COMIDA
19/08/2019 09:02 -03 | Atualizado 27/08/2019 13:03 -03

Por que algumas pessoas têm tolerância maior de álcool que outras

E por que ter baixa tolerância é uma coisa boa, na realidade.

Você já deve ter ouvido comentários do tipo “ela consegue beber muito mais que eu e nem se altera”, ou então “ele é um fracote total quando se trata de bebida”. Essas observações, acompanhadas de conotações (dúbias) de força ou fraqueza, têm sua raíz no conceito da tolerância de álcool.

Então o que é a tolerância de álcool? O termo se refere à capacidade que algumas pessoas possuem de consumir mais bebida alcoólica que outras antes de sentir os efeitos, disse Peter Martin, professor de psiquiatria e ciências comportamentais no Centro Médico da Universidade Vanderbilt.

Há várias razões por que isso ocorre e que explicam por que algumas pessoas conseguem beber incessantemente sem se alterar, enquanto para outras, basta meio cálice de vinho para ficarem altas.

O gênero, a genética e quanto você bebe, todos esses fatores influem sobre sua tolerância.

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Segundo Peter Martin, pesquisadores estudaram diversos fatores para tentar definir por que algumas pessoas parecem lidar melhor com o álcool que outras.

Está claro que o gênero e o peso corporal influem sobre a tolerância de cada pessoa. Os homens tendem a conseguir beber mais que as mulheres antes de ficar embriagados. Pessoas maiores podem beber mais que pessoas menores sem sofrer efeitos nocivos imediatos.

Mas outros fatores biológicos são um pouco mais complexos.

“Alguns cientistas acham que a tolerância está ligada às enzimas envolvidas na metabolização do álcool. Para outros, há um efeito variado sobre a neurotransmissão cerebral”, explicou Martin.

No caso dos neurotransmissores, a teoria é que o cérebro de algumas pessoas com alto grau de tolerância simplesmente não recebe os sinais que indicam “está na hora de você parar de beber”.

Quanto ao papel das enzimas, “a metabolização do álcool é um processo que envolve várias etapas”, explicou Brad Uren, professor assistente de medicina de emergência no sistema de saúde da Universidade do Michigan, Michigan Medicine.

“Boa parte do álcool processado no corpo é metabolizado inicialmente pela enzima álcool desidrogenase, convertendo-se em um composto chamado acetaldeído”, ele disse. “O acetaldeído é metabolizado a seguir pela enzima aldeído desidrogenase.”

Algumas pessoas têm deficiência de aldeído desidrogenase. Isso pode levar a um acúmulo de acetaldeído no sangue.

“O resultado pode ser que a pele fica avermelhada e que os sintomas comumente associados a uma ressaca aumentam ou se agravam”, disse Uren. “Pessoas de ascendência asiática têm tendência maior a apresentar essa deficiência enzimática.”

Tirando isso, nosso cérebro e corpo tendem a adaptar-se rapidamente ao consumo pesado de álcool.

Uren explicou: “O corpo humano tem a capacidade de adaptar-se ao consumo aumentado de álcool, o que pode levar à metabolização mais rápida”. Isso, por sua vez, significa que as pessoas que bebem mais frequentemente “podem aparentar estar menos embriagadas que outras que tomaram uma quantidade semelhante de bebida alcoólica.”

A tolerância maior não é necessariamente algo positivo

O primeiro problema da tolerância maior de álcool é que pode criar uma impressão falsa de o quanto a pessoa realmente está embriagada. Você pode pensar que uma pessoa está em boas condições de dirigir um carro ou andar de bicicleta, pelo fato de não estar cambaleando ou enrolando as palavras – e a própria pessoa pode pensar isso também. Mas a premissa não tem fundamento. A quantidade de álcool consumido ainda tem importância.

“Não se pode presumir com segurança que esses indivíduos estejam em condições tão boas de realizar tarefas que requerem concentração e reações rápidas, como conduzir um veículo, quanto estariam se não tivessem bebido”, disse Uren. A escolha mais prudente é tirar as chaves do carro da pessoa e chamar um Uber.

Também não se pode presumir que uma pessoa com alta tolerância a álcool, que é capaz de beber mais sem se sentir embriagada, não vá sentir os efeitos de longo prazo do consumo excessivo.

Segundo Martin, essas pessoas ainda correm o risco de complicações ligadas ao volume de álcool consumido ao longo da vida. “Entre elas, cirrose hepática, doença cerebral, neuropatias, pancreatite, gastrite ou úlcera estomacal.”

De fato, disse ele, “as pessoas com tolerância maior, que têm a capacidade de beber mais, correm risco maior de desenvolver alcoolismo”.

É especialmente perigoso fiar-se em sua tolerância ao álcool durante o verão.

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Uren destacou que é preciso prestar atenção a quanto álcool se bebe em épocas de calor, quando as pessoas frequentemente bebem mais.

“O consumo de álcool pode levar à desidratação. Bebidas alcoólicas não devem ser tomadas no lugar de água ou outras bebidas quando a pessoa está fazendo exercício ou está ao ar livre nos dias de muito calor”, ele recomendou.

Beber álcool prejudica a coordenação e o julgamento. Portanto, disse Uren, “você não deve beber álcool quando estiver praticando atividades que exigem muita concentração ou coordenação”, como ciclismo, escalada e muitos outros esportes de verão.

Lembre-se que o consumo arriscado de álcool não é definido por seu grau de tolerância, mas por quanto você bebeu.

O Instituto Nacional de Abuso Alcoólico e Alcoolismo define o binge drinking (consumo episódico excessivo de álcool) como “beber tanto em duas horas que a concentração de álcool no sangue sobe para 0,08”, disse Uren. “Uma mulher alcança esse nível em média com quatro bebidas padrão; um homem, em média após cinco bebidas”.

Uma bebida padrão equivale a 150 ml de vinho, 350 ml de cerveja ou 45 ml de bebida alcoólica destilada.

Em termos mais gerais, devemos evitar o consumo arriscado ou perigoso de álcool.

“No caso de homens de até 65 anos, tomar mais de quatro bebidas por dia ou 14 bebidas por semana constitui consumo de risco”, disse Uren. “Para as mulheres e para os homens com mais de 65 anos, mais de três bebidas por dia ou sete bebidas em uma semana é considerado um consumo de alto risco.”

E nunca, jamais tente seguir o exemplo de outras pessoas com tolerância maior ao álcool.

“Ser capaz de beber mais que outra pessoa sem se afetar é visto comumente como sinal de força, e a ideia de que você tem baixa tolerância de álcool é um estigma”, explicou Martin. Na realidade, porém, as pessoas com baixa tolerância acabam sendo beneficiadas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.