ENTRETENIMENTO
03/05/2019 06:53 -03

Por dentro da virada mais absurda da 2ª temporada da série ‘The OA’

O ator Jason Isaacs fala sobre o final maluco, incluindo vários spoilers.

Netflix
Jason Isaacs, que ficou conhecido como Lucius Malfoy na série de filmes de Harry Potter, é o cientista louco Hap em The OA, série da Netflix.

Alerta de spoiler: Não leia se não tiver assistido à segunda temporada de “The OA”.

Pode-se dizer que Jason Isaacs não é muito fã de spoilers. “Mesmo que você diga ‘alerta de spoiler, não leia se não tiver assistido tudo’, as pessoas provavelmente vão ler”, me disse ele pelo telefone, dias depois do lançamento da 2ª temporada de The OA, na Netflix.

Ele tem razão, é claro, como vai concordar qualquer pessoa que decidiu seguir em frente apesar dos avisos. Mas a ambivalência de Isaacs é honesta. A maioria o reconhece pelo papel de Lucius Malfoy nos filmes de Harry Potter, e mais recentemente interpretando o capitão Gabriel Lorca em Star Trek: Discovery. Mas o ator tem experiência suficiente no esporte de lidar com as entrevistas pré-lançamento de novas séries e filmes.

Mas, no caso de The OA, a série profunda e confusa de Brit Marling e Zal Batmanglij, a preocupação do ator é mais pessoal que ocupacional. “É meio vergonhoso admitir que eu acho que sou um dos maiores fãs dessa série no mundo inteiro”, diz ele. “Não de mim mesmo, obviamente, porque isso seria nauseante, mas da imaginação sem limites deles [os criadores] e como eles conseguem executar as coisas aparentemente mais absurdas com paixão e comprometimento.”

É preciso suspender a descrença para descrever The OA. A 1ª temporada é um amálgama lindo e desconcertante de elementos de fantasia com meditações sobre trauma e perdas – além de intrigas envolvendo a máfia russa, uma prisão subterrânea de vidro e uma série de “movimentos” físicos que são meio videoclipe da Sia, meio pranayama.

A 1ª temporada se foca em Prairie (Marling), também chamado de “OA”, ou Anjo Original, uma jovem que reaparece em sua cidade natal depois de quase uma década desaparecida. A história do desaparecimento – ela foi sequestrada por um cientista chamado Hap (Isaacs) para participar de um experimento envolvendo experiências quase mortais, com o objetivo de viajar entre dimensões – é o motor da 1ª temporada. Bem, pelo menos até o último e controverso episódio, no qual a OA fica ferida num ataque a tiros à escola. Não se sabe o que vai acontecer com ela.

Na 2ª parte, a OA acorda numa nova dimensão – na qual Joe Biden é o presidente dos Estados Unidos e Vincent Kartheiser faz o papel de um maligno executivo de tecnologia – e descobre que está sendo observada por Hap, que também viajou para essa nova dimensão, dessa vez como um psiquiatra encarregado de monitorar sua saúde mental.

É uma continuação vertiginosa, completamente bizarra e ainda assim emocionalmente acessível – apesar dos polvos falantes gigantes e da internet das árvores. A segunda temporada acaba com outro salto entre dimensões, dessa vez com uma virada especialmente inesperada.

Mas, antes de você seguir lendo este texto, Isaacs impõe uma regra: “Você tem de me prometer, sob risco de morte, que vai colocar um ‘alerta de spoiler. Não leia se não tiver assistido até o final. Vai estragar tudo’”. Só então ele concorda em conversa, claramente com medo de estragar a mágica estranha de The OA.

Portanto, considere este um segundo alerta: esta matéria contém spoilers das duas temporadas da série, inclusive a grande surpresa do final da 2ª. Se você ainda não assistiu, feche esta aba agora ou sinta para sempre a desaprovação de Isaacs através da tela.

Netflix
Brit Marling (Prairie Johnson/OA) e Kingsley Ben-Adir (Karim Washington) em cena da série.

Vamos lá. Depois de uma série de revelações fantásticas e inquietantes, Hap leva OA para uma nova dimensão, chegando a um estúdio de Hollywood que é curiosamente parecido com o set da série, incluindo a cadeira do diretor.

OA, incapacitada depois de sofrer uma contusão em trânsito, está cercada de assistentes de produção, todos preocupados e chamando-a de Brit. Com um sotaque diferente, Isaacs aparece e insiste para ficar ao lado dela. “Sou Jason Isaacs”, diz ele. “Ela é minha mulher.”

E assim acaba a parte 2, em um mundo que se parece muito com o nosso, no set de uma série que se parece muito com The OA, com dois personagens que por acaso têm os mesmos nomes dos atores que os interpretam. E, é claro, sobram várias dúvidas.

Graciosamente disposto a discutir as novidades, Isaacs falou com o HuffPost sobre seu segredo para tornar os vilões mais humanos e também sobre esse final muito louco.

HuffPost: Com a promessa de colocar vários alertas de spoiler na matéria, podemos conversar sobre o fim da temporada? Fiquei muito animada.

É extraordinário. É tão audacioso que, quando me contaram, achei que estavam brincando. Achei que queriam ver qual seria minha reação.

Né? Fiquei sem palavras.

É de ficar de queixo caído, né? Um momento “Que porra é essa que acabei de ver? Não acredito que eles fizeram isso na TV”. Foi o que eu senti quando assisti e também quando tive de gravar.

Como a dupla de criadores da série te contou?

Zal e Brit perguntaram se eu queria ir para a sala dos roteiristas quando eles ainda estava escrevendo, e eu respondi que não queria ter nada a ver com aquilo, porque venho contando histórias faz uns 30 anos e muitas das minhas ideias, e as de outros, existem numa sopa gigante de coisas de tudo o que a gente já viu e fez. E eles pareciam tão frescos, tão novos, que encontrariam algo mais original do que qualquer contribuição minha.

Fui jantar com Zal, mais para o fim da preparação do roteiro, e ele me contou. Foi bizarro. Não conseguia me concentrar. Lembro de sair do restaurante cambaleando e dizendo: “Não dá para entender”, chacoalhando os braços feito um louco. Aí ele me acalmou e explicou tudo. Achei o auge da audácia.

Netflix
Brit Marling e Jason Isaacs durante os anos de cativeiro de OA.

Acho que vale a pena perguntar, já que seu personagem insiste que Marling é sua mulher, se você quer esclarecer alguma coisa.

Sim, acho que minha mulher gostaria que eu explicasse as coisas. Sou casado com Emma Hewitt e temos dois filhos maravilhosos. Brit é uma atriz/roteirista magnífica e adoro trabalhar com ela, mas definitivamente não somos casados.

Então estamos todos em The OA?

Bom, não exatamente. Neste mundo não somos casados.

Justo. Talvez você não tenha pensado nisso antes, mas será que Harry Potter existe nessa nova dimensão?

Claro que pensei! E claro que perguntei e recebi a resposta. Mas você vai ter de esperar pela parte 3 para descobrir.

Batmanglij e Marling já escreveram quanto da 3ª temporada? Parece que eles já sabem o que vai acontecer.

Eles escreveram a 1ª temporada por conta própria, sem ter certeza de que a série seria produzida. Isso levou dois anos, e eles tinham 8 episódios prontos. Aí eles traçaram o que aconteceria com todos os personagens nas quatro temporadas seguintes. E aí a Netflix comprou o projeto. Espero que possamos contar todas as histórias, porque, sendo bem egoísta, quero vê-las todas.

Você não deixa que ninguém rotule Hap como um cientista maluco, apesar de ele ser um cara bem diferente, com moral questionável. Por quê?

Bem, todo mundo que assistiu à série sabe que Hap sabe de algo importante. Ele está certo. Ele está prestes a alcançar esse conhecimento extraordinário e, se for bem sucedido, vai mudar a humanidade para sempre. Ou seja, tudo o que sabemos sobre ciência, vida e morte vai evaporar. Todo mundo vai poder viver a vida perfeita, na dimensão que quiser. É uma mudança enorme.

E ele sabe que as implicações disso são tão épicas que ele está preparado para fazer coisa muito desagradáveis e antiéticas para chegar lá. Mas ele não é indiferente. O homem que ele era quando começou o projeto e o homem que ele é hoje sabem que essas coisas são terríveis. Mas ele está de olho na linha de chegada. E não é por ego, mas sim porque esse conhecimento será compartilhado e será muito maior do que tudo o que se sabe até hoje. Pouquíssimas pessoas vão se lembrar de três ou quatro seres humanos sofrendo num porão.

Netflix
OA (Brit Marling) encontrando um mundo novo.

Então ele teve de se livrar da empatia e da compaixão. Mas isso tem seu preço. E o maior preço se apresenta na forma dessa mulher que Zal e Brit, gênios, criaram essa personagem que entrou na vida dele e mudou tudo. Ele estava determinado a seguir esse caminho e fazer o que fosse necessário, mas agora – irracionalmente, o que o frustra – ele quer que um de seus sujeitos volte a amá-lo e a apreciar sua genialidade e sua visão. Que ela seja uma parceira, além de um sujeito da experiência científica.

Isso é uma armadilha que envolve negação e ego, uma coisa linda para um ator. E também é o que garante que ele não seja nem louco nem do mal, porque ele tem perfeito discernimento e sabe que está trilhando um caminho imoral para chegar a um objetivo – e isso cobra um preço.

Dá muita satisfação vendo você sendo mau. O que você procura em papeis de vilões?

Vou começar pela premissa de que ninguém no mundo acha que está fazendo algo errado. Quem faz coisas que o resto da humanidade acha horrível se olha no espelho de manhã e pensa: “Minhas ideias estão certas”. Quando elas são confrontadas com as opiniões dos outros, essas pessoas acham que tudo não passa de um mal entendido. Então o texto tem de refletir isso, porque se o antagonista ficar enrolando um bigode invisível, ninguém vai acreditar nele.

Mas um Lucius Malfoy, por exemplo, é simplesmente um supremacista branco. Ele é racista. Só que, no mundo de Hogwarts, ele odeia os muggles e reverencia os bruxos. Basta mudar a linguagem e você vai perceber que todos os tipos de gente, todos os tipos de fascistas e supremacistas brancos do mundo inteiro, eles não acham que estão errados. Eles acham que nós somos “guerreiros da justiça social” ou qualquer outra coisa que os trolls me chamam. Para mim, ele era um personagem perfeitamente crível. Pego essas partes em que dá para reconhecer a humanidade nos personagens porque acho que elas funcionam melhor na história e para o público. E também porque são as únicas coisas que consigo interpretar.

Em alguns momentos da 1ª e da 2ª temporada, alguns momentos de sadismo ou de crueldade pareciam ter se insinuado no texto. Observei isso para Zal e disse: “Por que ele faria isso? Ele só quer isso”. E eles diziam: “Você tem razão. Não estávamos pensando direito naquele dia. Vamos mudar.” Porque Hap é movido unicamente por seu objetivo.

Netflix
Sonho ou realidade? OA (Brit Marling) presa em uma instituição psiquiátrica.

Batmanglij comparou algumas críticas ambivalentes a The OA com a enorme popularidade de algo como um filme da Marvel. Por que você acha que as pessoas têm dificuldade de aceitar um polvo gigante e dotado de consciência, mas não veem problema em um guaxinim falante?

Os fãs são tão apaixonados não por causa das viradas e dos elementos de fantasia, mas como a série os pega com emoções inesperadas, de maneiras surpreendentes. As coisas parecem muito fortes, e às vezes nem dá para racionalizar por que algo deveria ser tão triste ou tão alegre, por que você está tão envolvido. Não acho que dê para analisar.

É o roteiro, uma coisa que aconteceu nos filmes independentes deles e que está acontecendo nessa série gigante da Netflix. Acho que ela tem muito mais coração que outras histórias fantásticas com as quais ela é comparada.

E também acho que as pessoas falam muito dos elementos absurdos ou surreais porque nunca vimos nada parecido. Em parte porque isso jamais surgiria num processo de desenvolvimento tradicional, em que o roteirista ou uma equipe de roteiristas e executivos ficam repassando as milhares de horas de outras coisas que eles já viram para tentar inventar algo supostamente novo, mas que na verdade é só um punhado de ideias recicladas. Zal e Brit parecem puros porque eles fizeram esses filmes independentes. Suas ideias parecem realmente novas. Não sei de onde elas vêm, mas espero que continuem surgindo.

Você acompanha o que falam sobre a série na internet?

É uma narrativa tão surreal e mágica que as pessoas acabam falando dos elementos, mas pouca gente fala dos temas. Acho que você não será capaz de ter uma visão mais ampla até que todas as cinco partes sejam lançadas, mas Zal e Brit têm muito a dizer. As coisas que leio na internet e acho interessantes eu mando pra eles, porque eles não leem. Eles estão vivendo suas vidas, e espero conseguir fazer o mesmo. Espero que a gente consiga vencer esse vício que cada vez mais nos absorve.

OA (Brit Marling) presa entre dois mundos.

Algo que você tenha mostrado para Batmanglij e Marling que eles tenham realmente adorado?

Tinha uma thread de uma mulher que ia comentando tudo conforme ia assistindo os episódios um atrás do outro. Sei que Brit, Zal e eu estávamos rindo e chorando juntos, vendo a reação de um telespectador. Porque você faz tudo dentro de uma bolha, esperando que haja algum tipo de efeito sobre as pessoas. Mas observar uma pessoa escrevendo em maiúsculas e colocando mil pontos de exclamação a cada minuto – é um lembrete de que as pessoas estão assistindo.

Porque não é uma peça de teatro. Você não está se conectando com o público porque ele não está diante de você. Um dia depois do lançamento, mandei essa thread e todo mundo ficou animado. Depois de trabalhar tanto e apertar “enviar”, a série sobe para os servidores da Netlflix e você está desconectado dela. Não é mais sua. Eles não leem as respostas, mas sei que ficaram empolgados com essa mulher em particular, que estava passando por tudo exatamente da maneira que fantasiamos.

Uma última coisa. Tenho de perguntar sobre os movimentos. Obviamente eles são controversos. Algumas pessoas acham bobo, outras acham forte. Tem algum tipo de sensação de força no set, durante as gravações?

Ah, sim. Eles são fortes porque fazemos em uníssono. Trabalhamos muito para que eles sejam completamente em uníssono. Quando os fazemos no começo dos episódios, quando estamos voltando no tempo, tem um terror no ar. E, quando Steve está fazendo os movimentos na praia, é pura frustração e luto. Eles representam coisas diferentes, que passam pelo seu corpo. Mas alguma coisa acontece quando fazemos juntos. Tem uma mágica indefinível. Mas você tem razão ao dizer que algumas pessoas, bem poucas, acham os movimentos uma coisa boba. Quando os vi pela 1ª vez, disse para Zal: “Uau, acho que algumas pessoas podem achar isso bobo”. E ele respondeu: “É, vai acontecer”. Isso mostra como eles não têm medo de correr riscos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.