ENTRETENIMENTO
15/09/2019 03:00 -03 | Atualizado 01/10/2019 14:53 -03

O sucesso de 'Tormenta 20' e o que isso simboliza para o RPG nacional

Jogos de interpretação de papéis têm sobrevivido aos constantes avanços tecnológicos no mundo dos games.

Divulgação/Jambô Editora
Preview da capa do livro Tormenta 20.

*Esta reportagem foi produzida por Luciano Vellasco, pós-graduando em Jornalismo Digital e publicada originalmente no site Academia Literária DF

Jogadores de RPG têm 1 milhão de motivos para festejar. Literalmente. 

Tormenta 20, o novo título da Editora Jambô, fez história no Catarse após bater a incrível marca de R$ 1,9 milhão arrecadados na plataforma.

Em meio às comemorações, muito se discute sobre a importância do hobby nos tempos de plataformas digitais de entretenimento, e esse feito veio para provar que o RPG de mesa resiste, persiste e continua encantando gerações de jogadores. 

Atualmente é muito comum ver na casa dos jovens consoles de videogame como os da Microsoft (X-box), Sony (Playstation), Nintendo (Nintendo Swich) ou mesmo PCs e notebooks potentes o suficiente para jogos online. Porém, esses jogos têm dividido espaço com livros de regras, de raças, magias e tudo o mais que for necessário para que os jogadores possam mergulhar em uma campanha de RPG.

A sigla RPG vem do termo em inglês Role-playing game, que na tradução livre seria algo como “Jogo de Interpretação de Personagens”. Trata-se de um gênero de jogo em que os jogadores assumem o papel de um personagem imaginário (inventado por ele próprio ou não) em um mundo fictício. Existem manuais que auxiliam os jogadores a criarem e ambientarem seus personagens e suas histórias, como, por exemplo, os manuais de regras e os manuais de monstros. Fonte: Brasil Escola.

No Brasil, a prática de jogar RPG de mesa começou no início dos anos 80 de forma importada. As pessoas que viajavam para fora do País traziam (principalmente dos Estados Unidos) títulos em inglês com o intuito de jogar com os amigos. Essa foi a primeira geração de jogadores nacionais, chamados de “geração xerox”, pois obtinham e propagavam os manuais por meio de fotocópias.

Foi após a Rede Globo transmitir, em 1986, a série animada Caverna do Dragão (Dungeos & Dragons, no original) que o RPG de mesa começou a virar febre em território nacional.

Além de ser uma fonte de entretenimento, o RPG também é uma ótima fonte de aprendizado. A escritora de livros de fantasia Karen Soarele diz que a prática exige leitura e interpretação de texto.

“O RPG incentiva os novos leitores não apenas a juntarem letra com letra e formarem palavras, mas faz que efetivamente pensem no que estão lendo, interpretem o significado do texto e desenvolvam suas próprias criações”, conta Soarele. Para ela jogar é muito mais do que ler manuais; é um incentivo a pensar, analisar e interpretar.

Reprodução/WhatsApp
Meme que os aficionados de RPG adoram usar.

Tormenta e o financiamento coletivo

A Jambô Editora provou por A + B que, mesmo com o avanço de plataformas de jogo online, o RPG ainda prospera no mercado de games. E como explicar esse fenômeno? Para o editor-chefe da Jambô, Guilherme Svaldi, o RPG de mesa sobrevive às novas tecnologias pelo poder de contar uma boa história.

“Criar narrativas e compartilhá-las com os amigos é uma das atividades mais antigas da humanidade. Alguns dizem que é precisamente o que nos faz humanos. Nenhuma tecnologia substitui esse tipo de interação”, comenta Svaldi.

Isso fica ainda mais evidente quando observamos a trajetória da campanha de financiamento do manual básico Tormenta 20. No lançamento do crowdfunding no dia 10 de maio, a editora havia pedido R$ 80.000 de arrecadação para o projeto sair do papel.

Em 20 minutos, o site saiu do ar em virtude do número anormal de acessos à plataforma. Uma hora depois do início, o financiamento atingiu 100% da meta, ou seja, já havia atingido R$ 80.000, batendo o recorde de meta alcançada em menor tempo. Daí para frente foi só alegria:

# Maior projeto na categoria jogos;

# Maior financiamento na categoria editorial;

# Maior arrecadação nas primeiras 24 horas;

# Projeto mais bem-sucedido da história do Catarse.

O financiamento do novo livro foi para a editora uma forma de convidar as pessoas a participarem ativamente do projeto. A Jambô é uma editora tradicional, ou seja, publica seus livros com recursos próprios.

Porém, de acordo com Svaldi, esse era um projeto especial. “Era a comemoração de 20 anos do maior universo de fantasia do Brasil, e não podia ser tratada da forma habitual. Se simplesmente produzíssemos o livro internamente, estaríamos privando os jogadores de participarem”. Para ele, Tormenta só chegou aonde está graças ao apoio do público. 

Tormenta é um RPG de mesa criado por Leonel Caldela, Marcelo Cassaro, Rogerio Saladino, Guilherme Dei Svaldi e JM Trevisan, e publicado pela Jambô Editora. Foi lançado originalmente em 1999 e, ao longo dessas duas décadas, teve seu universo expandido com romances, contos e HQs, além de dezenas de suplementos. Hoje, comemora 20 anos com esta nova edição do livro básico, intitulada Tormenta 20, que tem como objetivo atualizar o mundo de Arton para os fãs das antigas e facilitar a introdução de novas pessoas ao hobby. Fonte: Jambô Editora

E por falar no público, uma verdadeira legião de fãs apoiou o projeto. O prazo do financiamento terminou no dia 9 de julho. Foram mais de 5.000 apoiadores, que contribuíram com valores que variavam entre R$ 50 e R$ 800 reais.

Como em qualquer financiamento coletivo, os apoiadores recebem recompensas, que variam de menção nos créditos até participação ativa na decisão das mecânicas do jogo. Abaixo o gráfico animado ilustra de onde veio a maioria dos apoios. 

Montagem/Infogr.am

Um desses apoiadores foi o gestor ambiental Silas Contaifer. Ele já joga no cenário há 12 anos e conta que já usou 19 sistemas de RPG diferentes. Na visão dele, o financiamento trouxe algo novo: o poder de conversar e criar junto com a comunidade brasileira nos diversos blogs e grupos online que falam sobre Tormenta.

“Estou super animado com Tormenta 20. Gostei das votações para escolhas de parte do material que virá no livro e já estou com as fichas prontas para testar o sistema com meus amigos”, empolga-se.

Tormenta já é considerado o maior e mais importante título do RPG nacional. Após esse financiamento coletivo, não há qualquer dúvida!

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.