08/03/2019 02:45 -03 | Atualizado 08/03/2019 14:59 -03

Quem são as mulheres que fazem o #TodoDiaDelas acontecer

Projeto do HuffPost Brasil contou a história de mais de 365 mulheres de Norte a Sul do Brasil.

Arquivo Pessoal
Lola e Valda, Ana e Carol, Tati e Tati são três, das seis duplas que, espalhadas pelo País, entrevistaram mais de 365 mulheres.

A ideia era escrever sobre protagonismo. Falar sobre elas. Ir além. Provar que o “Dia da Mulher” é todo dia. Era sobre o “fazer acontecer” que, muitas vezes, é invisível, questão de sobrevivência ou puro talento. Era trazer à luz histórias de mulheres que movem o mundo. Uma missão audaciosa. Para isso, sete repórteres. Seis fotógrafas. Uma editora. Espalhadas por seis capitais, de Norte a Sul. São Paulo. Manaus. Porto Alegre. Rio de Janeiro. Brasília. Salvador. E mais de 365 mulheres com corpos, vivências e etnias diferentes, mas com uma voz em comum. O resultado? Um ano inteiro equacionando a potência transformadora que há em contar a própria história.

“Não teria sido possível sem mulheres assim: que estavam sempre dispostas, e nos ajudaram a fazer, sabe?”, constata Ana Ignacio, repórter que ficou responsável por fazer as entrevistas com as mulheres que moram em São Paulo. Ela explica que a disposição das mulheres  no “fazer”, durante o projeto, foi além de compartilhar sua história de vida com ela ou simplesmente posar para a foto. “Era aquilo de buscar a gente no metrô, de dar carona, de se deslocar para fazer a entrevista, de buscar a gente na entrada de comunidade, de oferecer almoço, café e até presentes. Elas fizeram isso [o projeto] acontecer. Só com tanta mulher ‘que faz acontecer’ que isso foi possível.”

E só mesmo. Foi também ao lado da fotógrafa Caroline Lima que Ana chegou até a maior parte das entrevistadas. Juntas, elas foram de Jout Jout a Neide “Vida Corrida”. No total, 122 textos e mais de 600 imagens que foram produzidos entre perrengues (do tipo passar por uma enchente com a entrevistada) até momentos de muita emoção (como contar a história de Renata ou de Dona Jura). E ah, sim, a amamentação. “Houve dias em que nós fizemos mais de uma entrevista por dia e eu ainda estava amamentando em um intervalo de tempo pequeno e me lembro de pensar ‘meu deus, ainda tenho que voltar, bater a entrevista e amamentar’”, lembra Ana, que é mãe de Vicente, de um ano de idade, e que foi o único homem em reuniões do projeto.

Elas fizeram isso [o projeto] acontecer. Só com tanta mulher 'que faz acontecer' que isso foi possível.Ana Ignacio
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Ignacio e Caroline Lima.

Uma das entrevistas que Ana e Carol fizeram foi com a jornalista, escritora e pesquisadora Bianca Santana, de 33 anos. Ela estava em uma semana de luto. Fazia poucos dias que Marielle Franco havia sido assassinada no Rio de Janeiro. Bianca não só recebeu a reportagem, como ofereceu um almoço à dupla, como forma de retribuição pelo lugar de escuta e de acolhimento. Depois, veio Ló Souza, inspetora de um colégio em São Paulo que fez parte da infância de muita gente. Em seguida, Dona Jura, que é de Heliópolis e ajuda mulheres da comunidade a empreender. Mais tarde, Mirelle Martins, a performer e dançarina que vive sem endereço. Isso só para citar algumas. E a cada entrevista, Ana ficava com um pedacinho delas. Em um caderno de anotações, ao final da conversa, ela pedia para que cada uma assinasse a capa.   

Não teria sido possível sem mulheres assim: que estavam sempre dispostas, e nos ajudaram a fazer, sabe?Ana Ignacio
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A cada entrevista, de Jout Jout a Neide "Vida Corrida", Ana pediu um "autógrafo" das entrevistadas. 

E não foi diferente ou menos intenso no Rio de Janeiro. Muito pelo contrário. ”Foi uma daquelas experiências que a gente vai contar para o resto da vida”, afirma a repórter Lola Ferreira, responsável por fazer a produção das entrevistas com as mulheres do Rio. Ao lado da fotógrafa Valda Nogueira, Lola conta que, juntas, passaram por ”umas experiências bem características da cidade”. “Foram duas vezes em que nos deparamos com um fuzil, pois fomos produzir em área de risco. Nas duas vezes, claro, nada aconteceu”. E ainda bem. Uma das histórias a que Lola se refere é a de Sandra Santos, de 54 anos, que trabalha como cozinheira em uma unidade prisional para menores infratores e, a partir disso, acolhe mães destes jovens em outro projeto.

Juntas, elas foram de Kamilla Bussinger a Maria Aliano, a ‘Caboclinha do Salgueiro’. “No total, 80 textos e mais de 400 imagens produzidas. Lola lembra que, diversas vezes após fazer uma entrevista, precisou “segurar o choro”.  Não por ser sensível demais. Ou por se emocionar com o que foi dito. Mas porque sentiu a dimensão do que estava fazendo parte. E do quão grandioso poderia ser. “Fui me dando conta que aquelas mulheres confiaram sua vida a mim. Isso é muito potente. Ouvimos histórias de tortura, de abuso, de assédio, de estupro e toda a sorte de experiências reservadas às mulheres que ousam ser qualquer coisa fora da caixinha. Mulheres que se reinventaram, que se redescobriram, que fizeram história. Com 18 e 80 anos.”

É um projeto exclusivamente feminino, de ponta a ponta, então as deusas nos colocaram no colo.Lola Ferreira
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Lola Ferreira (à esquerda) e Valda Nogueira (à direita), no galpão da Paraíso do Tuiutí, logo após a entrevista da Nilma Duarte, passista plus size.

E ela crava com toda certeza que teve a melhor companheira. “O Todo Dia Delas no Rio não seria como foi se não tivesse sido com a Valda e comigo. Era incrível ver o resultado das fotos e perceber que ‘caramba, essa foto tem tudo a ver com aquela frase que ela me disse!’. E tinha, sempre, porque a Valda é uma das pessoas mais sensíveis e atentas que já conheci. Sem nunca termos nos visto, fomos unidas com o propósito de contar histórias, e todo o trabalho sempre foi permeado pela empatia, pela escuta ativa, pela sensibilidade. Chegamos ao final com 80 textos publicados, e 80 mulheres, sim, todas elas, agradecidas pelo que fizemos. É um projeto exclusivamente feminino, de ponta a ponta, então as Deusas nos colocaram no colo”, brinca.

E talvez o que a Lola chamou de “Deusas” tenha, de fato, colaborado para essa conexão. Porque não foi só no Rio. Um pouco mais para cima no mapa, em Brasília, foi semelhante. ”Às vezes era uma frase, uma situação ou uma palavra que levava a gente para o lugar de identificação, me deixava arrepiada porque eu já tinha sentido, passado ou vivido aquilo também. Falar com outras mulheres me fez olhar para a minha própria trajetória″, lembra a repórter Tatiana Sabadini, responsável pelas entrevistas na capital federal. Ela, ao lado da fotógrafa Tatiana Reis, foi de Wilma Lino Dutra a “Dona Teia” e conta que, ao fim de cada entrevista, “a gente se sentia próxima de cada uma” das mulheres.

 

Falar com outras mulheres me fez olhar para a minha própria trajetória.Tatiana Sabadini
Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Tatiana Reis (à esquerda) e Tatiana Sabadini (à direita), na casa de Mila Petrillo, na Chapada dos Veadeiros (DF).

E de alguma forma elas se tornaram, mesmo. Para as últimas entrevistas, elas viajaram até a Chapada dos Veadeiros, na cidade de Alto Paraíso, próxima a Brasília. A primeira entrevistada na cidade seria Dona Flor, uma “mulher terra”, parteira e raizeira, grande sábia do Cerrado. “Ligamos para confirmar nosso encontro e ela disse: ‘olha, só posso receber vocês até umas 9h, no máximo 10h porque depois eu atendo quem chega por aqui’. Isso queria dizer que a gente tinha que chegar lá umas 7h da manhã e que deveríamos acordar 3h e pegar a estrada umas 4h, já que são 350 km de estrada. Lá fomos eu e Tati com uma térmica de café na mão e muita vontade de conhecer as três mulheres que iríamos entrevistar lá”, lembra.

As três: Dona Flor, Mila Petrillo e Dona Teia. As duas: Tatiana e Tatiana. O que era para ser uma entrevista, apenas, se transformou em lugar de troca e inspiração. “No meio disso, ainda visitamos uma cachoeira e à noite fomos recebidas na casa da Mila que nos deixou em um quarto com vista para a mata”, lembra. Assim como Ana, em São Paulo, para ela, cada história a fez “reacreditar na nossa força e vontade de fazer acontecer”. “Foram histórias que me fizeram mudar padrões dentro de mim, me trouxeram movimento e reconhecimento como agente transformadora”.

É possível estarmos juntas, produzindo, maternando; nos fortalecendo, uma puxando a outra.
Tatiana Reis/Arquivo Pessoal
Helena em duas situações: na casa de Brix Furtado e na oficina mecânica de Agda Oliver.

Com exceção da viagem à Chapada, a dupla brasiliense teve uma terceira integrante em muitas entrevistas: Helena, de 1 ano e 7 meses, filha da fotógrafa Tatiana Reis. Ela conta que este foi seu primeiro trabalho após a maternidade e que não teve com quem deixá-la em algumas situações. Levar Helena junto era a solução. E ela não era estranha em meio a um trio de mulheres adultas. Ela era parte. Ela é. Tatiana afirma que, para ela, o projeto foi de “acolhimento e de reencontros” com o que faz de melhor. ”Tive certeza, em diversos momentos, de que estava ali não apenas para fotografá-las, mas para entender sobre nossas potências e ter a certeza de que sim, é possível. É possível estarmos juntas, produzindo, maternando; nos fortalecendo, uma puxando a outra.”

E nessa teia de fortalecimento e muitas nuances também está Salvador (BA). A quarta praça do Todo Dia Delas teve não duas, mas três integrantes. A fotógrafa Juh Almeida trabalhou com a repórter Clara Rellstab na primeira fase, e com Nathali Macedo, na segunda. ”Era sempre desafiador todas as vezes que eu tinha que resumir em cinco, seis fotos, anos de história da vida de cada uma dessas mulheres”, lembra Juh. Ao todo, foram 60 textos e mais de 300 imagens de mulheres soteropolitanas que vão desde Dona Suzana, do “Ré-Restaurante”, no Solar do Unhão, até Beatrice Conceição, a jovem que promove um natal com significado para todas as crianças. Um desafio e tanto.

Era sempre desafiador todas as vezes que eu tinha que resumir em cinco, seis fotos, anos de história da vida de cada uma dessas mulheres.Juh Almeida
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Juh Almeida (à esquerda) e Nathalí Macedo (à direita).

E ficou mais desafiador ainda quando, em dezembro de 2018, a notícia de que Lucy de Carvalho, de 77 anos, uma das entrevistadas, morreu. “Dona Lucy dizia que tinha medo de morrer e ser esquecida”, lembra Nathalí. E, por isso, a repórter deu prioridade à ela no projeto. Atriz de vanguarda do Cinema Novo, Lucy contracenou com Norma Bengell e foi imortalizada como Janaína, em Barravento, filme de Glauber Rocha, mas hoje vivia de forma debilitada. Nathali conta que ela insistia para que uma vizinha, que é documentarista, registrasse sua história. “Ela insistia para que isso acontecesse antes que fosse tarde. Mas com a memória não há quem possa. Quando contamos histórias, imortalizamos pessoas, e quando contamos histórias de mulheres, fortalecemos o elo invisível que nos mantém de pé”. E ela o fez.

Me vi testemunhando histórias tão intensas que por diversas ocasiões me percebi com um nó apertado na garganta.
Arquivo Pessoal
Caroline Bicocchi (à esquerda) e Isabel Marchezan (à direita). 

“Comum a todas, acho que só uma característica: a coragem. Foi na coragem que todas elas se encontraram”, afirma a fotógrafa Caroline Bicocchi sobre as entrevistas que fez junto com a repórter Isabel Marchezan. Elas foram responsáveis pelo projeto em Porto Alegre (RS). Da história de Rozeli da Silva, que foi mãe aos 13 anos e hoje tem mais de 300 ‘filhos’, até a vivência de Claudia Arantes, que une forças para espalhar a ‘corrente do bem’, 45 textos foram entregues e mais de 225 imagens.“Pessoalmente, me vi testemunhando histórias tão intensas que por diversas ocasiões me percebi com um nó apertado na garganta”, lembra Bicocchi, ao citar o caso de Bárbara Penna, que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio e hoje conta a sua história para que ela não se repita.

Sair com a Kayna no centro de Manaus foi tipo sair com uma celebridade da 'Globo'.Iana Porto
Arquivo Pessoal
Iana Porto (esquerda) e Samira Benoliel (centro) com entrevistadas do Todo Dia Delas em Manaus.

Em uma proporção diferente, o mesmo acontece com Kayna Munduruku. Após uma trajetória marcada por violências, hoje ela cultiva o sonho de ser a 1ª mulher indígena a apresentar um jornal no Amazonas. “Sair com a Kayna no centro de Manaus foi tipo sair com uma celebridade da Globo”, brinca Iana Porto, fotógrafa responsável pelo projeto em Manaus (AM). “Fomos paradas diversas vezes pelas pessoas na rua que pediam selfie e até mesmo autógrafos”, lembra. Ela, junto com a repórter Samira Benoliel, formou a dupla manauara, que trouxe o protagonismo de Maria Genu ao fazer a primeira faculdade depois dos 60 anos, até irreverência de Francisca Queiróz, conhecida como a “Tia da Trufa”, que vende quitutes na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) aos gritos de “chupa que é de uva!”. 

E “fazer” é o verbo de ação que as acompanha. Todas elas. Desde os bastidores, até a linha de frente. E “fazer” história talvez seja uma revolução. De Norte a Sul. Mas há algo a mais. Há memória. Saberes. Conhecimento. Após um ano, é o que fica. É sabida a substância invisível e transformadora que também pertence ao jornalismo. Contar histórias que vão além do que a lógica milenar e patriarcal impõe é ferramenta na construção de igualdade. Em 8 março de 2019, há o que somos. O que fazemos. Todo dia é dia delas.

365 dias, 365 mulheres. O HuffPost Brasil celebrou mulheres de Norte a Sul do Brasil, de 8 de março de 2018 a 8 de março de 2019. Uma mulher por dia, com sua história de protagonismo. Precursoras, empreendedoras, guerreiras. Todo dia é Dia da Mulher no HuffPost Brasil. Estas mais de 365 histórias foram contadas com entrevistas e ensaios fotográficos. Os 365 conteúdos foram distribuídos pela Elemidia, em milhares de monitores espalhados por 6 capitais brasileiras, e em todas as redes sociais do HuffPost Brasil e da C&A, patrocinadora oficial de Todo Dia Delas.

Para ler todas as histórias do projeto visite: tododiadelas.com