OPINIÃO
30/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 30/07/2020 03:00 -03

'The Umbrella Academy' volta bem melhor em sua 2ª temporada

Série retorna com trama mais bem amarrada, que valoriza o aspecto humano dos protagonistas e abraça de vez o universo surreal da HQ.

Absorver bem elogios e, principalmente, críticas é algo fundamental para uma série, que tem como objetivo contar uma história por anos. E parece que Steve Blackman ouviu e analisou com atenção a recepção não tão acolhedora a The Umbrella Academy, sua adaptação para a telinha da série em quadrinhos escrita por Gerard Way e ilustrada pelo brasileiro Gabriel Bá.

A segunda temporada, que estreia na Netflix nesta sexta (30), é bem melhor que sua antecessora. A temporada de estreia demonstrava muito potencial, mas que se perdeu um pouco em meio a uma trama sem muito foco, com ritmo bagunçado, roteiro confuso e algumas atuações sem inspiração. 

Blackman não se deu por vencido e, nesta segunda temporada, nos apresenta uma história muito mais bem amarrada, dando arcos interessantes para todos os membros da família Hargreeves e abraçando sem medo os aspectos mais surreais da HQ.

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Nos anos 1960, Klaus (Robert Sheehan) só poderia mesmo ter se transformado em um guru new age.

Livre adaptação de Dallas, volume 2 da série em quadrinhos, a nova temporada de The Umbrella Academy começa exatamente onde a primeira terminou, quando Número 5 (Aidan Gallagher) transporta seus irmãos pelo tempo para fugir do apocalipse criado por uma de suas irmãs, Vanya (Ellen Page), em 2019.

Como já poderíamos esperar, as habilidades de viagem no tempo do Número 5 não são lá muito precisas, e cada um dos integrantes do grupo de super-heróis disfuncionais acaba caindo em épocas distintas, porém, em um mesmo beco na cidade de Dallas, no Texas.

Klaus (Robert Sheehan) e seu irmão fantasma Ben (Justin H. Min) chegam em 1960. Já Allison (Emmy Raver-Lampman) “aterrisa” em 1961 e Luther (Tom Hopper) em 1962; enquanto Diego (David Castañeda) e Vanya aparecem em um mesmo ano, 1963, só que em datas diferentes. Ele em 1° de setembro e ela, em 12 de outubro. 

Número 5 também cai no mesmo lugar, mas três dias após o assassinato do presidente John Kennedy, no dia 25 de novembro de 1963, em meio a uma batalha campal entre soviéticos e americanos que termina (surpresa!) em outro apocalipse. 

No entanto, Número 5 é ajudado por um antigo inimigo e acaba voltando no tempo mais um pouco, seis dias antes do mundo acabar de novo, e precisa reunir seus irmãos (já adaptados à nova realidade que encontraram) para tentar evitar mais uma vez o armagedom. 

O fato de todos os protagonistas estarem em um mesmo lugar, mas em datas distintas, conseguiu calibrar melhor a jornada individual de cada Hargreeves, dando devido espaço para o desenvolvimento dos personagens ― corrigindo um dos erros mais graves da primeira temporada da série.

Isso refletiu (e muito!) na performance do elenco principal, dando a alguns dos atores a oportunidade de mostrar que eram capazes de atuações muito melhores do que foi mostrado no ano passado. Um dos que mais se beneficiou com isso foi Castañeda, que diminuiu o tom agressivo de Diego, dando mais nuance para o personagem e deixando-o bem mais humano.

Pode parecer uma contradição, mas é na junção bem equilibrada desse elemento mais “humano” com o mergulho sem medo de ser feliz no universo absurdo criado por Way que reside o sucesso da segunda temporada de The Umbrella Academy.

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Allison (Emmy Raver-Lampman) sente na pele a crueldade da segregação racial no sul dos Estados Unidos na década de 1960.

O melhor exemplo disso é o arco vivido por Allison, que sofre na pele a segregação racial do sul dos Estados Unidos na década de 1960. Literalmente sem voz, ela é obrigada a enfrentar o racismo em sua face mais abjeta e, assim, se junta à luta pelos direitos civis dos negros. 

É claro que o timing perfeito em relação aos protestos do Black Lives Matter reascendidos pelo assassinato de George Floyd e, principalmente, com a recente morte de John Lewis, um ícone na luta pelos direitos civis nos anos 1960, não foi proposital. Mas isso só mostra que a série se conecta a questões atuais, mesmo em se tratando de uma trama de super-heróis, exatamente por apostar na humanidade de seus personagens.

Mesmo que The Umbrella Academy ainda esteja longe de se comparar às melhores séries da atualidade, ela caminha a passos largos na direção certa e tem tudo para se tornar um dos grandes cults da Netflix.

Que Blackman mantenha-se atento às críticas e nos dê uma terceira temporada ainda melhor, pois, se continuar evoluindo assim, sua série tem tudo para continuar por mais alguns anos. 

*Uma dica para quem quer assistir a segunda temporada de The Umbrella Academy. Refresque um pouco sua memória com esse ótimo resumo da primeira temporada narrado pelos atores Robert Sheehan, Emmy Raver-Lampman, Aidan Gallagher e Cameron Britton: