mais habilidade, mais cuidado. Não se espera de um homem esse papel.Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp
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No Brasil, as mulheres dedicam 21,3 horas a atividades domésticas, enquanto os homens gastam 10,9 horas com essas atividades, segundo o IBGE.

“Boa parte das mulheres que trabalham nos empregos mais precários, menos protegidos, e que não tiveram a possibilidade de licença, têm que buscar alternativa para administrar essa situação, seja deixando o cuidado com os filhos mais velhos, seja buscando arranjos na própria comunidade, com outras mulheres. Isso é um absurdo e se volta novamente como responsabilidade exclusiva e principal das mulheres”, afirma Teixeira.

Além das tarefas em si, há um estresse adicional por ter de pensar na logística das mudanças impostas pela pandemia, a chamada “carga mental”. “Isso não é pensado e visto. É como se fosse natural”, afirma a pesquisadora da Unicamp.

Para a historiadora Glaucia Fraccaro, professora da PUC de Campinas, em um Estado que reduz assistência social às pessoas mais velhas, como a reforma da Previdência, a fala recente do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para cuidar especificamente dos idosos, têm um peso diferente para as brasileiras.

Nesta semana, durante boletim epidemiológico diário, o ministro afirmou que é preciso orientar os avós porque, nesse contexto, eles “não podem abraçar ou beijar seus netos” e isso, segundo ele, ”é muito duro”. Mandetta ainda recomendou que as crianças não sejam deixadas com os idosos - que muitas vezes são rede de apoio para as mães que estão no mercado de trabalho. 

″É quase uma declaração para as mulheres porque já que o Estado reduziu formas de proteção, se espera que as mulheres cuidem dos idosos, para evitar que contraiam a doença, e das crianças, que estão sem as aulas, dentro de casa. As mulheres gastam mais de 20 horas semanais com esses cuidados. Na pandemia, isso tende a aumentar”, afirma.

Na avaliação da especialista, a crise na saúde mostra a invisibilidade do trabalho doméstico e como as mulheres têm sido responsabilizadas por essas funções com a redução do Estado.

“A pandemia dá uma visão geral do que é a situação das mulheres e da política pública nesse sentido. A gente reduz a proteção social e isso vira mais trabalho e mais vulnerabilidade ainda para as mulheres, que já têm suas situações sociais aprovadíssimas.”

Mulheres no mercado de trabalho

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Homens mantêm nível expressivamente mais elevado de ocupação no mercado de trabalho que elas. Em 2018, esse indicador foi 64,3% para os homens e 45,6% para as mulheres. 

Quanto à participação no mercado de trabalho, as mulheres estão desocupadas em maior proporção, têm menores rendimentos e estão mais sujeitas à informalidade que os homens. Nesse contexto, o nível de ocupação dos homens se mantém expressivamente mais elevado do que o das mulheres.

É o que aponta o estudo “Síntese de Indicadores Sociais 2019 – Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira”, publicado pelo IBGE.

A pesquisa mostra que o nível de ocupação dos homens diminuiu em 2019, mais do que o das mulheres, em comparação ao ano de 2014. Porém, eles mantêm ao longo de toda a série, nível expressivamente mais elevado que elas. Em 2018, esse indicador foi 64,3% para os homens e 45,6% para as mulheres. 

Em regiões como o Norte do País, a taxa para a população masculina sobe para 60,2%, o que representa uma diferença de quase 23 pontos percentuais.

Segundo o IBGE, estas desigualdades entre são atribuídas, dentre outros fatores, à discriminação no mercado de trabalho e à divisão por gênero das atividades de afazeres domésticos e cuidados, em especialmente porque não há políticas públicas ou legislação no País direcionada à essas questões.

Os resultados da pesquisa mostram que a taxa de realização de afazeres domésticos no domicílio ou em domicílio de parente é de 92,2% para as mulheres e de 78,2% para os homens. Já os cuidados de moradores ou de parentes não moradores fica em 37% para mulheres e 26,1% para os homens. 

Quanto ao desemprego, a taxa de desocupação total entre as brasileiras no quarto trimestre de 2019 foi de 13,1%, enquanto entre os brasileiros o índice era de 9,2%.

Apesar de não haver uma diferença entre os gêneros no mercado informal como um todo - ambos representam cerca de 41% -, enquanto os homens apresentam maior participação de empregados sem carteira e em trabalhadores por conta própria, as mulheres são maioria no trabalho auxiliar familiar e compõem quase que integralmente o trabalho doméstico sem carteira, grupo em que representam 73,1% do total.

“A situação delas é muito crítica porque a maior parte trabalha para famílias de classe média que, em decorrência da gravidade da situação [do coronavírus], estão dispensando esses serviços, sem remuneração, não exatamente porque estão preocupados com essas trabalhadoras, mas porque não querem se contaminar”, destaca Marilane Teixeira, da Unicamp. Há também uma vulnerabilidade adicional ao vírus para esse grupo pelo uso do transporte público.

A especialista também destaca que grande parte do atendimento ao público é feito por profissionais femininas. “Outra parte muito significativa no Brasil do trabalho por conta própria é no pequeno comércio, no serviço como cabeleireira, manicure, pedicure. São pessoas que estão em condição de vulnerabilidade porque também dependem de transporte público e lidam com o público, então com qualquer contato com a pessoa infectada, elas vão ser são imediatamente afetadas”, completa.

Por não estarem protegidos por regras trabalhistas como os que têm carteira assinada, grande parte dos trabalhadores informais nessas áreas relacionadas ao cuidado não têm direitos como a licença médica remunerada, por exemplo.  

A taxa de informalidade chega a 40,7% da população ocupada, representando um contingente de 38,3 milhões de trabalhadores. Na última quarta-feira (18), o ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeu a liberação de R$ 15 bilhões em benefícios de até R$ 200 para trabalhadores informais e autônomos por três meses.

Esse setor também deve sofrer no médio e longo prazo, com a redução da atividade econômica provocada pela pandemia.

“Isso vai desencadear um efeito em cadeia que vai gerar um desemprego elevado nessas áreas, por queda no consumo desse tipo de serviço e vai ter um impacto a médio e longo prazo bem desastroso, com uma perspectiva de que isso afete muito mais as mulheres. Os empregos mais estruturados, mais protegidos, majoritariamente são ocupados por homens”, afirma Teixeira.

Mulheres são maioria entre trabalhadoras da saúde

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Pesquisa publicada em 2016 mostra que, no setor da saúde brasileiro, a participação das mulheres chega a quase 70% do total.

“Gostaria de ressaltar as mulheres na linha de frente do covid-19: 90% das enfermeiras e mais da metade dos médicos é do gênero feminino”, escreveu a jornalista chinesa Sophia Li, ao publicar imagens da rotina das mulheres que trabalham no sistema de saúde em Wuhan, na China, não só para conter o coronavírus como auxiliar no atendimento às pessoas contaminadas.

Entre os profissionais do país, foco inicial do surto de coronavírus, a maioria são mulheres, segundo a jornalista. Ela explica que, por causa do fluxo de trabalho, do uso de roupas de proteção, do contato com equipamentos sensíveis e da falta de suprimentos, as mulheres que trabalham em hospitais estão cortando os cabelos, algumas até raspando completamente a cabeça.

E destaca que a vida delas está mudando completamente. Segundo Li, elas chegam a vestir fraldas para adultos - e economizar o tempo de ir ao banheiro - além de tomar pílulas anticoncepcionais para atrasar o ciclo menstrual. “As mulheres serão, para sempre, as guerreiras da humanidade”, escreveu.

A realidade extrema da China, porém, não é tão diferente da vivida no Brasil. “Parte da invisibilidade do trabalho feminino é causada pela carência de técnicas, métodos e, até, de referenciais mais sensíveis a essa problemática que permitam mensurar, de forma adequada, esse exército ‘quase invisível’ de trabalhadoras”, aponta estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que analisa a relação entre assimetria de gênero e a feminização no setor de saúde. 

Pesquisa publicada em 2016 mostra que, no setor da saúde brasileiro, a participação das mulheres chega a quase 70% do total, sendo 62% da força de trabalho nas categorias profissionais de ensino superior completo, e 74% com nível médio ou técnico. O estudo também afirma que a força de trabalho em saúde no Brasil é eminentemente jovem, feminina e urbana. 

A pesquisa aponta que o processo chamado de “feminização” da área da saúde também permite “perceber o aumento da participação feminina nas faixas etárias mais jovens em profissões ligadas à saúde”. Enquanto as mulheres representam 36% do total na área médica, 48% está abaixo de 29 anos.

Na medicina, eles ainda são maioria: 54,4%, de acordo com dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) referentes a 2018. A tendência, no futuro, é de aumento da presença feminina, que já é majoritária nos grupos mais jovens. Elas representam 57,4% dos profissionais até 29 anos e 53,7% entre 30 e 34.

Quanto a quem está na linha de frente, de acordo com o estudo Perfil da Enfermagem, publicada pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 84,6% da equipe de enfermagem é feminina.

Eu acho que há, ainda, uma cultura de naturalização dessas atividades como sendo aquilo que compete às mulheres”, reforça Bila Sorj, professora titular do departamento de sociologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coautora de Trabalho, Logo Existo (FGV, Editora).

Segundo Sorj, a imagem da mulher ainda hoje está ligada diretamente à maternidade. Na cultura judaico-cristã este ”é o valor supremo das mulheres”, que está ligado não só ao cuidado, mas também, à ideia do amor condicional.

“E eu vejo que são esses valores que explicam porque o setor da saúde é tão feminino”, diz. “Por outro lado, é um setor muito desvalorizado e tem pessoas muito mal pagas como enfermeiras, auxiliares, etc., o que também ajuda a manter essas atividades entre as mulheres. Os homens não aceitariam esses papeis.” 

ONU Mulheres faz recomendações na crise do coronavírus

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O presidente Jair Bolsonaro e sua equipe apareceram de máscara para anunciar medidas de combate ao coronavírus. Uma mesa composta apenas por homens.

A fim de orientar governos, a ONU Mulheres publicou um estudo sobre as dimensões de gênero na resposta ao novo coronavírus na América Latina. Além de ressaltar que “as mulheres continuam sendo as mais afetadas pelo trabalho não remunerado, principalmente em tempos de crise”, o documento faz uma série de recomendações, incluindo garantir a continuidade dos serviços essenciais para responder à violência contra mulheres e meninas.

“O impacto da epidemia é muito séria para as mulheres. E existe, sim, a possibilidade de que casos de violência doméstica aumentem. A mulher, certamente, fica sem o trabalho; mas para o homem isso é algo que mexe com a masculinidade. Eles, em casa, podem exercer o comportamento violento com mais frequência. Esse é um problema muito sério”, afirma Bila Sorj.

Entre as prioridades elencadas pela ONU também estão garantir a disponibilidade de dados desagregados por gênero, com taxas diferenciadas de infecção, impactos da carga econômica e de assistência e incidência de violência doméstica e sexual, além de atender às necessidades imediatas das mulheres que trabalham no setor da saúde e tomar medidas para aliviar a carga das estruturas de atenção primária à saúde e garantir o acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo a atenção pré-natal e pós-natal.

É preciso que alguém fale ‘olha, o cuidado é a atividade mais importante para o bem estar social’, mas não me parece que eles [ministros] terão esse olhar.Bila Sorj, professora titular do departamento de sociologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Também é recomendado garantir o acesso das mulheres migrantes e refugiadas aos serviços de saúde, emprego, alimentação e informação, mitigar os riscos de proteção com atenção especial à violência e ao tráfico de mulheres e meninas, e promovam a coesão social, em meio ao cenário de fechamento de fronteiras e restrição de circulação de pessoas, diz o texto.

“Eu não tenho dúvidas que todas as mulheres, em especial as pobres e negras, serão atingidas por essa crise. Sejam elas trabalhadoras informais ou não. A história nos mostra isso: sempre que há uma crise, as mulheres são diretamente afetadas. É preciso olhar para essa dimensão de gênero da crise”, reforça Madge Porto, professora da UFAC (Universidade Federal do Acre) que estuda violência contra a mulher. 

Outra recomendação é envolver as mulheres em todas as fases da resposta e nas tomadas de decisão nacionais e locais. No Brasil, o comitê de crise criado pelo governo de Jair Bolsonaro conta com 16 ministros, sendo Damares Alves, titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a única presença feminina, de acordo com o decreto que criou o colegiado.

O órgão pode chamar autoridades públicas e especialistas para participar das discussões para tomada de decisões. “Eu acho muito problemático ela [Damares Alves] ser a única mulher”, aponta Sorj. ”É preciso que alguém fale ‘olha, o cuidado é a atividade mais importante para o bem estar social’, mas não me parece que eles [ministros] terão esse olhar. Quem se dedica a esses trabalhos são as mulheres e esta é uma oportunidade para tirar ele da invisibilidade.”