MULHERES
27/05/2019 01:00 -03

Tive euforia pós-parto e precisei ser hospitalizada

"Quando tivemos alta do hospital, 24 horas depois de minha filha nascer, fui inundada por uma enxurrada intensa de energia."

Mayte Torres via Getty Images

Em agosto de 2016, meu marido e eu descobrimos que estávamos grávidos de nosso terceiro filho. Depois de mais de um ano tentando engravidar, nossa surpresa e alegria foram enormes. Semanas depois de receber a boa notícia comecei a ter enjoo matinal, como já estava prevendo, mas também a sentir algo novo e diferente das gestações anteriores: depressão.

Eu me sentia tão exausta e triste que mal conseguia sair do sofá. Chorava constantemente. Comecei a ter pensamentos suicidas. Meu marido, Daniel, me levou ao nosso médico, que diagnosticou depressão perinatal grave – uma forma de depressão que ocorre na gravidez.

Passei a gravidez inteira lutando contra a escuridão, me agarrando ao que eu podia para não me afogar. Eu tomava meus remédios diariamente, ia regularmente às consultas com uma terapeuta, praticava respiração profunda sempre que me lembrava disso e dizia a mim mesma que simplesmente passar pela hora seguinte já seria o bastante.

Em alguns dias a única coisa que me manteve viva foi a vida que estava crescendo dentro de mim, aquela coisinha que se mexia muito de leve em meu ventre e me fazia lembrar que havia duas pessoas dentro daquele corpo cansado.

Na manhã do parto, que seria induzido, pulei da cama, louca para conhecer a menininha que eu já sabia que ia transformar meu mundo. Todo mundo me tinha dito que o terceiro filho praticamente escorrega para fora – que o canal do parto é como um caminho suave que já foi trilhado antes.

Não foi assim para nós. Após um trabalho de parto exaustivo e doloroso, uma anestesia peridural que não funcionou e muitas horas de música de meditação altamente irritante, minha filha finalmente chegou, fofa e rosadinha como um gatinho recém-nascido.

O nascimento dela foi um dos momentos mais maravilhosos da minha vida. Eu já era uma mãe veterana, mas nem por isso o momento foi menos especial. Assim que a colocaram no meu peito, escorregadia, acabada de sair do útero, eu chorei de alegria – o som mais feliz que eu tinha emitido em mais de nove meses. Tínhamos sobrevivido. Nós duas estávamos do outro lado.

Eu havia previsto que o resguardo seria um período tranquilo, de repouso para mim. Daniel tinha duas semanas de folga, e eu planejava usar essas duas semanas para me recuperar e preparar para cuidar de três criancinhas em casa. Mas quando tivemos alta do hospital, 24 horas depois de minha filhinha nascer, fui inundada por uma enxurrada intensa de energia.

“Acho que a depressão acabou com o nascimento dela”, falei a Daniel enquanto dava de mamar à nossa garotinha sonolenta. Eu mal conseguia acreditar que estava me sentindo tão bem.

Quando minha filha fez quatro dias de idade, resolvemos convidar toda a grande família para conhecê-la. Meu leite tinha descido na noite anterior, deixando a nenê satisfeita e sonolenta, e eu acordara de manhã me sentindo bem descansada.

“Vamos ao shopping!”, propus, correndo para a porta com a bolsa de fraldas a tiracolo, meus seios estourando de leite e meu períneo ainda inchado e dolorido. Daniel me olhou como se eu tivesse ficado louca, mas eu queria sair de casa. Precisava sair.

Passamos mais de uma hora fazendo compras. O tempo inteiro Daniel ficou perguntando se eu estava bem, se precisava me sentar um pouco e descansar.

Eu estava andando como uma pata porque fisicamente estava sentindo dor, mas mentalmente falando eu nunca me sentira melhor. Não queria voltar para casa – queria continuar fazendo compras.

Quando tivemos alta do hospital, 24 horas depois de minha filha nascer, fui inundada por uma enxurrada intensa de energia.

Acabamos voltando para casa, tiramos as compras do carro e eu comecei a fazer faxina. Nossa família ia chegar, então eu precisava deixar a casa em ordem. A depressão me deixara a sensação de ser inútil, com vergonha de minha falta de motivação e energia.

Pensei que minha família me achava preguiçosa, mas eu queria mostrar que não era. Meus parentes ficariam espantados ao ver como eu estava me virando bem com uma recém-nascida e duas filhas maiores. Eu só precisava deixar a cozinha brilhando.

A visita foi muito bem. Minha avó chegou a comentar que era impressionante como eu estava bem. Senti orgulho tremendo de minha família linda; tudo me pareceu perfeito. Quando meus parentes foram embora, desabei em cima do sofá. Eu estava exausta. Daniel me trouxe a bebê para eu amamentar e subiu para dar banho em nossas filhas mais velhas.

Enquanto dava de mamar, comecei a sentir sono. Fechei os olhos e uma escuridão tomou conta de mim. Eu sabia que a nenê estava em meus braços, mas me senti desmaiando. Usando cada gota de força que ainda me restava, gritei para Daniel, pedindo socorro. Eu sabia que alguma coisa não estava certa.

Daniel desceu correndo enquanto nossas meninas ainda estavam deitadas em suas camas, molhadas do banho interrompido na metade. Ele me encontrou desmaiada. Naqueles momentos, meu corpo estava presente, mas não tenho ideia do que aconteceu.

Senti muito frio, um frio gelado. Ouvi vozes profundas de homens e senti uma mão pesada no meu ombro. Eu queria usar palavras, queria dizer alguma coisa, mas não consegui.

Comecei a recobrar consciência na ambulância, com uma máscara de oxigênio sobre meu rosto e uma sonda intravenosa enorme espetada no meu braço.

Ouvi o paramédico dizendo: “Ele está buscando fórmula para a bebê e vai encontrar a gente lá”.

Não! Eu tinha fracassado com minha bebê. Tinha estragado tudo. E tudo isso porque queria provar que eu era algum tipo de supermulher, porque queria que todo o mundo me visse passando por cima da depressão. Não consegui encontrar forças para falar, então fechei os olhos, com uma lágrima escorrendo por meu rosto.

No hospital, fizeram uma série de exames para descobrir o que estava acontecendo comigo. Me perguntaram inúmeras vezes se eu tinha usado drogas ou bebido. Senti vergonha tremenda e fiquei abanando a cabeça para dizer que não, morrendo de medo de dizer que eu tinha apenas feito compras até cair de cansaço.

Como eu estava muito desidratada e enfraquecida, me deram soro intravenoso. Minha parteira veio me visitar, meu marido chegou com a bebê e eu a amamentei, segurando o corpinho lindo dela contra meu corpo alquebrado, contundido e com curativos.

O mais provável era que eu tinha desmaiado por estar gravemente desidratada e fisicamente exausta. Eu tinha empurrado meu corpo além do limite. Me mandaram fazer repouso na cama por uma semana, no mínimo. Era hora de descansar e repor toda a energia que eu havia gasto.

Meses mais tarde, eu estava pesquisando a depressão pós-parto e me deparei com o termo “euforia pós-parto”, também conhecido como hipomania pós-parto.

Um dos transtornos de humor menos conhecidos do pós-parto, a euforia pós-parto se caracteriza por atividade ou energia aumentadas, impulsividade, pensamentos céleres, insônia, irritabilidade e compulsão por falar demais. Li a lista de sintomas, encontrei alguns artigos sobre o tópico e senti como se estivesse lendo minha própria história.

Todos esses meses eu sentira culpa e vergonha daqueles primeiros dias do pós-parto, mas na realidade eu estava sofrendo de um problema sério de saúde mental.

Depois de procurar meu médico e discutir meus sintomas com ele, foi confirmado que eu realmente tinha tido euforia pós-parto. A hipomania foi desencadeada pelo nascimento de minha filha, e os sintomas diminuíram pouco a pouco nas quatro primeiras semanas após o parto.

Minha internação hospitalar foi uma consequência assustadora da hipomania pós-parto. Na prática, me obrigou a parar e fazer repouso pelo resto do período de resguardo.

Eu senti a euforia pós-parto como se fosse uma vitória sobre a depressão perinatal, mas na realidade era apenas uma versão diferente de uma doença que eu já apresentava.

Continuei a ter dificuldade para dormir e a me sentir altamente energizada, mas comecei a dar mais ouvidos ao meu corpo. A euforia pós-parto geralmente dura entre quatro e seis semanas, mas se os sintomas se manifestam é recomendável procurar ajuda médica.

Há uma variedade de opções de tratamento, mas é importante ser acompanhada por seu médico e tomar cuidado para os sintomas não se agravarem e se converterem em um transtorno bipolar pós-parto.

Quando minha filha estava com 14 meses eu parei de usar os antidepressivos, mas continuo a fazer terapia e passar por avaliações regulares de minha saúde mental. Compartilho minha história de euforia pós-parto porque quase todo mundo que a ouve não conhecia esse transtorno de humor do pós-parto.

Tive uma crise de saúde mental e achei que eu estava perfeitamente saudável, mais que ótima. Aquilo me colocou em uma situação de emergência médica e me levou a ser hospitalizada. Eu queria ter sabido que me sentir extremamente cheia de energia e motivada quando minha filha nascera apenas alguns dias antes não era sinal de força sobre-humana, mas um motivo de preocupação médica grave.

Eu senti a euforia pós-parto como se fosse uma vitória sobre a depressão perinatal, mas na realidade era apenas uma versão diferente de uma doença que eu já apresentava.

Em um mundo que festeja os super-heróis, é fácil festejar uma mulher que acaba de dar à luz e está cheia de energia intensa, em vez de enxergar isso como sinal de um problema, como é.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.