Pesquisa alega que tofu pode ser pior do que a carne para o planeta ― eis por que isso não faz sentido

Pesquisador britânico levantou debate ao apontar o tofu como grande vilão do aquecimento global. Será mesmo?

Nos últimos anos, ambientalistas e pesquisadores apontaram a carne como a maior causadora dos gases do efeito estufa e, consequentemente, das mudanças climáticas. Agora, fazendeiros do Reino Unido alegam que, na verdade, o tofu pode causar mais danos ao planeta do que seus rebanhos.

Refutando os mais recentes estudos que indicam que a melhor maneira de salvar o planeta é seguindo uma dieta vegana (ou vegetariana), o pesquisador Graham McAuliffe, da Rothamsted Institute, uma das mais tradicionais instituições de pesquisa agrícola do mundo, afirmou que o tofu, feito de soja, pode ter maior impacto ao planeta do que um carne bovina, de porco ou frango. No encontro da organização agrícola National Farmers Union, que aconteceu na última segunda-feira (10), ele disse ter conduzido uma pesquisa sobre o assunto.

O pesquisador, que é especializado em mensurar o impacto ambiental dos alimentos, apontou que seus achados podem ser “interpretados com precaução”, uma vez que seu estudo é apenas teórico.

“Sem dúvida, grãos e castanhas têm um impacto ambiental muito menor do que animais e produtos provenientes deles”, ponderou o especialista ao The Times. “Mas se você observar o tofu, que demanda um grande gasto de energia para ser produzido, quando você corrige o fato de que a proteína não é tão digerível em comparação com produtos à base de carne, você pode ver que ele poderia ter um maior impacto no aquecimento global do que qualquer animal monogástrico.”

Segundo McAuliffe, se considerar a quantidade de proteína por unidade, “o tofu é pior”.

A fala ganhou repercussão na Inglaterra e gerou um grande debate em relação ao tofu. O site britânico The Independent lembrou que esta não é a primeira vez que a pegada de carbono do tofu é apontada como um potencial problema.

“Em 2010, um estudo conduzido pela World Wide Fund (WWF) advertiu sobre o risco de pensar que o alto consumo de produtos à base de soja garantiria baixas emissões de carbono”, informou.

O relatório sugere substituir a soja por outros grãos, como lentilha e grão de bico, proteínas que são “mais efetivas e sustentáveis”.

Esta troca de papéis é justa?

Apesar do burburinho, é pouco provável que o tofu seja mesmo um grande problema ― quando comparado à carne, claro.

Apesar de a soja ser apontada como uma das causas do desmatamento ilegal na Amazônia e também do cerrado, grande parte da área desmatada é destinada à criação de gado.

Além disso, cerca de 80% da soja no mundo é triturada para virar ração animal, enquanto 18% da produção se torna óleo de soja. “A soja é extremamente rica em proteína, o que fortalece os animais. A demanda por carne tem aumentado a cada dia”, informou a WWF. “Por isso, a demanda por soja para alimentar o gado também.”

Ou seja, apesar de ela estar ligada ao desmatamento e às mudanças climáticas, a soja é cultivada, predominantemente, para alimentar gado. Se o consumo de carne diminuísse, provavelmente frearia o aumento da produção de soja, ainda mais em áreas preservadas. E, uma vez que o tofu é produzido apenas para o consumo humano, o impacto dele em relação à carne bovina é mínimo.

Além disso, diversos estudos de diferentes instituições apontam exatamente o oposto das alegações do cientista Graham McAuliffe.

A produção de carne é considerada uma das principais causadoras do aumento da temperatura da Terra. Ela gera gases do efeito estufa, destrói florestas e ainda usa quantidades insustentáveis de água.

Além de todo o impacto ambiental, a carne vermelha e laticínios correspondem por apenas 18% de todas as calorias alimentares disponíveis e por cerca de um terço das proteínas.

Um estudo publicado na revista Nature em 2018 alertou que uma grande redução no consumo de carne é necessária para evitarmos mudanças climáticas. Precisaríamos diminuir em 90% o consumo de carne e substituir por mais grãos e leguminosas.

Segundo previsões do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), se consumidores de carne reduzissem o consumo semanal para 1,5 porção, seria possível diminuir as emissões de gases do efeito estufa e impedir que florestas se tornem terras de cultivo. “Esta é solução mais promissora e mais realista”, afirmou Timothy Searchinger, principal autor do relatório do WRI e pesquisador da Universidade Princeton, à Reuters.

Hoje, enquanto americanos e europeus consomem do dobro da porção de carne recomendada, os brasileiros ingerem o triplo.