LGBT
02/08/2020 12:00 -03 | Atualizado 03/08/2020 19:25 -03

Tifanny Abreu: 'Tenho orgulho do que eu consegui. As pessoas hoje me veem como uma mulher do esporte'

Em entrevista ao HuffPost, atleta fala sobre críticas que sofreu ao longo da carreira e como se tornou símbolo e voz para abrir caminho às pessoas trans no esporte.

Aos 35 anos e com a consciência de que sua carreira no esporte deixará um legado, Tifanny Abreu, a primeira jogadora transexual na Superliga Feminina de Vôlei no Brasil, diz que se sente realizada. “Hoje as pessoas olham para mim e falam ‘ah, é Tiffany do vôlei’, ‘a jogadora do Sesi-Bauru’, né? Tenho orgulho do que eu consegui. As pessoas hoje me veem como uma mulher do esporte”, conta, em entrevista exclusiva ao HuffPost.

Esse reconhecimento veio quando a atleta estreou na superliga pelo Bauru, no interior de São Paulo, no final de 2017. Tiffany, que foi criada em família de católicos e evangélicos no interior do Pará, ganhou visibilidade, mas também sofreu com críticas de ex-jogadoras e ofensivas concretas de políticos religiosos e conservadores nos últimos anos.

“Isso é mais uma forma de atacar as pessoas trans, de nos retirar do esporte, do mercado de trabalho, de nos criminalizar, fazendo que a nossa única opção seja trabalhar nas ruas, como prostitutas”, critica.

Em junho deste ano, a deputada Bia Kicis (PSL), apresentou o PL 3396/2020 que “estabelece o sexo biológico como o único critério para definir o gênero dos atletas em competições organizadas pelas entidades de administração do desporto no Brasil”. Nesse caso, Tifanny estaria proibida de disputar qualquer campeonato no País. 

A deputada afirmou em suas redes sociais que o PL tem como objetivo “proteger as atletas mulheres ao impedir a participação de atletas trans em equipes femininas”. Mesmo antes desse novo projeto, já tramita na Câmara o PL 2200/2019, de autoria do Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), sobre a mesma temática. O deputado pastor destaca que mulheres trans são “homens travestidos ou fantasiados de mulher.”

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“Hoje as pessoas olham para mim e falam ‘ah, é Tiffany do vôlei’, ‘a jogadora do Sesi-Bauru’, né?", diz Tifanny.

O tema também chegou às assembleias legislativas de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2019, os deputados Altair Moraes (PRB-SP) e Rodrigo Amorim (PSL-RJ) apresentaram projetos de lei com o mesmo argumento. Em fevereiro deste ano, o plenário da Alesp foi alvo de protestos de membros da comunidade LGBT e a votação foi adiada, sem previsão de retornar à pauta.

“O que eles [parlamentares] deveriam fazer é procurar regras e formas de promover as pessoas trans no esporte. E não de barrar. Mas não, estão querendo proibir. E eu fico pensando como essas pessoas conseguem dormir à noite fazendo tanto mal a uma população que não faz mal nenhum a eles.”

A atuação da jogadora é respaldada por critérios determinados pela CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei) para praticar o esporte de alto rendimento. Eles são baseados em estudos científicos em diversos níveis e englobam análises fisiológicas, bioquímicas e anatômicas.

A determinação das entidades é de que mulheres trans podem competir na categoria feminina se comprovarem ter nível de testosterona abaixo de 10 nmol/L. Tifanny costuma apresentar 0,2 nmol/L do hormônio em seus exames, cumprindo os requisitos e as normas da organização.

“Eu encontrei no voleibol um aconchego”

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Tifanny começou sua carreira no vôlei tarde, aos 17 anos. Hoje, aos 35, atua como "ponteira" pelo Sesi-Bauru, no Interior de São Paulo.

Natural do interior do Pará, a atleta diz que seu irmão mais velho foi sua grande inspiração. “Eu via ele ganhando medalhas, sendo aplaudido por pessoas desconhecidas. E eu queria isso também, eu queria ser alguém. Ele fazia atletismo, corrida de rua e ‘botava’ todo mundo pra correr junto [risos]. Eu fui realizando meu sonho degrau por degrau, até chegar aonde eu estou.”

Mas o ambiente do esporte não a acolheu imediatamente. “Com 17 anos eu percebi que eu não era igual aos outros, passei por muito bullying; e eu encontrei no voleibol um aconchego”, lembra. “Mas é aquilo: muitas pessoas chegaram a falar ‘você não vai ser uma atleta’. Mas eu corri atrás e virei uma atleta profissional. Eu realizei o sonho de mudar a forma como as pessoas olhavam para mim. Não me ver simplesmente como aquela ‘feminina’ ou a ‘trans’, mas como uma atleta do voleibol.”

Tifanny iniciou carreira profissional aos 23, mas tomou a decisão de parar aos 28. “Eu tive que criar coragem de falar ‘não, chega, não aguento mais ser quem eu não sou’. Deixar a minha equipe na mão, em um momento em que eles precisavam de mim, foi muito difícil. Eu fiz isso para começar a minha transição. Eu já não aguentava mais dormir e acordar chorando por não ser quem eu era.”

Ela só voltou a jogar profissionalmente aos 31, na segunda divisão da Itália - e também já jogou em times da Holanda e Bélgica. De volta ao Brasil em 2017, ela foi contratada pelo Sesi-Bauru e, hoje, aos 35 anos, ocupa o lugar de “ponteira”, apelido de quem ocupa lugar de atacante de ponta no vôlei.

Vivendo em isolamento social desde abril em Bauru, a atleta diz que está treinando de forma ativa, para manter a forma até setembro e novembro, quando o campeonato paulista e a Superliga retornam, respectivamente. “Eu já não aguento mais ficar em casa, olhar para cima, ver os treinos me esperando e pensar: ‘saudade de entrar em quadra, né, minha filha?’ [risos].”

Pensando em outras formas de manter seu ativismo caso deixe a carreira de atleta, Tifanny se candidatou, em 2018, ao cargo de deputada federal por São Paulo, pelo MDB. Ela obteve 3.889 votos totais (0,02% dos votos válidos) e não se elegeu. Atualmente, ela integra a comissão de diversidade de São Paulo do partido. “Sempre que eu puder ajudar a população LGBT, eu o farei. Por ter uma voz, não adianta eu ficar por fora lutando.” 

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Para Tifanny, sua vivência como mulher trans "é diária, não importa onde."

Leia a entrevista completa, concedida em videoconferência ao HuffPost:

HuffPost Brasil: Como você está vivenciando a quarentena? Mesmo sem os treinos presenciais, você continua se exercitando?

Tifanny Abreu: Os treinos mesmo só voltam no dia 10 [de agosto]. Mas a gente intensificou cada uma o seu trabalho para poder chegar até lá bem. Nós treinamos com as mesmas diretrizes, mas treinamos separadas. Cada atleta está fazendo igual, mas cada uma no seu canto. Estou aqui em casa, em Bauru, mesmo. E quando não estou treinando, estou limpando, cozinhando e quando não estou limpando, estou dormindo [risos]. São dias bem cheios, bem corridos, até pelas minhas atividades nos grupos em defesa da diversidade. É até bom porque não fica aquele dia “morto”, né? No início estava mais tranquilo, mas eu ainda prefiro mais a agitação.

Você citou os grupos pela diversidade que participa. Você acompanhou as movimentações online no mês de junho, que marcaram o mês LGBT?

Acompanhei, sim. A minha movimentação foi mais por lives, reuniões. Como não podemos estar juntas no momento, a gente acabou não tendo aquela festa [que é a Parada LGBT], que é também pra dar e receber carinho, mas tentamos ficar sempre juntas. Eu faço parte do grupo de diversidade do MDB de São Paulo, então, foi no que eu mais me engajei. Por ser a atleta que eu sou e ter a voz que eu tenho, é muito importante estar nesse lugar. Porque o discurso do transfóbico, do preconceituoso, é sempre o mesmo: atacando a mulher trans, o homem trans… E não importa onde ele esteja: se está no esporte, na vida social ou apenas em uma propaganda como o Thammy Miranda, com o seu filho, por exemplo. A nossa luta é sempre diária, não importa onde. 

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A jogadora de vôlei transexual brasileira Tifanny Abreu participa de uma sessão de treinamento em Barueri, São Paulo, em 2018.

Em 2018 você chegou a sair como candidata a deputada estadual pelo MDB e hoje faz parte da comissão de diversidade no partido... 

É, o MDB não é um partido novo de idade, mas é um partido que vem tentando se reformular. Hoje ele é aberto à população LGBT, aberto às minorias e, com isso, foi criado esse núcleo de diversidade no MDB Nacional, e eu faço parte da comissão do estado de São Paulo. Nós fazemos esse trabalho voltado a essa população e é importante que esse leque seja aberto, e que as pessoas abram a mente. Porque o que temos hoje não é o que nós vivemos há 10, 20 anos atrás. A política de hoje é diferente, as pessoas hoje cobram, conseguem ir atrás dos seus direitos. É muito importante que as pessoas LGBT votem em pessoas da comunidade ou em quem está engajada no movimento. Não podemos ter somente uma bancada evangélica dominando todo um País. Temos que ter diversidade. O país é muito diverso, e isso precisa ser representado.

Provavelmente neste ano haverá um número recorde de pessoas LGBT se candidatando para as eleições municipais. Como foi a experiência de 2018? Você pretende concorrer novamente?

Sempre que eu puder ajudar a população LGBT, eu o farei. Por ter uma voz, não adianta eu apenas ter uma voz e ficar por fora lutando. Se eu não estiver lá dentro [da política], estarei batendo pé, brigando, batendo de frente contra tudo o que é contra o amor, contra a liberdade de uma pessoa LGBT de poder ir e vir, trabalhar, ser feliz como uma outra qualquer...

Você mencionou o caso do Thammy; houve tanto episódio de transfobia, quanto de boicote à marca [Natura]. Como você enxerga essas manifestações de preconceito e o papel que as empresas deveriam ter sobre isso?

Olha, primeiro a Natura está de parabéns por essa iniciativa. Outras marcas, como a Adidas [que é patrocinadora da atleta], também estão do lado de todos. Existe o apoio a mulheres trans, drag queens; existem LGBTs trabalhando e sendo patrocinados pela Adidas e mostrando que isso é uma questão de dignidade e de uma sociedade aberta para todos.  

Mas depois que vem essa notícia [dos ataques ao Thammy e boicote à Natura] a gente começa a enxergar algumas coisas. Muita gente ainda vive presa há 10, 20 anos atrás e esqueceram que LGBTfobia hoje é crime no País. Eles acreditam que ainda estão podendo falar o que quiserem sobre uma pessoa LGBT. As pessoas estão cometendo crimes sem saber e vão acabar pagando pelos seus erros. Eles ainda acreditam que ser mulher trans é motivo de chacota, de zoação. Não, não somos motivo de zoação. 

O Thammy sofreu hoje. Quem sofre é ele, é a Tifanny, é a Pabllo Vittar, somos nós. Porque nós estamos na mídia. Mas se não usarmos nossa voz para chegar ao máximo de pessoas possível, vamos sofrer e ponto, para aí. Mas pessoas que não são conhecidas como nós vão ser assassinadas simplesmente por serem trans. Eles ainda acreditam que nos atacar é normal.

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Tifanny Abreu: "Não podemos ter somente uma bancada evangélica dominando todo um País. Temos que ter diversidade."

Desde 2017, quando você se destacou na Superliga Feminina, foi alvo de ataques, e alguns projetos de lei, desde então, foram apresentados tanto no Congresso Nacional, quanto em assembleias estaduais pelo País, com a intenção de “estabelecer o sexo biológico como o único critério para definir o gênero dos atletas”. Qual a sua opinião sobre essas iniciativas?

Isso é mais uma forma de atacar as pessoas trans, de nos retirar do esporte, do mercado de trabalho, de nos criminalizar, fazendo que a nossa única opção seja trabalhar nas ruas, como prostitutas. É, também, mais uma forma de mostrar como o nosso País está muito mal representado por deputados, por vereadores, por um presidente que não é de todos. O que eles deveriam fazer é procurar regras e formas de promover as pessoas trans no esporte. E não de barrar. Mas não, estão querendo proibir. E eu fico pensando como essas pessoas conseguem dormir à noite fazendo tanto mal a uma população que não faz mal nenhum a eles.

Você é considerada uma pioneira no esporte, justamente por ser a única mulher trans em sua categoria. Como é estar nesse lugar de referência?

Na verdade, no início, foi difícil. Eu não entendia quem eu era. Hoje eu tenho mais clareza. Hoje eu sou uma pessoa que vai abrir portas para um futuro próximo. Uma pessoa que vai mudar a cabeça de muitos. Eu sou um espelho, não só pelas pessoas trans, mas para todos os adolescentes que um dia sonham em ser alguém, uma atleta profissional. Eu, mesmo sendo uma mulher trans, venci barreiras e consegui. Por que uma criança, um adolescente que sonhou como eu, não vai poder vencer? Então eu acabo sendo um espelho, as meninas trans me veem como uma esperança. E eu vou seguir firme, sempre, enquanto eu puder. Eu vou seguir nessa luta. Porque eu não estou aqui à toa.

Divulgação/Adidas
"E eu vou seguir firme, sempre, enquanto eu puder. Eu vou seguir nessa luta. Porque eu não estou aqui à toa", acredita Tifanny.

Jogar vôlei sempre foi um sonho? Qual é a sua história com o esporte?

Não, eu queria ser cantora, né? Mas a voz não ajudava. Eu queria ser modelo, o corpo não ajudou. Brincadeira [risos]. Desde criança eu sempre tive muita facilidade com esporte, uma genética muito voltada para o esporte. Eu aprendia muito rápido, muito fácil. Mas com 17 anos eu vi que eu não era igual aos outros, passei por muito bullying; e eu encontrei no voleibol um aconchego, pessoas que me entendiam, que eram como eu. Então, eu já gostava muito do esporte e comecei a ter um amor maior por ele e foi aí que comecei a sonhar em ser atleta. Mas é aquilo: parte dos meus sonhos foi tirada de mim por eu já ser muito feminina, e por eu já ter passado da idade “normal” de praticar vôlei. Muitas pessoas chegaram a falar: ‘você não vai ser uma atleta’. Mas eu corri atrás e virei uma atleta profissional. Eu realizei o sonho de mudar a forma como as pessoas olhavam para mim. Não me ver simplesmente como aquela “feminina” ou a “trans”, mas como a atleta de voleibol. E hoje as pessoas olham para mim e falam “ah, aquela é Tiffany do vôlei”, “a jogadora do Sesi-Bauru”, né? Eu tenho orgulho do que eu consegui com o meu trabalho. Eu consegui com que as pessoas me vissem como uma mulher do esporte, uma atleta. Esse sonho foi realizado com muita persistência, na verdade.

Nessa época, você tinha alguém como referência, inspiração?

Meu irmão foi o primeiro espelho que eu tive no esporte. E, depois, eu comecei a assistir televisão, ver jogos de vôlei etc. E eu acredito que eu tive muitas influências. Dentro de casa eu tinha esse espelho que era ele. Eu via ele ganhando medalhas, sendo aplaudido por pessoas desconhecidas. E eu queria isso também, eu queria ser alguém. Ele fazia atletismo, corrida de rua e ‘botava’ todo mundo pra correr junto [risos]. Eu fui realizando meu sonho degrau por degrau, até chegar aonde eu estou. Até porque a cidade em que eu morava no Pará não tinha estrutura para o voleibol, não tinha estrutura de esporte. E por morar na parte mais humilde ainda da cidade era mais complicado. E foi quando eu me mudei para Goiânia (GO) que eu fui me encontrar com o vôlei. Já existiam várias equipes, sub-20 etc. Com 17 anos eu consegui entrar em uma equipe da prefeitura da cidade, mas que já jogava campeonatos goianos.

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A principal inspiração de Tifanny foi seu irmão mais velho, que se destacava no atletismo regional.

Você passou por muitas dificuldades? 

Olha, eu acho que a maior dificuldade, na verdade, foi deixar o esporte profissional para começar a minha transição. Eu tive que criar coragem de falar ‘não, chega, não aguento mais ser quem eu não sou’. Deixar a minha equipe na mão, em um momento em que eles precisavam de mim, foi muito difícil. Eu fiz isso para começar a minha transição. Eu já não aguentava mais dormir e acordar chorando por não ser quem eu era. Por não me amar. Eu já tinha vivido o sonho de ser uma atleta profissional, né? Mas e eu? Eu não me aceitava. Eu vivia um sonho, mas não era eu vivendo aquele sonho. E hoje eu não vivo mais em uma série, uma novela, quase como uma atriz escondendo quem é de verdade. O mais difícil foi ter essa coragem.

Como foi o reencontro com o vôlei?

Olha, eu soube que eu poderia jogar no feminino quando eu estava no meu segundo ano de transição. E eu comecei a estudar sobre o assunto. Se eu realmente posso, por que não vou? E eu vou continuar o meu trabalho. E quando eu me senti apta a, de fato, jogar no feminino, foi muito bom. Porque mesmo antes da transição eu não me sentia bem sendo uma mulher no meio dos homens. Eu tinha um desempenho diferente, e compensava usando a minha força de ataque; era boa na defesa, acabava ajudando a equipe de outra forma. Mas é aquilo: as pessoas viam uma mulher no meio dos homens. E eu era criticada, visada por estar ali. Terminava o jogo ninguém queria tirar foto comigo, por exemplo, porque eu não era inspiração para ninguém. Hoje termina o jogo e eu sou a última a sair da quadra. Senhores e senhoras de idade me abraçam, dizendo que têm orgulho de mim. Eu me senti acolhida no meu espaço. Mas ainda tem muita gente que não entende. E não quer entender, justamente porque o preconceito deles é muito grande. Mas eu também não vou sair brigando; eu deixo as pessoas perceberem na hora certa. O carinho que eu recebo é tanto que já conforta meu coração. 

E como foi jogar no exterior? Muito diferente do Brasil?

Eu não joguei nas ligas mais fortes, né? Mas lá fora a diferença é a forma com que você trabalha. Lá, queira ou não, a gente não treinava tanto quanto aqui. A gente treinava, mas não chega nem aos pés do que a gente treina no Brasil. E eu acredito que o voleibol brasileiro tem um público mais apaixonado, que exige mais, que pede mais, que quer mais e acaba exigindo muito mais da atleta, né? A torcida está sempre em cima da atleta, é uma torcida muito apaixonada, os ginásios sempre lotados, é muito bonito.

Esporte também é feito de plateia, de público, de ginásio cheio, do calor das pessoas. Mas depois da pandemia talvez isso seja um pouco diferente. Como você acha que vai ser a volta às quadras neste novo contexto?

É uma tristeza falar nesse assunto. Nós não podemos chamar nenhum esporte de “jogo”, “competição”, se não tem um público. Sem isso, fica mais parecido com um treino, um amistoso. Mas eu penso que a gente tem que entender que não escuta a torcida, mas que as pessoas continuam torcendo. Eu acho que vai ser difícil. Mas tenho fé que a vacina chegará logo em seguida e que as finais da superliga possam ter esse calor apaixonado pelo esporte de volta. E tem um outro lado, né? Muitas famílias sobrevivem do esporte, seja o ‘homem da pipoca’, a ‘mulher da água’, as pessoas que limpam a quadra ou cortam a grama. É muito importante que o esporte volte logo pra essas famílias. 

Você está ansiosa pra voltar?

Ai, nem me fala. Eu já não aguento mais ficar em casa, olhar para cima, ver meus treinos de vôlei me esperando e pensar: “saudade de entrar em quadra, né, minha filha?” [risos].