LGBT
21/03/2020 04:00 -03

'Todxs Nós', a série da HBO que não se atém a gêneros, literalmente

Batemos um papo exclusivo com o diretor e os três protagonistas da produção brasileira que estreia neste domingo (22), às 23h.

Em uma noite qualquer, um pouco fria, em frente ao um prédio antigo no centro de São Paulo, Rafa fala com seu pai no celular. O papo não é dos mais amigáveis. Ela precisa justifica seus gastos; senão, terá seu cartão de crédito cortado.

“Deve ser a conta do açougue que deu tão caro. Mas a gente precisa de proteína, pai”, se justifica Rafa, que saiu das casa dos pais, no interior de São Paulo, para poder viver uma vida “plena” na capital, local em que Rafa pode ser, finalmente, quem sempre quis ser, uma pessoa sem gênero definido.

Mas nesse caminho de autodescobrimento, Rafa ainda terá de superar muitas barreiras. A independência financeira é apenas uma delas. Algo que o HuffPost Brasil pôde assistir de perto durante as filmagens de Todxs Nós, nova produção brasileira que estreia na HBOneste domingo (22), às 23h.

Um alento para quem busca entretenimento (e, por que não, conhecimento também) sem sair de casa em tempos de quarentena imposta pela pandemia do coronavírus

Ariel Bueno/Divulgação
Rafa (Clara Gallo), Vini (Kellner Macêdo) e Maia (Julianna Gerais) em cena gravada com a presença do HuffPost no set.

Com direção geral de Vera Egito, produção de Heitor Dhalia e direção de Daniel Ribeiro (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho), a série de 8 episódios de 30 minutos cada abordada diversas temáticas LGBTQIA, além de questões como racismo e assédio, de forma franca e questionadora, mas sem perder o bom humor.

“Não queríamos que fosse algo como ‘não-binários para pessoas caretas’, mas para pessoas que já estariam antenadas com isso. Algo que não se discute até entre quem tem a cabeça mais aberta. Queríamos fazer uma série que estimulasse esses debates que são muito complexos, que não têm apenas dois lados”, explica Daniel.

Tudo começa com a chegada de Rafa (Clara Gallo), jovem de 18 anos, pansexual e de gênero não-binário à casa de seu primo, o ator Vini (Kellner Macêdo), que divide um apartamento com Maia (Julianna Gerais), uma jovem negra, feminista e vegana que trabalha em uma startup de mobilidade.

“Eu já tinha ouvido falar sobre pessoas não-binárias, mas, na real, não sabia muito sobre o que se tratava. Comecei a pesquisar sobre o assunto por conta de Rafa e achei que aquilo fazia muito sentido, porque é realmente uma desconstrução de muitas coisas. Não só do gênero. Você começa a questionar muitas coisas na vida”, conta Clara.

Ariel Bueno/Divulgação
"Ao mesmo tempo que Rafa [na foto] é não-binária, tem toda essa desconstrução, mas é uma muito mimade”, conta Juliana Gerais, que interpreta Maia na série.

“Entre o feminino e o masculino existem zilhões de possibilidades e acho que isso foi o que pegou mais quando nós estávamos no processo de ensaio, de construção desses personagens. a gente começou a ver realmente essas complexidades e disparidades”, acrescenta Kellner.

A grande representatividade, aliás, não se atém à trama de Todxs Nós. Além de uma equipe de produção das mais diversas, cerca de 37% dos personagens com fala na série são representados por pessoas trans, binárias ou não binárias.

“Tive uma convivência muito legal com Flow [Kountouriotis] e Xád [Chalhoub), que são dues atorxs não-bináres que fazem personagens não bináres na série [xs tatuadorxs X e Juno, respectivamente]. Foi o melhor laboratório possível. Xád é uma pessoa que tem uma militância muito forte que vem de um processo de anos se descobrindo e se desconstruindo e é super didatique, que mas explicou muito desse processo. Foi um grande aprendizado”, diz Clara.

“Aprendemos bastante e isso encaixa até em nossa vida pessoal. Em nosso meio essas questões são mais presentes, eu tenho amigues, mas ao mesmo tempo eu nunca tinha me debruçado sobre o assunto. Confesso que por puro conformismo, sabe. O que essa série tem de mais legal é a complexidade das personagens. O Vini, por exemplo. Ele é um gay, mas de certa forma é bem careta em relação àquele mundo mais livre. Ao mesmo tempo que Rafa é não-binária, tem toda essa desconstrução, mas é uma muito mimade”, complementa Juliana.

Ariel Bueno/Divulgação
Os diretores da série "Todxs Nós", Vera Egito e Daniel Ribeiro.

Aliás, são de papos e tretas do dia a dia que nascem os debates tão caros à trama. Que estão muito longe de ser apenas sobre as questões da não-binaridade. Como na cena em que o HuffPost acompanhou in loco em uma noite fria de agosto de 2019, quando o veganismo de Maia é sempre questionado por Vini e Rafa.  

“Tem muita coisa que ‘não existe’ porque nem foi muito discutido. Você vai encontrando pontos de vista diferentes através do debate. Até questões sociais relacionadas a isso também. Queríamos retratar um pouco desse universo de pessoas que são esclarecidas em muitos temas e ainda assim divergem. Como o personagem gay, por exemplo, que a princípio pode parecer alguém super descolado, que saberia como lidar com isso e, na verdade, não conhece nada da questão não binária. Não somos todos iguais e concordamos com as mesmas coisas mesmo estando, digamos, do ‘mesmo lado do muro’ em uma sociedade dividida”, conclui Daniel.

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